A estranha morte do “desregulamentador”

Politico.com, website muito popular em Washington, anunciou num artigo ilustrado por Matt Wuerker, seu cartunista exclusivo, “o falecimento na semana passada, devido a complicações causadas por desintegração econômica”, da palavra “desregulamentador”. Acrescentou que, “embora sua idade exata não seja conhecida, acredita-se que tinha uns 45 anos”.

No cartum (veja ao lado), um velho conservador (o topete lembra o de Ronald Reagan), com um guarda-chuva aberto na mão direita por causa do temporal e um lenço na esquerda para receber as lágrimas derramadas pela morte do coitado, acaba de colocar flores no túmulo, onde estão gravadas as palavras R. I. P. – ‘Deregulator’ – 1974-2008. Ou, “Descanse em Paz, ‘Desregulamentador'” e os anos de nascimento e morte.

O desenho é engraçado, o artigo nem tanto (leia-o AQUI). É que o Politico.com preocupa-se excessivamente em parecer neutro. Mas é sintomático que atribua aos democratas o “desejo de matar” a própria idéia da desregulamentação e cite o lamento do ex-lider de Bush na Câmara, o texano Tom DeLay, escorraçado por corrupção. DeLay reconheceu: “Os republicanos já estão correndo para as montanhas”.

O papel de cada um

A última palavra de DeLay foi hills (colinas), mas como Hill é também o prédio do Congresso, preferi a imagem da fuga para as montanhas. Achei sugestivo o artigo deixar claro que “desregulamentação” (deregulation, para eles) também tem a ver com “privatização” e “desestatização”. O fato é que durante anos os republicanos – como nossos tucanos e demos (ex-pefelês) – abraçaram esses conceitos, junto com o da “redução do tamanho do Estado”, etc.

O enterro é disso tudo, mas a posição do Politico.com, meio ortodoxo, não vai tão longe. Evita falar, por exemplo, na corrupção dos desregulamentadores. E é curiosa a afirmação de que, segundo o professor de história Mark Rose, da Florida Atlantic University, a palavra  deregulation entrou para o vernáculo no governo Eisenhower (1953-1961), ganhou popularidade no de Gerald Ford (1974-77) e entrou na moda no de Jimmy Carter (1977-81).

O impacto real, na verdade, foi no período Reagan-Bush (1981-93), a partir do discurso de posse do presidente Reagan – aquele no qual declarou: “o governo não é a solução do nosso problema; o governo é o problema”. Encerrado aquele período melancólico de três mandatos, o democrata Bill Clinton ainda declarou (em 1996), na mesma linha de Reagan e Bush, o fim da era do big government. (Leia seu discurso AQUI)

O assalto republicano de 1994

Pelo menos Clinton teve o mérito de avisar que o fim do big government não significava recuar ao tempo em que cada um tinha de se defender sozinho e sobreviver como pudesse. “Ao invés disso, temos de ir em frente, como uma nação trabalhando em conjunto para poder enfrentar os desafios que temos pela frente. Confiança em nós mesmos e no trabalho coletivo não são virtudes opostas. Temos de ter ambas”, disse ele.

Clinton, no quarto ano de mandato, vira seu partido perder em 1994, o controle das duas casas do Congresso, na campanha republicana do Contrato com a América, liderada por Newt Gingrich (foto), que se elegeu presidente da Câmara. O ideário viera em especial da Heritage Foundation, talvez com o respaldo do American Enterprise Institute – dois think tanks conservadores, que tinham estado no poder também  com Reagan e Bush.

Além da redução do tamanho do Estado, inclusive com menos regulamentações, pregavam cortes de impostos, aumento da atividade empresarial, fortalecimento da defesa e desconfiança das Nações Unidas, onde o pagamento das cotas dos EUA vinha sendo deliberadamente atrasado desde o governo Reagan, num esforço para ampliar o controle sobre a organização.

Na sua primeira campanha presidencial, em 1992, Clinton empurrara de tal forma seu partido para a direita (preferia dizer que era “para o centro”), cooptando ítens da plataforma republicana e desapontando os segmentos democratas mais progressistas. Com o Congresso em poder da oposição, perdeu mais espaço e submeteu-se de forma humilhante, na formulação da política externa, a personagens como o senador racista Jesse Helms, que o impedia até de nomear embaixadores.

Equilíbrio orçamentário, a façanha

Graças à maioria parlamentar republicana, Clinton acabaria ainda por se render parcialmente ao projeto dos neoconservadores, já então influentes no Partido Republicano. A decisão de apoiar a mudança de regime do Iraque, por exemplo, tornou-se lei, aprovada antes pelo Congresso e depois assinada por ele, numa ação conduzida pelo mesmo grupo neocon que mais tarde chegaria ao poder no governo de George W. Bush.

Clinton orgulha-se de ter conseguido o equilibrar o orçamento, após os republicanos acumularem dívida nos 12 anos de Reagan-Bush. Ao menos em parte, deve isso à determinação com que a maioria republicana do Congresso o pressionou. Bush recebeu dele um orçamento com superavit mas deixará um plano orçamentário de US$3,1 trilhões, com déficits superiores a US$400 bilhões este ano e no próximo – mais dezenas de bilhões dos custos das guerras do Afeganistão e Iraque. (Saiba mais AQUI)

E o que aconteceu com a suposta revolução republicana do Contrato com a América? O principal líder, Newt Gingrich, acabou forçado a renunciar à presidência da Câmara, por deslises éticos, para não ser formalmente condenado. Hoje é comentarista da Fox News (saiba mais AQUI sobre a ida para a Fox). Seu principal seguidor, Tom DeLay, líder de Bush na Câmara, era um dos quatro republicanos que recebiam dinheiro do lobista Jack Abramoff na proteção aos interesses de cassinos. Forçado a renunciar, não mais se candidatou (leia AQUI sobre DeLay e Abramoff).

Published in: on outubro 2, 2008 at 12:53 am  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2008/10/02/a-estranha-morte-do-desregulamentador/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: