McCain, o furacão e o efeito Palin

Na foto à esquerda, publicada ontem pelo Los Angeles Times, aparecem Sarah Palin, governadora do Alasca e candidata a vice na chapa republicana de John McCain, com uma filha pequena ao lado, a exibir portentoso exemplar de caribu caçado por ela e semi-coberto de sangue. Antes, o New York Times ilustrara uma matéria com foto de Palin em casa (veja abaixo, à direita), sentada num sofá cujo encosto é a pele e a cabeça de um urso polar, sem dizer se também fora alvo da pontaria certeira da governadora.

A ousada Palin já tinha tentado usar sua influência junto ao governo federal para forçar a exclusão do urso polar da lista de animais ameaçados de extinção – tentativa que os cientistas federais rejeitaram (leia mais AQUI sobre a proteção ao urso polar). As fotos podem ganhar votos para a candidata entre os caçadores mas também é possível que muita gente as receba com repulsa.

As imagens sugerem que o efeito Palin tende a ser contraditório. Ainda é difícil avaliar como a governadora conseguirá ajudar a chapa presidencial republicana, a ser consagrada na convenção que começa hoje – se o furacão Gustav não minimizar o espetáculo nas cidades gêmeas St. Paul-Minneapolis. A aproximação da tormenta nessa hora parece indicar o pouco prestígio de McCain com o Todo-Poderoso se comparado ao do presidente George W. Bush, que há cinco anos falou de seu hábito de “falar com Deus”.

Adeus aos votos de Hillary

A Casa Branca anunciou domingo que, devido ao furacão, os delegados republicanos não contarão com a presença de Bush hoje na convenção. Nem mesmo com a do vice Dick Cheney. Sobrou a hipótese de uma fala via satélite, ainda sem confirmação. O que, convenhamos, pode não ser tão mau para McCain, dada a baixa populariade atual do presidente.

Governadores de três estados incluídos na rota do Gustav – Louisiana, Mississippi e Texas – também cancelaram os planos de viagem à convenção, esvaziando o programa do primeiro dia. Assim, aumentou a responsabilidade da governadora Palin como grande atração da festa republicana. O problema é que o efeito da escolha dela continua duvidoso. Houve o impacto inicial, mais pelo caráter insólito. Daqui para a frente, é uma incógnita.

McCain tinha esperança de que os votos do eleitorado descontente de Hillary migrassem para ele, por causa de sua vice. Ao ser apresentada sexta-feira, Palin tinha deixado isso claro. Mas a hipótese agora parece remota. Segundo o New York Times de domingo, as republicanas estão entusiasmadas com a vice, mas não as eleitoras democratas da ex-primeira dama – pelas razões sugeridas sábado neste blog. A decisão Roe v. Wade (da Suprema Corte), que legalizou o aborto, é a causa maior das democratas.

A evangélica Palin quer, ao contrário, revogar aquela decisão, para o aborto voltar a ser crime até nos casos de estupro e incesto. McCain promete tornar isso realidade nomeando juízes conservadores para a Suprema Corte. É clara a falta de sintonia da vice de McCain com as eleitoras de Hillary. Coerente com as posições evangélicas, que rejeitam a teoria da evolução de Darwin, Palin quer ainda forçar o ensino nas escolas da criação segundo a Bíblia; o repúdio de reivindicações de gays e lésbicas; e a aprovação de emenda constitucional definindo o casamento apenas como união entre homem e mulher.

Entre a imagem e a realidade

Na Fox News, o marqueteiro republicano Dick Morris, que tem horror a Hillary, advertiu já no primeiro dia que, apesar do choque positivo do anúncio da candidatura de Palin, ela é arriscada. O pouco apreço da governadora pelo meio-ambiente também parece outro complicador potencial. Jovem e atraente, a ex-rainha de beleza foi apresentada precipitadamente ao resto do país como novidade política.

Nem o esforço da campanha de McCain, que a mídia teima há anos em chamar de maverick, em declará-la independente e papel carbono dele parece convincentee. Afinal, McCain esqueceu suas poucas posições independentes para assumir as da Casa Branca de Bush, inclusive as da direita religiosa, também abraçada por sua vice, que significam atraso e intolerância.

A esta altura já parece claro que os desafios que se apregoou ter ela enfrentado no Alasca, como a falta de ética da cúpula carcomida dos republicanos do estado, não são exatamente como se contou. É cedo para dizer se a imagem vendida pela campanha prevalecerá sobre a realidade. De fato a corrupção da velha guarda republicana no estado, graças a investigação federal do FBI, já está na Justiça, mas a história do suposto heroismo dela omitiu que o papel central foi da oposição democrata e não de Palin.

Também escorregões éticos

O mérito dela no episódio foi demitir-se da Comissão Estadual de Petróleo e Gás e reconhecer publicamente o conluio de figurões de seu partido com a indústria do petróleo – em troca de presentes e suborno. Mas os democratas é que primeiro reuniram as provas e puseram a boca no trombone. No desdobramento, depois de se eleger governadora, Palin obrigou companhias de petróleo e gás a pagar mais impostos (US$ 10 bilhões este ano). Só que, ao mesmo tempo, deu de presente o que elas queriam – a autorização para a construção de controvertido gasoduto.

No caso dos impostos todo o trabalho já fora feito pelos democratas. Coube a ela apenas faturar, com oportunismo, o trabalho desenvolvido pela oposição democrata. Hoje Palin apóia a campanha de Bush para, atendendo à indústria do petróleo, liberar a perfuração de poços no Alasca. Outra crítica ao governo dela é que se concentra no que dá manchete e abandona o resto – assistência à saúde, serviços públicos, rodovias, etc.

Quanto à ética, a própria Palin está sob investigação do Legislativo por abuso de poder: foi acusada de ter afastado o diretor de Segurança Pública, que se negava a demitir sem motivo – e em meio a um divórcio litigioso – o ex-marido da irmã dela, Mike Wooten, um policial estadual. A governadora foi acusada ainda de, antes, como prefeita de Wasilla, ter usado recursos de seu gabinete para viagens de campanha, inclusive os serviços de sua secretária.

(Clique na imagem abaixo para ver e ouvir Palin falar em maio, ao amigo Glenn Beck, dono de talk show e ultraconservador, sobre o processo dela contra o governo federal para tirar o urso polar da lista de animais ameaçados de extinção, deixando o caminho livre à indústria de petróleo para furar poços à vontade no Alasca)

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Published in: on setembro 1, 2008 at 4:05 am  Deixe um comentário  

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