Receita de McCain: golpes a la Otto Reich

A figura ao lado, que há seis anos foi capa de Newsweek como ponta de lança bushista na América Latina, é o cubano (de Miami) Otto J. Reich. Se alguém ainda duvidava de que um governo republicano de John McCain seria apenas more of the same – ou seja, “mais do mesmo”, um terceiro mandato de George Bush – devemos a O Globo o mérito de, sem querer e sem sequer perceber, ter confirmado a suspeita ao entrevistar esse corruptor da mídia que hoje integra a tropa de choque de dezenas de lobistas na campanha de McCain (saiba mais sobre ele AQUI e leia ainda AQUI a entrevista na qual Reich disse à France Presse que a América Latina não é prioridade de McCain).

Profundamente lamentável, no entanto, é o jornal dos irmãos Marinho ter optado por sonegar aos leitores os antecedentes do entrevistado – o que colocaria a matéria no devido contexto e até a tornaria relevante. Ao somar-se ao contingente lobista da campanha, Otto Reich levou sua larga experiência a serviço de indústrias de bebidas (Ron Bacardi), armas (Lockheed Martin e outras) e cigarros (British American), mais o trabalho sórdido de disseminar mentiras e desinformação em veículos da mídia.

Como cultor dessa última prática subterrânea e golpista, ele foi pilhado pelos investigadores do escândalo Irã-Contras e acusado de “propaganda clandestina” contra países da América Latina. Anúncios enganosos (como o reproduzido ao lado, para recrutar “contras”) e textos fabricados e “plantados” por ele na mídia dos EUA eram depois usados pelo governo Reagan no Congresso como “provas” da necessidade de operações ilegais como a guerra secreta e ilegal da CIA contra a Nicarágua.

Reich visitava pessoalmente veículos da mídia (Miami HeraldNewsweek, Wall Street Journal, New York Times, etc), convencendo-os a publicar artigos (que levava, assinados por autores fictícios) na página de opinião, afinados com os propósitos do governo. Ao mesmo tempo, dava aos veículos informações mentirosas – que a Nicarágua recebia jatos Mig e armas químicas dos soviéticos, que líderes sandinistas eram narcotraficantes, etc. Vários jornalistas cujos textos usavam as informações falsas sem identificar a origem, revelaram mais tarde ter sido o próprio Reich a fonte.

Do complô golpista ao terrorismo

Tendo agido inicialmente na USAID, no começo do primeiro mandato de Reagan, Reich deslocou-se em 1983 para o Escritório de Diplomacia Pública (OPD), a cargo de operações de mídia relacionadas à América Latina e Caribe. Apesar de subordinado ao Departamento de Estado, o OPD prestava-se a patrocinar as ações ilegais dele – “propaganda encoberta” dentro dos EUA, por ordem da CIA e do coronel Oliver North, então no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca (saiba mais AQUI sobre como funcionava esse trabalho de desinformação de Reich).

Tanto North, figura central do escândalo Irã-Contras, como o secretário adjunto para América Latina no Departamento de Estado, Elliott Abrams, seriam depois condenados na Justiça pelas ilegalidades. Reich, apesar de atolado até o pescoço na lambança, ainda passou três anos como embaixador na Venezuela (1986-89), onde agiam os terroristas Luis Posada Carriles e Orlando Bosch, também cubanos de Miami.

Nesta data de 11/9, tão celebrada por Bush, é oportuno lembrar que o terrorismo dos dois, ainda hoje sob a proteção do governo, incluiu a trama da Operação Condor para assassinar em Washington o ex-embaixador chileno Orlando Letelier e também o planejamento e execução do atentado que explodiu um avião da companhia Cubana de Aviación e matou 73 passageiros, civis inocentes, inclusive a equipe cubana campeã de esgrima nos Jogos Panamericanos. (Veja abaixo parte de documento secreto da CIA – cuja liberação deve-se à organização privada Arquivo de Segurança Nacional, com base na FOIA, Lei de Liberdade de Informação – que prova o papel da dupla sinistra no atentado do avião).

