Em filme e livro, a arte do jogo sujo na eleição

Tirem o chapéu para Harvey Leroy (Lee) Atwater – ou simplesmente Lee Atwater. O título do documentário com a história dele – veja acima o cartaz do filme, concluído em 2008, e saiba mais sobre ele AQUI – é Boogie Man (Bicho Papão). Uma biografia, de 1996, o chamava de bad boy já no título: Bad Boy – The Life and Politics of Lee Atwater (veja a capa abaixo, à direita). Antes de morrer de câncer no cérebro em 1991, aos 40 anos, ele se declarou arrependido e pediu desculpas às vítimas. Mas Karl Rove, seu discípulo dileto, continua a mil, fazendo a mesma coisa.

A maior façanha de Atwater, já citada antes neste blog (veja AQUI, inclusive o comercial Willie Horton), foi o golpe sujo que ajudou a instalar o primeiro George Bush na Casa Branca, em 1988: de forma desonesta e racista, o comercial republicano tornava Mike Dukakis, rival democrata do velho Bush, quase cúmplice de Willie Horton, um estuprador que fugira da cadeia. A única culpa de Dukakis no caso era apenas estar bem à frente de Bush nas pesquisas.

A princípio Bush vetara o comercial. Mas quando a vantagem de Dukakis chegou a 17 pontos percentuais Atwater recorreu a George W. Bush, conselheiro informal do pai na campanha: “Agora, ou ele autoriza o comercial ou perde a eleição”, advertiu. Acostumado a convencê-lo em momentos críticos, Bush filho deu as instruções: “Fica tranquilo. Prepara tudo. Tenho certeza de que vai concordar”.

Carta arrependida a uma vítima

Sulista da Georgia, celebrizado inicialmente na Carolina do Sul pelos golpes sujos, Atwater recebeu de Bush o prêmio pela vitória de 1988: a presidência nacional do Partido Republicano, dada pela primeira vez a um operador político, ao invés de um político (leia AQUI a avaliação minuciosa de Eric Alterman em 1989 sobre Atwater, na revista de domingo do New York Times). Antes, devido ao sucesso na Carolina do Sul, o marqueteiro de Ronald Reagan, Ed Rollins, o levara para a Casa Branca, como assessor do presidente.

Atwater tinha menos de 30 anos ao ficar clara sua vocação para o jogo sujo e campanhas negativas. Na Carolina do Sul trabalhou para um governador e um senador, sempre com táticas agressivas. Usava pesquisas falsas, que atribuía a “pesquisadores independentes”, e buscava ganhar pelo medo os eleitores do subúrbio – como fez contra o democrata Tom Turnipseed, primeiro alvo conspícuo de suas ações levianas.

Poucos meses antes de morrer, Atwater disse em carta a Turnipseed que uma das maiores indignidades que fizera na carreira fora atacá-lo – entre outras coisas, espalhando a informação de que, como adolescente, o candidato tinha sido tratado com eletrochoques para curar a depressão. “Só agora aprendi mais, com minha doença, sobre a natureza humana, o amor, a fraternidade e coisas que não entendia e provavelmente nunca iria entender”, escreveu ele à sua vítima.

As táticas sórdidas de 1988

O próprio Turnipseed referiu-se a essa carta num artigo para o Washington Post (leia AQUI), publicado em 1991 apenas duas semanas depois da morte do operador político que o golpeara. Atwater fez ainda, alguns dias antes de morrer, um artigo-entrevista para a revista Life. Saiu no número de fevereiro daquele ano, sendo parcialmente reproduzido pela Associated Press e pelo New York Times a 13 de janeiro (leia AQUI).

Nele pedia desculpas a Mike Dukakis pela “crueldade explícita” das declarações que fizera na campanha de 1988. Disse ele: “em 1988, enfrentando Dukakis, eu declarei que ia ‘arrancar a carcaça do bastardozinho’ e ‘fazer Willie Horton ser o companheiro de chapa dele’. Sinto muito pelas duas afirmações. A primeira pela crueldade explícita, a segunda porque me fez parecer racista, o que não sou”.

Desde que caiu doente, Atwater fez vários pedidos de desculpas pelas táticas sórdidas a que recorrera contra adversários, cuja reação era sempre indignada. Mas antes do texto de Life, segundo o Times, raramente ele falava de forma tão minuciosa e tão franca. A certa altura, afirmou ainda: “Em parte por causa de nossa manipulação bem sucedida dos temas de sua campanha, George Bush ganhou bem”.

O mestre superado pelo discípulo

Atwater também disse que, mesmo não sendo o inventor da política negativa, “sou um dos que a praticam de forma mais ardente”. No texto de Life relatou ainda suas tentativas desesperadas para combater a doença e o medo que às vezes tinha, à noite, de “cair no sono e nunca mais acordar”. Talvez os evangélicos da política consigam ver aí alguma lição, mas não sei qual, dado o cinismo anterior de Atwater.

Antes da doença, conforme também assinalou, suas metas maiores na vida eram “dirigir uma campanha presidencial e tornar-se presidente nacional do partido” – ambas atingidas. Sonhava ainda, disse, em se tornar um músico de blues. Em parte conseguiu, pois depois que a matéria de Life foi escrita o disco que tinha gravado, como guitarrista, junto com B. B. King, foi indicado para o prêmio Grammy.

O fim de vida melancólico de Atwater, no entanto, não mudou o rumo das campanhas republicanas. Neste momento ele é superado pelo discípulo Karl Rove (o da foto à direita), que o apresentara ao velho Bush como o melhor do ramo. Rove ganhou para Bush filho, repetindo e ampliando os truques sujos do mestre, as campanhas de 2000 e 2004 (leia AQUI a crítica dura de Paul Krugman às técnicas dele). E hoje impõe a linha negativa de John McCain, que foi vítima dele nas primárias de 2000.

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Published in: on setembro 4, 2008 at 1:42 am  Deixe um comentário  

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