McCain, em queda, apela para o baixo nível

Esta foto é de John McCain (o de baixo, à direita) e três colegas da aviação da Marinha. A campanha McCain-Palin, em aparente desespero, invoca o heroismo dele e desenterra o caso de William Ayers e Bernardine Dohrn. Esse casal (veja a foto dos dois abaixo, à direita) de Chicago integrou há 40 anos, quando Barack Obama tinha uns oito anos de idade, o grupo radical Weatherman Underground, que explodia bombas para denunciar o envolvimento dos EUA na guerra do Vietnã e bombardeios de áreas civis, como alguns de que McCain participou.

A história é velha, como era velha a história de Willie Horton ao ser revivida em 1988 pela campanha de George Bush II, que despencava nas pesquisas, a menos de dois meses da eleição presidencial daquele ano. O marqueteiro Lee Atwater avisou então: “Ou usamos o comercial de Willie Horton, ou perdemos a eleição”. O filho de Bush, George W, respondeu: “Deixa o velho comigo e vá em frente com o comercial” (saiba mais AQUI e AQUI).

O resto é história: o comercial safado e racista, veiculado durante mais de um mês, desfez os 17 pontos percentuais de vantagem do democrata Mike Dukakis e elegeu Bush I. Em 1991, pouco antes de morrer, com câncer no cérebro, Atwater, arrependido, pediu desculpas a Dukakis e outras vítimas das campanhas políticas sórdidas de que participou. Karl Rove, discípulo dileto dele, aprendeu a lição e em 2004 fez os comerciais Swift Boat que derrotaram John Kerry e reelegeram Bush II (saiba mais AQUI sobre eles).

Um contra-ataque necessário?

No vale-tudo da campanha McCain-Palin, começou a tentativa de repetir tais façanhas sórdidas, já que a vantagem de Barack Obama torna-se cada vez mais difícil de ser revertida por meios decentes. Ainda nas primárias a campanha de Hillary Clinton tentara coisa parecida, sem sucesso: fez comerciais sobre o casal Ayers-Dohrn e reviveu a controvérsia em torno do pastor Jeremiah Wright.

Se a campanha democrata deixar de responder da mesma forma, com comerciais negativos de baixo nível, Obama corre o risco de ser a próxima vítima da escola Atwater da sordidez, que sobreviveu com Rove depois da morte do mestre, de  câncer no cérebro. A imagem de John McCain é a de quase santo, mas na campanha de 2000 o marqueteiro Rove investiu contra ele e se deu muito bem.

O fato ocorreu logo depois de McCain derrotar Bush II na primária de New Hampshire. Ante a ameaça, Rove adotou a receita Atwater na primária seguinte, da Carolina do Sul. Mobilizou a direita religiosa e os racistas para atacar o caso dos “Cinco de Keating” (Keating Five) no escândalo S&L (poupança e empréstimo), a célebre “confissão” assinada por McCain no Vietnã do Norte e até o divórcio do candidato em 1980.

McCain foi então demolido. Depois da derrota nas primárias, ainda fingiu algum tempo ser professor de ética. Mas na atual campanha há muito mandou a ética às favas. No desespero, sua campanha concentra-se na sordidez. Um truque clássico é deixar para o número 2 da chapa os ataques de nível mais baixo – papel que Palin passou a desempenhar há pouco tempo, aparentemente com especial prazer.

“Ele tem amiguinhos terroristas”

Referindo-se a Ayers e Dohrn, ela e os comerciais repetem que “Obama tem amiguinhos terroristas”. A referência é ao radicalismo antiguerra da dupla, há 40 anos, contra o conflito que matou 58 mil americanos (saiba mais AQUI) Depois o casal apresentou-se às autoridades, em 1980 (veja os dois na foto acima, a caminho do tribunal na época), mas o processo contra eles foi invalidado devido aos métodos ilegais a que o FBI recorrera. Obama teve relacionamento superficial com os dois, já então mais velhos, professores de Universidade e militantes de boas causas.

McCain reintroduziu o casal agora, juntamente com ataques a Obama por ter conhecido o investidor e incorporador Antoin (Tony) Rezko, o da foto à esquerda, condenado em 2008 (as doações dele à campanha de Obama foram repassadas a entidades sem fins lucrativos), e o reverendo Wright. A campanha de Obama, assim, julgou também razoável criticar a relação passada de McCain com o banqueiro condenado Charles Keating; sua atuação como piloto da Marinha no Vietnã; e o abandono posterior da primeira mulher para casar-se com herdeira de milhões.

Na manhã desta segunda-feira, finalmente, a campanha democrata revelou que fará comerciais no mesmo tom – revivendo o papel de McCain entre os “Cinco de Keating” – senadores usados por Keating na esperança de escapar à investigação em meio ao escândalo que causou ao contribuinte prejuízos estimados hoje em US$1,4 trilhão – capítulo inicial da atual crise financeira (leia AQUI uma análise atual nesse sentido; e AQUI uma análise feita em 2000, quando a campanha de Bush atacava McCain).

Os outros escorregões do herói

O raciocínio é simples: ao apresentar-se como herói pelos cinco anos que passou em prisões do Vietnã, McCain autoriza a campanha adversária a trazer outros dados de sua ficha militar: 1. sua conduta como piloto foi criticada (três acidentes, um dos quais causou black-out em área civil na Espanha), como também a falta de discernimento (saiba mais AQUI); 2. bombardeava áreas civis no Vientã; 3. assinou “confissão” nas quais declarou-se “criminoso de guerra” pelo que fez.

Os americanos não costumam perdoar quem faz tais “confissões”, mesmo sob tortura (como ele diz ter sido o caso). Francis Gary Powers, o piloto do avião-espião U-2 derrubado sobre a Rússia em 1960, ao voltar anos depois aos EUA foi hostilizado até pela família (sua mulher pediu divórcio). Morreria depois num acidente com o helicótero que pilotava para a TV, informando sobre o trânsito de Los Angeles.

McCain, filho e neto de almirantes, foi recebido como herói ao voltar em 1973. Continuou servindo à Marinha (comandando esquadrão de treinamento) e passou a ter casos extraconjugais (ele mesmo admitiu ter agido mal), motivo do divórcio da primeira mulher – Carol Shep,  mãe de três filhos dele – para casar-se no mesmo ano (1980) com Cindy Lou Hensley, herdeira de um império de cerveja. 

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Published in: on outubro 6, 2008 at 4:01 pm  Deixe um comentário  

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