As brigas internas que dividem os republicanos

A governadora Sarah Palin, candidata republicana a vice, já é prato suculento nos tablóides (como o semanário US, ao lado). No mercado de apostas está cotada a hipótese de retirada do nome dela da chapa McCain-Palin, como relatou Katharine Zaleski (leia AQUI) no badalado website HuffingtonPost, de inclinação democrata. E surgem mais suspeitas – sobre a relação dela com a Igreja Pentecostal, a ligação do lobista dela com o infame Jack Abramoff, a investigação de abuso de poder cujo relatório sai no final de outubro, etc.

Na análise de outro democrata – Sidney Blumenthal, assessor da Casa Branca ao tempo dos Clinton (leia AQUI) – a intenção de John McCain era indicar o ex-democrata Joe Lieberman, só não o fazendo para evitar uma rebelião na convenção republicana. Karl Rove pressionava em favor de Mitt Romney, apoiado pela família Bush. Mas, irritado com Rove e já sem chance, Lieberman passou a trabalhar pela governadora Palin.

Para Blumenthal, a escolha de Palin levou o presidente Bush (apesar daqueles oito minutos de elogios a McCain na convenção, via satélite) a se distanciar do processo, sugerindo até que agora se exime de qualquer responsabilidade no caso de derrota da chapa republicana. Além disso, o cancelamento da primeira noite da convenção pode ter reavivado a antiga rivalidade Bush-McCain, levada ao extremo no confronto dos dois na primária da Carolina do Sul em 2000.

Gustav, o furacão providencial

Segundo o relato, McCain agradeceu ao furacão Gustav por livrá-lo de Bush e Dick Cheney, juntos e ao vivo, na primeira noite da convenção. Como não haveria aparência constrangedora de que o presidente e o vice estavam sofrendo humilhação, McCain sentiu-se à vontade para simplesmente cancelar toda a programação, que serviria para expor uma intimidade promíscua de sua campanha com a dupla cujo ibope está no fundo do poço – o que tornou desnecessário algum movimento anti-Bush-Cheney.

Mas o presidente, conforme a mesma interpretação, não gostou nem um pouco da situação. Blumenthal escreveu que Bush teria ficado furioso com McCain, pois queria faturar com pompa e circunstância a sua última apresentação presidencial diante do partido que o indicara candidato duas vezes à Casa Branca. Nesse contexto, a conclusão do presidente é de que foi tratado de maneira desrespeitosa.

O fato de Bush, afinal, ter feito o discurso de longe, graças à tecnologia dos satélites, foi uma saída para não expor as divisões internas. McCain acha que valeu a pena evitar a presença física dos dois na primeira noite, que em nada contribuiria para a imagem que a campanha tenta vender – de que o candidato é um maverick, “independente” e “reformista”. Além disso, a oposição ficaria encantada ao ver Bush-Cheney dominando a noite de abertura e confirmando ser McCain mera continuação dos últimos oito anos.

Guerra pela vontade de Deus

A escolha de Palin também refletiu o impulso para rejeitar o presidente. A campanha de McCain via um abraço de Bush como fatal para o candidato (como o beijo que derrotou Joe Lieberman nas primárias democratas de Connecticut em 2006 (veja a foto abaixo). Só que a vice tem seus próprios problemas específicos, em especial depois da revelação da gravidez da filha. O episódio desautorizou a pregação dela pela abstinência sexual dos jovens até o casamento. E expôs a questão religiosa, a esta altura altamente preocupante.

Em outra análise do HuffingtonPost, Nico Pitney e Sam Stein (leia AQUI) lembraram: em junho Palin falou na Assembléia de Deus de Wasilla, numa formatura, deixando claras suas convicções. Pintou o Iraque como uma guerra messiânica na qual os EUA fazem “a vontade de Deus”. E disse: “Rezem por nossos militares, homens e mulheres (…). E também pelo país e por nossos líderes nacionais, que enviam soldados para cumprirem tarefas de Deus”.

A maior parte daquele discurso refletia ensinamentos da Igreja Pentecostal, na qual Palin foi batizada aos 12 anos. A visão de mundo da governadora sofreu o impacto profundo dessa religião. Desde 1999, o mais alto pastor da Assembléia de Deus de Wasilla, Ed Kalnins, dá uma boa idéia das posições de política externa de Palin – o que nunca aconteceu com Barack Obama em relação ao pastor Jeremiah Wright.

Há quatro anos, numa de suas pregações, Kalnins proclamou que críticos do presidente Bush serão banidos para o inferno. Sugeriu ainda que as pessoas que votassem no democrata John Kerry não seriam aceitas no paraíso. Considerou ainda que os ataques terroristas de 11/9 e a guerra do Iraque foram “disputas pela nossa fé”. E sentenciou: “Jesus operou a partir dessa posição, no modo guerra”.

Criticar Bush leva ao inferno

A religião de Palin não se limita à política externa. Entra até nas propostas dela para a questão energética. Pouco antes de discutir o Iraque, a governadora pediu aos presentes para rezarem pelo projeto do gasoduto de US$30 bilhões que ela quer construir no estado, atendendo aos interesses das gigantes de petróleo e gás. “Acho que a vontade de Deus deve ser feita unindo as pessoas e empresas na construção dessa obra Assim, rezem por isso”, afirmou.

A conduta do pastor dela não fica longe da do pastor Wright (só que na direção oposta), de quem o candidato Obama teve o cuidado e se afastar. Em seguida a um debate Bush-Kerry, Kalnins afirmou: “Não vou dizer a vocês em quem votar. Mas ponho em dúvida a salvação daquele que não votar nessa pessoa”. E acrescentou: “Se todo cristão votar sempre certo, em toda eleição a vitória vai ser por diferença esmagadora”.

Depois de ter insinuado a danação eterna para quem votasse em Kerry em 2004, o pastor Kalnins também condenou vigorosamente o tratamento que estava sendo dado ao presidente Bush por causa das falhas, erros e trapalhadas de seu governo na assistência às vítimas do furacão Katrina. “Odeio críticas ao presidente porque é como criticar o pastor. É quase isso. Não leva a nada, só ao inferno. É para onde levaria vocês”.

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Published in: on setembro 3, 2008 at 12:37 pm  Deixe um comentário  

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