Burrice em cena na obsessão pelo sigilo

Como o candidato John McCain atrelou-se voluntariamente ao atual governo dos EUA e é visto pela oposição como terceiro mandato de George W. Bush, sua campanha devia no mínimo dizer o que fará com as “leis patrióticas” e outros instrumentos dignos da sociedade do Big Brother, criada pela imaginação de George Orwell no seu 1984. Nem no período agudo da guerra fria a obsessão pelo sigilo chegou ao nível desses oito anos da dupla Bush-Cheney.

Há dois anos o Washington Post retomou essa questão em reportagem (leia o texto AQUI) que documentou como voltaram a ser secretas, “recensuradas”, informações sobre o arsenal dos EUA que até já eram, há algum tempo, do domínio público. O Pentágono e o Departameno de Energia, segundo o Post, tratam como “segredos de segurança nacional” dados históricos sobre o número de Minuteman, Titan II e outros mísseis do tempo da guerra fria.

Os departamentos governamentais dão-se mesmo ao trabalho de fazer censura colocando tarjas pretas em partes de documentos velhos e conhecidos, conforme constatou a organização privada National Security Archive (NSArchive), que nada tem a ver com a secretíssima NSA, agência de espionagem, e que em 2005 completou 20 anos trabalhando pela liberação de documentos (veja abaixo, à direita, o cartaz alusivo ao aniversário – e leia AQUI a reportagem publicada este ano sobre a organização pelo Washington Post ). Devolvem-se à condição de proibidas informações sobre o número de armas estratégicas – coisa que nunca antes fora “classificada” – ou seja, ocultada por razões de segurança.

A erosão das liberdades civis

A tendência agravou-se logo depois do 11/9, por ordem do então secretário de Justiça John Ashcroft. As informações obtidas com base na Lei de Liberdade de Informação (FOIA), segundo a estimativa da NSArchive, chegam hoje com mais 22% de censura. Documentos mantidos em sigilo muito tempo e depois liberados voltaram a ser secretos – até alguns de várias décadas atrás. Em pelo menos um caso, mais de meio século depois.

Um analista já se espantara com isso no início de 2006, lembrando que tal coisa é tão idiota – e impossível – como enfiar outra vez para dentro do tubo a pasta de dentes esprimida. Fica no ar a pergunta sobre a causa de ação tão irracional e de efeitos práticos tão duvidosos. A bem da verdade, deve ser esclarecido que a decisão inicial da “reclassificação” é anterior ao período Bush. Nem se sabe como é o processo, pois o próprio memorando que expôs o programa está rigorosamente protegido contra a curiosidade do cidadão – classificado como “secreto”.

Mais relevante do que discutir a significado da palavra “classificado”, do jargão da espionagem, é a própria obsessão pelo sigilo. O procedimento insólito começou timidamente ainda no final do governo Clinton, mas só se tornou ostensivo a partir de janeiro de 2001, quando Bush chegou à Casa Branca. E já estava no centro do palco antes do 11/9 – a data mágica com a qual se justificam violações das liberdades civis.

A eterna vassoura da censura

Pouco depois da posse de Bush já começou a ação oficial contra a liberação de papéis da era Reagan-Bush – na qual várias personalidades do atual governo ocupavam altos cargos. O acesso a documentos passou então a ser sistematicamente dificultado. E o primeiro Procurador Geral de George W. Bush, John Ashcroft, até recorreu a um tom intimidatório na ânsia de justificar a obsessão pelo sigilo.

No segundo mandato de Bush, Ashcroft foi substituído no cargo por Alberto Gonzáles, ex-assessor jurídico da Casa Branca, que se manteve estritamente na linha do antecessor. Mais provocativo, Ashcroft sequer economizara ameaças. “Minha mensagem aos que assustam pessoas amantes da paz com o fantasma da liberdade perdida é esta: as táticas de vocês só ajudam os terroristas”, disse ele.

Na grande mídia corporativa, o New York Times e o Washington Post – apreensivos com a falta de apreço de Bush pela Primeira Emenda – somaram-se na reação à nova moda da “reclassificação” de velhos papéis como sigilosos. Os jornais referiram-se, por exemplo, a uma análise de inteligência que em 1950 considerou “pouco provável” o envolvimento da China na guerra da Coréia.

Redigiu-se tal documento dias antes da entrada de tropas chinesas na Coréia – embaraçoso testemunho da incompetência da espionagem. Se o mundo inteiro já conhecia o conteúdo, para que restabelecer para o papel a condição de sigiloso? O mundo sabia ainda o teor de telegrama do embaixador George Kennan encaminhando, em 1962, a tradução de artigo da imprensa iugoslava sobre o programa chinês de armas nucleares.

Expurgando fatos e personagens

Alguns dos documentos “recensurados” são inócuos ou então embaraçosos para as agências de espionagem envolvidas. Mas a obsessão do governo Bush leva estudiosos a especular sobre o que está por trás do procedimento idiota. Paralelos com erros da espionagem no Iraque (as inexistentes armas de destruição em massa) ou futuros equívocos em relação ao programa nuclear do Irã são inevitáveis.

Segundo o National Security Archive, nada menos de 9.500 documentos (ao todo, 55,5 mil páginas) já retornaram à condição de secretos. Oito deles até já tinham sido publicados como parte da história oficial, editada pelo próprio Departamento de Estado, ou então eram disponíveis até no banco de dados da CIA. Se não serão mais vistos aí, certamente o serão em livros e estudos publicados antes.

Parece que se tenta reescrever a história, como na ficção de Orwell, para deixar de fora os papéis recensurados. Cria-se a “edição revista e reduzida”, ao do tradicional “revista e ampliada”. Como acontecia na Rússia de Stálin, fatos relevantes desaparecem – o que talvez tenha ocorrido com o aperto de mão entre Donald Rumsfeld e Saddam Hussein no Iraque em 1983 (veja ao lado a foto que a mídia dos EUA esconde e, abaixo, o recorte com a revelação sobre o acordo EUA-Iraque em 1984, feita apenas em 2003). Ao falar disso em fevereiro, o mesmo Post sugeriu que ao menos parte do trabalho é, além de impróprio, burro.

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Published in: on setembro 5, 2008 at 1:18 am  Deixe um comentário  

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