Nader, Barr e o desafio dos nanicos

Esse aí do lado (de terno e camisa amarfanhados, uma marca dele) é Ralph Nader, de novo candidato à Casa Branca – como em 2000, quando teve uma votação na Flórida superior à vantagem oficial de George W. Bush sobre Al Gore, e em 2004, quando outra vez rejeitou os apelos para desistir e apoiar o candidato democrata, já então John Kerry. Não tem qualquer chance mas seu website (conheça-o AQUI e leia sua biografia sintética) anunciou ontem ter atingido a meta inicial de US$100 mil (ainda espera totalizar US$2 milhões).

A cifra refere-se às contribuições voluntárias para financiar sua campanha. Se for considerado o tamanho do país e as centenas de milhões de dólares levantadas pelas campanhas dos dois grandes partidos, o total é ridículo. Como das outras vezes, quanto mais votos Nader conseguir, pior para Barack Obama e melhor para John McCain. Ele só prejudica o Partido Democrata, ao qual já pertenceu e hoje critica como papel carbono do republicano.

Em compensação, há também, desta vez como antes, um Nader do outro lado. Trata-se do ex-deputado republicano Bob Barr (o elegante cidadão à direita), lançado pelo Partido Libertário e que se diz o único realmente conservador. Ele já está em plena campanha. Vai fazer o papel que em 2000 foi de Pat Buchanan, conservador que tirava votos de Bush. Barr é apaixonado e combativo, como mostrou em 1998, ao integrar na Câmara o grupo de acusadores do presidente Bill Clinton no esforço republicano pelo impeachment.

Os partidões acima da lei

Curiosamente, a campanha de Barr declarou ontem que haverá “consequências jurídicas sérias” se os nomes dos senadores Barack Obama e John McCain forem incluídos nas cédulas para a eleição geral do Texas, pois as campanhas dos dois descumpriram o prazo fatal para o pedido de registro. Conforme os documentos obtidos por Barr, pelo Código Eleitoral o pedido tinha de ser entregue antes de 26 de agosto, o que não aconteceu.

“Tanto o Partido Democrata e o sr. Obama, como o Partido Republicano e o sr. McCain ignoraram arrogantemente o prazo fixado pelo estado do Texas”, disse Russel Verney, diretor da campanha de Barr, em carta enviada ao gabinete do secretário de Estado texano. “A lei é clara e não foi respeitada. Nenhum partido político ou candidato pode se colocar acima da lei”, disse ele depois à imprensa.

Apesar de Barr ser advogado e ex-promotor (além de autor do livro à esquerda, criticando Clinton e defendendo o impeachment – saiba mais sobre ele AQUI), parece óbvio que seu recurso no Texas não terá qualquer consequência. O processo democrático nos EUA não costuma ir tão longe a ponto de negar registro a um dos dois grandes partidos para atender a um nanico como o Partido Libertário. Na verdade, os partidos pequenos é que geralmente encontram grandes obstáculos para registrar seus candidatos.

Os mecanismos restritivos

A campanha de Ralph Nader, por exemplo, ainda tenta completar a coleta de assinaturas para incluir a chapa (que tem o hispano Matt Gonzalez como vice) na opção write in (o eleitor escreve o nome) em nada menos de nove estados, vários deles de grande importância: Georgia, Mississippi, Minnesotta, Wisconsin, Dakota do Norte, New Hampshire, Vermont, Kentucky e até a Flórida, que decidiu o resultado há oito anos.

No Texas, Indiana e Carolina do Norte não aparecerão os nomes de Nader e Gonzalez, mas o número de assinaturas encaminhadas pela campanha bastou para o eleitor poder votar neles, desde que escreva os nomes. No Oklahoma, até essa opção ainda é duvidosa. A campanha de Nader conclama o eleitor a escrever o nome assim mesmo, sem saber se o voto vai valer ou não. Promete fazer um esforço depois para forçar a validação do voto, ainda que com recurso judicial.

Na Califórnia a indicação da chapa Nader-Gonzalez foi aprovada em convenção pelo pequeno Partido da Paz e da Liberdade. Mas na maioria esmagadora dos estados essa chapa sequer tem um partido – é apenas “independente”. Apesar de todo o passado de Nader como campeão das causas do consumidor e dos livros que relatam suas lutas (como a biografia escrita por Justin Martin, da capa ao lado – leia mais AQUI sobre ela), a imagem dele sofreu graves danos depois do problema da Flórida em 2000. Entre outras coisas, levou o Partido Verde a distanciar-se dele.

Contra interesses poderosos

No passado já houve expressivos candidatos independentes ou de terceiros partidos. Nenhum venceu. Os que conseguiram melhores resultados foram Teddy Roosevelt, depois de ter sido presidente republicano, o combativo líder sindical Eugene Debs, um ex-vice de Franklin Roosevelt e ex-secretário do Comércio, Henry Wallace, que cresceu cedo demais e acabou prejudicado depois pelo agravamento da guerra fria, e o empresário Ross Perot em 1992.

O caso de Nader, o grande advogado do consumidor que desafia o poder das corporações desde que era estudante universitário, considerado pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do século 20 nos EUA, compromete o processo americano. Ele sempre teve o que dizer e o faz com seriedade, tem méritos inegáveis, conhece profundamente os problemas do país e não é sequer incluído nos debates presidenciais por ferir interesses poderosos. Por isso, também, encontra resistência e até hostilidade na grande mídia corporativa.

Desde a década de 1950 Nader desenvolve um trabalho de defesa dos interesses do cidadão – a ponto de ter confrontado a General Motors – à época do “o que é bom para a GM, é bom para os EUA”. Ela montou inutilmente uma onerosa operação de espionagem na tentativa de destruí-lo. A vitória nessa batalha credenciou Nader a estender suas causas e criar meia centena de organizações que formaram ativistas, alguns dos quais tornaram-se políticos e parlamentares.

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Published in: on setembro 6, 2008 at 1:57 am  Deixe um comentário  

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