A força de Obama e os códigos racistas

Estados inclinados antes, de forma muito confiável, para o lado republicano, estão agora tão favoráveis ao candidato presidencial Barack Obama que alguns estrategistas da campanha democrata já assumem postura muito otimista, acreditando até na hipótese de uma vitória esmagadora. Quatro grandes estados, em especial, levaram a essa mudança: Virgínia, Carolina do Norte, Ohio e Flórida.

Segundo David Paul Kuhn (leia AQUI), que fez essa análise no sempre cauteloso website Politico.com, a passagem deles para a coluna azul de Obama nas últimas semanas faz grande diferença por projetar um cenário novo. Simplesmente torna provável uma vitória do candidato democrata, no mapa eleitoral dos estados, com nada menos de 350 votos eleitorais (bem mais do que os 270 necessários para ganhar).

Ao mesmo tempo, basta ver e ouvir atualmente o painel diário (All Star Panel) do programa “Special Report with Brit Hume”, da Fox News Channel (FNC), onde pontificam os neoconservadores notórios Bill Kristol, Fred Barnes e Charles Krauthammer, para observar um clima de enterro. Já são ouvidas até críticas relativamente duras ao candidato John McCain, por ser incapaz de mudar o quadro.

A culpa aos 8 anos de idade

Na noite de quarta-feira, por exemplo, Kristol e Barnes – que dirigem para o chefão Rupert Murdoch, dono do império Fox de mídia, a revista ideológica de direita Weekly Standard (veja a capa ao lado e leia AQUI o último número) – reconheceram a clara dificuldade encontrada por McCain, no debate desta semana, para explicar direito o seu pacote destinado a beneficiar os devedores de hipoteca ameaçados de perder as casas.

A dupla disse que o plano era complicado e o candidato não soube como vendê-lo ao público (ontem, a campanha de McCain já tinha feito algumas alterações na proposta). Kristol e Barnes, que costumavam referir-se ao candidato como santo e herói, agora ousam fazer ironia (a revista deles, a julgar pela capa com McCain e Palin na bicicleta, está na mesma linha). Até citaram momentos extremamente infelizes de McCain no debate. Ao mesmo tempo, aconselham a campanha a virar o jogo, com comerciais de ataque, citando o casal Ayers e o reverendo Wright.

A colunista Gail Collins, do New York Times, declarou-se impressionada com a obsessão da campanha de McCain com Bill Ayers e Bernardine Dhorn, o casal de professores universitários que McCain conheceu como vizinhos (leia a coluna AQUI). Collins não entende o que McCain fará para vender a “culpa por associação”, já que os Ayers eram extremistas (contra a guerra do Vietnã) quando Obama tinha apenas oito anos de idade.

Receita é legado macarthista

O grupo deles, “Weather Underground”, explodia bombas. Mas quando Obama foi apresentado ao casal, 40 anos depois, os dois eram professores universitários. Agora eles são demonizados todo dia na FNC, empenhada em ligar o candidato ao terrorismo. O apresentador Sean Hannity até levou à Fox um “jornalista da Internet” chamado Andy Martin, anti-semita e extremista de direita, para dizer que os Ayers mandam em Obama.

Falta, no mínimo, senso do ridículo. A campanha de McCain vê no expediente a receita para virar o jogo. No  Times a jornalista Collins contou que conheceu os Ayers quando era estudante. Já eram contra a guerra do Vietnã, mas antes de criar seu grupo militavam no SDS (Estudantes por uma Sociedade Democrática). Naqueles dias Joe Lieberman, hoje amigo de McCain, foi à casa dela. “Será Lieberman culpado por isso?” – perguntou.

“Culpa por associação” era tática a que recorria o macarthismo para assassinar reputações (leia AQUI um paralelo e uma crítica). Collins conheceu ainda o banqueiro Charles Keating, que dava dinheiro e presentes (até viagens em jato privado) ao senador McCain, antes de usá-lo para tentar escapar da cadeia num escândalo financeiro.  Keating fora à escola dela falar contra a pornografia. “Nos padrões atuais de ‘culpa por associação’, como esse episódio é visto?”

Entre os efeitos das declarações inflamadas e de má fé na campanha de McCain contra Obama – principalmente na boca da vice Sarah Palin – estão reações destemperadas de adeptos dos candidatos. Tanto McCain como Palin viram, num desses eventos, pessoas responderem com gritos extremamente agressivos, registrados até pela FNC. Como: “Terrorista! Traidor”, “Vamos matar esse cara”. (Leia AQUI um ataque no site da FNC)

Subtexto com tintura racial

Apesar disso, McCain e a número dois Palin parecem determinados a ir em frente, sem mudar a linha. Em outro incidente, no Novo México, McCain citou reuniões de Obama com os Ayers e fez a pergunta à multidão: “Quem é o verdadeiro Barack Obama?” (Veja acima a pergunta num comercial de McCain.) E uma voz, no público, gritou a resposta agressivamente, dando a impressão de que a cena tinha sido ensaiada: “Um terrorista!”

A própria FNC pode estar percebendo o risco, pois quarta-feira noticiou a queixa de parlamentares negros de Nova York contra a campanha de McCain. Gregory Meeks, um deles, acusou o candidato de recorrer, com certos códigos, “à política do medo e do racismo”. Assinalou: “Eles sabem que não ganharão debatendo temas, por isso voltam-se, como último recurso, para o racismo e o medo”.

A afirmação de Meeks, que considerou essa uma tática “desesperada” ante a derrota iminente, foi feita ao  New York Observer” (leia AQUI), semanário de Manhattan. Outro parlamentar, Ed Towns, identificou um “codigo” usado por Palin ao se referir a Obama: “Ele não é um de nós”. Também a agência Associated Press referiu-se a declarações da campanha de McCain contendo “um subtexto marcado por tintura racial”.

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Published in: on outubro 9, 2008 at 4:00 pm  Deixe um comentário  

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