Posada e Bosch, os maus exemplos

Os dois atentados foram em 1976, mas Bosch e Posada, ambos treinados pela CIA, dedicavam-se ao terrorismo (fabricação e uso de bombas, sabotagem, assassinatos, etc) desde a primeira metade da década de 1960. Eles perpetraram atentados nos EUA e em outros países. Bosch chegou a ser preso na Venezuela, acusado pela explosão do avião cubano, mas fugiu dali para Miami em 1987, com a assistência do prestimoso Otto Reich, então embaixador dos EUA em Caracas.

A mais recente ação terrorista conhecida de Posada – que agia em vários países do Caribe e América Central – foi no Panamá, em 2000. Acabou capturado e preso ali quando preparava a explosão de uma bomba para matar o líder cubano Fidel Castro, então em visita ao país. De novo graça à influência dos EUA, seria libertado. Ele e Bosch continuam a viver em Miami – no luxo e na mais completa impunidade. Bosch até recebeu uma vez a chave da cidade das mãos do prefeito.

No caso de Posada, o detalhe insólito de sua história é ter sido infiltrado pela CIA no mais alto cargo da espionagem venezuelana – “chefe de operações de inteligência.” Só depois de entrar em choque com algumas autoridades do país, que suspeitaram estar tirando proveito do cargo para fazer serão como traficante de cocaína, é que foi defenestrado (em 1974) e iniciou a preparação do atentado do avião cubano.

A iniciativa no sentido de enfiar Reich no Departamento de Estado costuma ser atribuída ao vice Dick Cheney, sem respaldo do secretário Colin Powell – a exemplo da nomeação de John Bolton. E como o governo percebeu não ter votos suficientes no Senado, devido ao papel de Reich no escândalo Irã-Contras, resolveu nomeá-lo só em caráter precário, em janeiro de 2002, aproveitando o recesso do Congresso.

O fiasco e o repúdio, até de Bush

Reich assumiu e juntou-se imediatamente ao complô golpista da Venezuela, obcecado em derrubar o presidente Hugo Chávez – eleito, reeleito e confirmado em vários plebiscitos. Ele e Elliott Abrams fizeram várias reuniões na Casa Branca com os golpistas, entre eles o empresário Pedro Carmona, que se declarou “presidente” a 11 de abril, fechou o Congresso, cassou os juízes da Suprema Corte e teve de fugir às carreiras dois dias depois.

Ante o fiasco, Reich saiu de cena. Amigos dele na Flórida, como o colunista Andrés Oppenheimer, do Miami Herald, mobilizaram o lobby cubano para pressionar em favor de sua volta ao cargo, a pretexto de estar sendo “injustiçado”. Mas Bush o deixou circular um tempo na Casa Branca e arranjou-lhe um “bico” no conselho da infame Escola das Américas, rebatizada mas ainda dedicada a formar ditadores e torturadores para a América Latina.

Foi o fim da linha para Reich – pelo menos até o desinformado John McCain, na certa depois de ouvir seus próprios lobistas e a máfia cubana de Miami, resolver recebê-lo na campanha. Isso significa que em matéria de América Latina, o terceiro mandato de Bush não será apenas “mais do mesmo”. Pode ser pior do que os últimos oito anos. Basta ler o que disse Reich a O Globo e lembrar, com as três fotos ao lado, a contribuição dele ao golpismo e ao intervencionismo no continente – nos governos de Reagan (invasão de Granada, apoio e incentivo à carnificina em El Salvador e Guatemala), Bush I (invasão do Panamá) e Bush II (intervenção na Colômbia, hostilidade aos governos progressistas da América Latina, ameaça ao petróleo da Venezuela). Devo o arranjo das fotos à própria página de Reich na Internet.

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Published in: on setembro 11, 2008 at 12:34 am  Deixe um comentário  

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