O triunfo de Obama no segundo debate

Na manhã seguinte ao segundo debate entre os candidatos Barack Obama e John McCain (foto), a diferença entre os dois alargou mais dois pontos percentuais: o democrata subiu um e o republicano caiu um, o que fixou o novo placar em 52% contra 41% – vantagem de 11 pontos para Obama. Esses números foram aferidos antes do início do debate, encerrado por volta de meia noite (veja AQUI o sugestivo gráfico do acompanhamento diário da Gallup a partir de abril).

No debate não ocorreu qualquer nocaute ou mesmo algum escorregão significativo de qualquer dos candidatos. Mas a pesquisa-relâmpago da CNN com a organização Opinion Research concluiu que o melhor desempenho foi de Obama – apontado como ganhador por boa margem das pessoas ouvidas: 54% contra apenas 30%, que preferiram o republicano McCain (leia mais AQUI sobre o resultado).

Ainda de acordo com a pesquisa, ao fim do debate 64% das pessoas estavam com opinião favorável a Obama – 4 pontos percentuais mais do que no primeiro debate; 51%, como no outro, ficaram com opinião favorável a McCain. Obama foi encarado como líder mais vigoroso por 54% (contra 43%). E numa proporção de 2 por 1, 65% a 28%, as pessoas acharam Obama mais “gostável” (likable) do que o rival.

Aqueles excessos prejudiciais

Para mim os números sugerem, embora a CNN/Opinion Research não o tenha explicitado, que McCain excedeu-se numa agressividade destemperada, refletindo estar sob pressão pela queda sistemática, desde setembro, nas pesquisas de intenção de voto. “A vantagem de McCain em ‘liderança’ recuou de 19 pontos em setembro para apenas cinco neste fim de semana”, disse Keating Holland, diretor de pesquisa da CNN.

Para prevalecer a vantagem que esperava ter sobre Obama, nas questões segurança nacional e preparo para ser “comandante-chefe”, McCain teria de voltar ao fundamento da campanha de George W. Bush em 2004 – teria de disseminar o medo, como ao tempo de McCarthy na fase aguda da guerra fria. Como o 11/9 ficou para trás, diminuiu o espaço para isso, mas ele ainda está determinado a explorar o tema – num momento em que a economia é a questão central. (Veja AQUI como a colunista Arianna Huffington é dura na sua análise)

Uma grande maioria dos que viram o debate e foram ouvidos na pesquisa – 57% contra 25% – acharam que Obama foi mais inteligente do que McCain. Consideraram ainda (60% contra 30%, proporção de 2 por 1) que o democrata expressou suas opiniões de uma maneira mais clara do que o adversário. Para 63% (contra 17%) McCain e não Obama passou mais tempo fazendo ataques ao rival.

Metade dos ouvidos na consulta disse que Obama foi sempre mais direto nas respostas; um número 13 pontos percentuais menor apontou McCain nesse ítem. Já os que acharam ter Obama mostrado preocupar-se mais com os problemas das pessoas presentes ao debate (aquelas que fizeram perguntas) foi 14 pontos percentuais maior do que os que citaram McCain.

Ganhando no pior dos ítens

Em matéria de substância, Obama realmente superou muito o rival. A capacidade do democrata de expor dados e números, argumentar e concluir, deixa McCain longe. O republicano tem uma experiência vivida, é verdade, mas passou a adotar um discurso limitado – no qual invoca generalidades e deixa de lado os argumentos – tipo “faço e aconteço”, “sou assim”, “consegui isso”. Francamente, soa mal, soa arrogante. E ele ainda soma a isso o inexplicável desprezo por um adversário que o supera intelectualmente.

Por ironia, a análise da CNN só colocou McCain à frente numa categoria que nenhum candidato gosta de ganhar. Por uma margem de 16 pontos percentuais, os que viram o debate acharam que o republicano pareceu mais com “um político típico” do que o rival. Preocupante também para McCain foi o fato de sua avaliação positiva não ter subido – mau sinal para um candidato atrás nas pesquisas.

Outro dado preocupante para o republicano: a maioria dos eleitores independentes ouvidos achou que Obama ganhou o debate. Nada menos de 54% dos que se identificaram como independentes (nem democratas e nem republicanos) disseram que o desempenho do senador do Illinois foi melhor. Apenas 28% deles responderam que McCain foi melhor.

Como se sabe, dias antes do debate foi revelado que, na opinião do próprio McCain, se ele continuar falando de economia sua derrota será certa – ou porque essa não é sua especialidade e sequer tem apetite para o tema, ou porque sua imagem é de aliado do governo Bush, responsável pelas políticas desastrosas dos últimos oito anos. Depois daquela conclusão é que sua campanha passou a concentrar-se mais em ataques pessoais a Obama.

O rumo perigoso de McCain

Decisões desse tipo, que consistem em multiplicar os comerciais de ataques pessoais (em geral, assassinato de reputação e culpa por associação), têm seus efeitos, apesar das alegações habituais de que “o povo americano repudia quem recorre a tais expedientes”. A verdade é que o democrata John Kerry em 2004, como Mike Dukakis antes dele (em 1988), perderam por causa desse tipo de campanha difamatória.

A eleição tende a ser decidida este ano nos chamados swing states – aqueles que vão de um lado para o outro, navegando ao sabor dos comerciais de TV. Os de McCain tornaram-se especialmente irados e desonestos nas últimas semanas, a ponto de ter havido gritos, num comício republicano, de extremistas que, ouvindo o candidato dizer o nome de Obama, gritavam “Terrorista! Traidor!”, “Vamos matar esse cara!” (Leia mais AQUI)

A pregação de ódio alimenta ainda a campanha republicana nos talk shows de rádio e televisão, onde seus apresentadores estão empenhados numa escalada alarmante. Obama é chamado nesses programas de “terrorista” e “estrangeiro”. A própria Sarah Palin o acusa de “circular com amiguinhos terroristas” (referência a um casal de professores, Bill Ayers e Bernardine Dhorn, que há 40 anos foi de um grupo extremista contrário à guerra do Vietnã). Na TV, a Fox News passou até a apresentar convidados de extrema direita para dizer o diabo de Obama.

Aparentemente McCain acredita ser essa a receita capaz de inverter a tendência e não há indício de que mudará o rumo. Nem na campanha e nem no terceiro e último debate, a 15 de outubro, na Hofstra University de Hempstead, estado de Nova York.

Published in: on outubro 8, 2008 at 5:50 pm  Deixe um comentário  

Brigitte Bardot contra Sarah Palin

Assim as duas aparecem na edição de hoje do conservador Daily Telegraph, de Londres (Foto EPA). E ontem este blog tinha sido alertado, através de comentário enviado por Roberto de Barros Benévolo (leia AQUI), para a carta da Fundação Brigitte Bardot, da França, à governadora do Alasca, Sarah Palin, candidata a vice na chapa de John McCain. O texto é em francês, mas aí vai uma tradução para o português, que pode ser comparada ao original (AQUI) e à versão inglesa (AQUI).

Fundação Brigitte Bardot
Paris, 7 de outubro de 2008
Madame Sarah Palin
Governadora do Alasca
Caixa Postal 110001
Juneau, AK 00811-001
USA

Há mais de dois anos entrei em contato com seu antecessor para denunciar a crueldade da caça aérea aos lobos do Alasca. Agora, estou chocada por saber que a senhora apóia, vigorosa e financeiramente, essa prática indigna, de uma covardia rara.

Suas medidas no sentido de que os ursos polares não continuassem na lista das espécies ameaçadas – para não serem mais protegidos, ainda que ameaçados pelo aquecimento global – demonstram sua total irresponsabilidade, além de incapacidade para proteger ou simplesmente respeitar a vida animal. Mas também é verdade que para a senhora um animal bom é um animal morto!

Ao fazer campanha pela perfuração de poços de petróleo no Refúgio Nacional Ártico para a Vida Selvagem, a senhora coloca ainda em perigo um habitat já fragilizado, como também toda a biodiversidade de uma zona sensível que devia, absolutamente, ser preservada.

Governadora, ao negar a responsabilidade do homem pelo aquecimento global, ao fazer campanha pelo direito ao porte de armas e à prática de atirar sobre qualquer coisa que se mova, ao fazer numerosas declarações de alarmante tolice, a senhora cobre as mulheres de vergonha e representa, por si mesma, uma ameaça terrível, uma verdadeira catástrofe ecológica.

Defender a vida significa mostrar humanidade e compaixão por todos os seres que povoam esta terra doente. Já que só estamos aqui de passagem, por tempo limitado, pense no que estará deixando para as gerações futuras.

Para finalizar, faço um apelo para que não mais se refira a si mesma como “um pitbull de batom”, já que, posso assegurá-la, nenhum pitbull, nenhum cachorro, como nenhum outro animal, é mais perigoso do que a senhora.

Em nome do respeito pela Natureza e sua preservação, espero que a senhora seja derrotada nesta eleição. Desta forma, o mundo inteiro estará ganhando!

Brigitte Bardot, presidente

Feminismo e defesa do meio-ambiente

A governadora Palin, ainda jovem, talvez só conheça o nome Brigitte Bardot pela militância, extremada às vezes, em defesa dos animais. Provavelmente a carta não afetará em nada a campanha, ainda que os americanos mais velhos tenham visto os filmes dela, do final da década de 1950 à de 1970. BB de fato fez diferença no seu tempo de atriz – e ainda faz, com sua atual paixão pela causa a que se dedica há muitos anos.

 

Sou daquele tempo e respeito a militância dela (veja acima uma imagem característica de BB no passado). O que certamente não deve ser o caso dos extremistas dos talk shows do rádio e da TV nos EUA. Um deles, talvez também um dos mais ferozes, é Rush Limbaugh. Imagino as barbaridades que está dizendo sobre a doce BB, já que esse gorducho desbocado tem horror especialmente a duas coisas – feministas, que chama de feminazis (com a conotação de nazistas), e defensores do meio-ambiente, que despreza como econuts (como se não passassem de malucos ecológicos). (Leia AQUI crítica a um ataque dele às feminazis)

Como BB, desde que se aposentou como atriz, passou a ser um pouco feminista (antes, talvez fosse mal vista pelas radicais, por se deixar explorar como “objeto”) e defensora do meio-ambiente, tende a virar um dos alvos naturais dele (conheça AQUI o website da Fundação Brigitte Bardot). E a linha evangélica de Sarah Palin, apesar do esforço dela para herdar as eleitoras frustradas com a derrota de Hillary Clinton nas primárias, é perfeitamente afinada com a pregação de Limbaugh.

De qualquer forma, vale refrescar a memória dos mais velhos. Ao clicar a imagem abaixo do You Tube, os nostálgicos poderão reviver um pouco do tempo de BB.

Published in: on outubro 8, 2008 at 10:55 am  Comments (3)