Nova York e o legado de Giuliani

A volta recente, à cena nacional dos EUA, do ex-prefeito Rudy Giuliani, na convenção republicana, justifica recordar a madrugada de 4 de fevereiro de 1999. O imigrante africano Amadou Diallo (foto à esquerda), ao retornar de seu trabalho de camelô em Manhattan para o prédio onde morava no Bronx, enfiou a mão no bolso para pegar a chave e foi abatido por 41 tiros disparados por quatro policiais brancos da controvertida Unidade de Crimes de Rua, criada por Giuliani.

Embora Diallo não tivesse arma, nem um simples cortador de unha, e muito menos antecedentes criminais na Polícia, o prefeito negou-se depois a receber os líderes comunitários e religiosos negros que protestaram contra a crescente brutalidade policial. Ao contrário, deu apoio em princípio à ação dos assassinos – que ainda foram absolvidos posteriormente, a pretexto de ter sido uma “fatalidade”. Mas a mãe da vítima daquela atrocidade policial perpetuou a história no livro My Heart Will Cross This Ocean: My Story, My Son, Amadou (Meu Coração Cruzará Este Oceano: Minha História, Meu Filho, Amadou – veja a capa abaixo e saiba mais AQUI).

Ao percorrer o país hoje exaltando a chapa McCain-Palin e atacando Barack Obama e John Biden, Giuliani sabe que seu sucessor Mike Bloomberg enfrentou de forma oposta, sete anos depois, um episódio parecido. Quatro policiais dispararam 50 tiros contra um carro com quatro rapazes meio tocados após uma despedida de solteiro em boate do bairro de Queens. O noivo, de 23 anos, morreu; dois amigos, baleados, foram hospitalizados.

“É inaceitável e inexplicável”

“Eu posso dizer a vocês, desde já, que para mim é inaceitável e inexplicável que tenham sido disparados 50 tiros contra pessoas desarmadas. Será investigado, mas soa como uso de força excessiva”, disse o prefeito Bloomberg. Ao lado dele, alguns daqueles mesmos líderes que o antecessor Giuliani negara-se sequer a receber – já que optara, em princípio, por justificar a brutalidade policial.

Giuliani tenta faturar no país e no exterior o êxito aparente da política que chamou de “tolerância zero” – a que alguns atribuem a queda da criminalidade em Nova York. Na verdade, a idéia viera da chamada “teoria das janelas quebradas”, de George L. Kelling (leia AQUI o artigo original de Kelling com um colega da Universidade de Harvard, James Q. Wilson, publicado em 1982). Ele seria depois contratado como consultor pela prefeitura de Nova York, com seus discípulos William Bratton e Ray Kelly – uma década antes de Giuliani ser prefeito.

Bratton e Kelly tornaram-se depois chefes de Polícia – ambos demitidos por Giuliani, enciumado com o fato de serem eles os iniciadores da nova política (Kelly voltaria após a eleição de Bloomberg). Mas estudos do FBI já deixaram claro que a redução da criminalidade deu-se em todo o país, graças principalmente à queda do desemprego. Aquela política contribuiu, sem ter sido o fator principal.

O escabroso caso Louima

A contribuição de Giuliani foi a ampliação da brutalidade policial, que nada teve a ver com a redução dos crimes. Os oito anos dele, ao contrário, criaram uma onda de indignação por escândalos que custaram caro ao contribuinte, na forma de indenizações milionárias decididas em ações judiciais. A da família de Amadou Diallo totalizou nada menos de US$3 milhões – pagos pela prefeitura.

Outro caso: ao ser preso sem motivo em 1997, o imigrante haitiano Abner Louima (foto à esquerda) protestou e foi levado pela Polícia de Giuliani a uma delegacia do Brooklyn (veja AQUI como um blog do New York Times recordou o caso 10 anos depois). Ali sofreu espancamento bárbaro (entre outras coisas, enfiaram-lhe um cabo de vassoura no ânus). Teve sorte de sobreviver. Em compensação, recebeu por decisão judicial a maior indenização por brutalidade policial já paga pela cidade: US$8,75 milhões. Segundo o New York Post, hoje ele vive confortavelmente em Miami Lakes, na Flórida, com a mulher, os três filhos e vários carros de luxo.

Esses são apenas dois dos múltiplos casos da gestão Giuliani. A providência mais importante do prefeito Bloomberg, ao substituí-lo, foi recompor as relações da cidade com os líderes de minorias – em especial os negros. Além disso, também tomou a iniciativa de acabar com a Unidade de Crimes nas Ruas, celebrizada nos bairros pobres pela orgia de brutalidade.

Uma proposta indecorosa

Bloomberg, bilionário e dono de uma grande corporação de mídia especializada em notícias econômicas, não tivera experiência política antes. Foi eleito em seguida às ações terroristas de 11 de setembro de 2001. Na ocasião, o zeloso Giuliani, considerando-se insubstituível, “ofereceu-se” para permanecer no cargo mesmo depois de expirado seu mandato.

A proposta exdrúxula e ridícula, a pretexto de que Nova York vivia situação excepcional, acabou abandonada. Giuliani caiu na realidade e afinal transmitiu o cargo na data prevista, como manda a lei. Com um enfoque totalmente diverso, o novo prefeito deu-se tão bem que não teve maior dificuldade em se reeleger, inclusive ganhando apoio de setores democratas, principalmente a comuniade negra.

No episódio de 2006, a conduta de Bloomberg foi exatamente o contrário da adotada pelo antecessor. Ao falar à imprensa sobre o novo excesso policial, ele estava ao lado do chefe de Polícia Kelly e de líderes negros como os reverendos Al Sharpton e Charles Barron. Este, um ex-pantera negra, avisara antes: “Não nos peçam para fazermos apelos a nossa gente para ser pacífica enquanto é assassinada”.

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Published in: on setembro 8, 2008 at 10:58 pm  Deixe um comentário  

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