A guerra do império Murdoch contra Obama

Primeiro o New York Post, principal jornal da News Corp, o império de mídia do magnata Rupert Murdoch nos EUA, declarou apoio a Barack Obama, contra Hillary Clinton (foto acima à esquerda). Foi em janeiro, na primária de Nova York. Depois o próprio Murdoch, em entrevista, revelou súbita paixão por Obama (leia AQUI). Disse que poderia até votar nele na eleição geral (mas o principal veículo de ataque, a Fox News, continuou campanha sórdida contra Obama).

Agora, a 56 dias da eleição, Murdoch rasgou a fantasia: na manchete de domingo do Post (veja abaixo e observe a explosão patriótica de cores), declarou apoio a John McCain. Nada a estranhar. Assim agem os impérios da mídia corporativa. O magnata ultraconservador e campeão mundial do jornalismo tablóide, de escândalos, crimes, celebridades, mexericos e baixo nível estava apenas, antes, mandando recado ao republicano. O apoio viria, mas não de graça. E, na verdade, chegou cedo. É incomum jornais se definirem tão cedo, já que isso de certa forma compromete a cobertura.

Trata-se de uma lição eloquente de jornalismo – sobre as relações entre a mídia e  o poder – que as escolas deviam ensinar. Nos EUA olho gordo nas verbas oficiais não é a razão maior. Com interesses gigantescos e múltiplos, os impérios defendem-se ainda contra o interesse público, driblam (e até mudam) leis e regulamentos que afetam a mídia. E véspera de eleição é também hora de acertos delicados e cobrança de faturas.

O realismo do jogo bruto

A diferença entre Murdoch e outros é jogar bruto e ser explícito. Seu império nasceu assim. Embora ideológico, ultraconservador, prioriza os interesses da corporação. Quando o canal da BBC criticou os direitos humanos na China, o governo de Pequim reagiu e exigiu a exclusão da BBC da Sky News. Murdoch, realista, botou a viola no saco. Esqueceu a ideologia e cumpriu a exigência. Tirou a BBC.

Por causa de algo pelo qual nunca teve o menor apreço, liberdade de informação, não iria perder o mercado de 1,5 bilhão de chineses. Ao comprar o Times de Londres e o Wall Street Journal de Nova York foi igualmente realista. Prometeu não se meter na linha editorial e respeitar a independência dos veículos. Consumada a transação, ignorou solenemente a promessa feita aos vendedores.

A atual experiência eleitoral do império Murdoch nos EUA, ao contrário da fase post-11/9 da histeria patrioteira em louvor ao governo Bush, que antes empurrara a corporação, parece danosa à corporação. Dois jornalistas do New York Times mostraram a perda de espaço da Fox News e o salto na audiência das rivais CNN e MSNBC (leia AQUI). Irritada, a rede de Murdoch vingou-se com difamação. Fez até adulteração digital nas fotos dos dois (veja AQUI).

O rumo explícito até novembro

Vale a pena observar tanto o que o Post de Nova York fez nos dias que precederam o seu apoio público a McCain, como o que fará daqui por diante, até a eleição de novembro. No dia 4, a manchete e a foto (à direita) foram de Sarah Palin: “Knock Out!” (Nocaute!). No dia 5 (abaixo, à esquerda), a foto de McCain, “testado na guerra”, e a manchete: “Hero’s Scars” (Cicatrizes do Herói).

Ontem à tarde o prato suculento do website do Post era um escândalo de sexo envolvendo o pastor Jeremiah Wright. O candidato Barack Obama já rompeu com ele há meses, até se desligou da igreja Mas foi usada uma foto antiga ao lado do título em destaque, “O Pastor in Sex Scandal”: Wright junto com  Obama; e, no medalhão inserido nessa foto, a mulher com quem o pastor teve um caso agora (veja abaixo, à direita).

A má fé editorial é escancarada. O nome de Obama, primeiro a aparecer no texto, está na frase inicial, embora ele nada tenha a ver com o relato. E no final, Obama é de novo citado, ao se dizer que Wright é “um embaraço” para ele. O Post diz que a mulher, branca, trabalhava numa igreja de Dallas e traia o marido com o pastor – “destruidor de lares, pois é casado com outra mulher que também tomara do marido”, disse o jornal (leia AQUI o texto na íntegra).

A partir do texto de ontem é fácil prever o que Murdoch, o Post de Nova York e a rede Fox News vão fazer nas próximas semanas. Caso nada, rigorosamente nada, apareça para comprometer de qualquer forma o candidato democrata, a máquina de difamação vai continuar reproduzindo as imagens de sermões de Wright. Se o pastor, que adora aparecer, envolver-se em qualquer coisa, Obama vai de novo para a primeira página.

A mesma difamação de 2004

Jerome Corsi, que escreveu o livro difamatório sobre John Kerry em 2004 (Unfit for Command) e agora lançou The Obama Nation -Leftist Politics and the Cult of Personality (saiba mais AQUI sobre o autor e o livro), na mesma linha, já é presença quase diária na tela da Fox News e nos demais veículos do império Murdoch. Os americanos vão continuar a vê-lo e ouví-lo até novembro, como parte do assalto ao caráter e ao patriotismo do candidato democrata, como também aconteceu há quatro anos.

O ataque é maciço, pois há quatro anos foi inventada a técnica nova de veicular comerciais paralelos para o tema continuar em discussão nos canais de cabo. No caso de Kerry, a desculpa para o ataque era que ao voltar do Vietnã, onde recebera cinco condecorações por bravura, ele ofendera as tropas. Na verdade, ele passara a denunciar a guerra, aderindo aos protestos e relatando fatos que viveu ou testemunhou. Apesar de ter lutado numa guerra da qual o adversário George Bush fugira, Kerry teve seu patriotismo questionado diária e publicamente.

Obama será alvo de ataques iguais. Voltarão a dizer que ele não usa bandeirinha na lapela, que se recusou a jurar sobre a bíblia, que é terrorista islâmico disfarçado, que se nega a fazer juramento à bandeira (Pledge of Allegiance). Mas o website dele na Internet mostra provas em contrário, inclusive a certidão de nascimento (que pessoas juram na tela da Fox News que ele não tem, por ser “estrangeiro”). Em 2004 prevaleceu a difamação. É cedo para saber se em 2008 será a verdade.

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Published in: on setembro 9, 2008 at 9:16 pm  Deixe um comentário  

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