O rolo compressor Biden-Clinton

A dose dupla da noite de quarta-feira na convenção democrata, Bill Clinton e Joe Biden, foi a preliminar adequada para o discurso de Barack Obama ontem à noite, aceitando oficialmente a indicação presidencial de seu partido – já então num estádio com capacidade para 75 mil pessoas. O balanço final no momento em que escrevo, quinta-feira à tarde, é largamente promissor para os democratas.

Coube a dois pesos pesados da política do país, Clinton e Biden, oferecer razões fortes, mais do que convincentes, para enterrar a enxurrada de comerciais negativos de ataque do candidato adversário à suposta experiência insuficiente de Obama para governar, ser comandante-chefe e defender a segurança nacional. Os dois foram enfáticos. Um tinha a autoridade de presidente de dois mandatos. O outro, a de um senador de cinco.

Clinton fez piada com os ataques republicanos a Obama como despreparado para liderar ou ser comandante-chefe. “Soa familiar?”, perguntou. É que disseram a mesma coisa do próprio Clinton. Ele não identificou quem o fizera: foi George H. W. Bush, o pai, em 1992. O velho Bush repetiu a acusação muitas vezes. Chegou mesmo a ir mais longe: chamou Clinton, que não lutara no Vietnã, de fugitivo do serviço militar. (Clique na imagem abaixo para ver e ouvir um trecho do discurso de Clinton)

Clinton e Bush, Obama e McCain

A ironia, no caso do serviço militar de Clinton, foi ter o então presidente Bush, como candidato à reeleição, insistido em desqualificar o caráter do adversário a partir de tal detalhe. Como poderia alguém que se negara a lutar no Vietnã (guerra contra a qual Clinton protestou nas ruas) ser comandante-chefe? Ele não dizia que o próprio filho, George W. Bush apoiava a guerra do Vietnã mas buscou a proteção de amigos do pai para não ter de lutar nela.

O tiro saiu pela culatra em 1992. A questão do caráter, que o velho Bush insistia em introduzir no debate presidencial, voltou-se depois contra ele próprio. Pois em entrevista à NBC o presidente alegou, para eximir-se de culpa no escândalo Irã-Contras (quando ainda era apenas vice), que estivera ausente numa reunião que discutira o assunto – o que seria negado pelos secretários de Estado e da Defesa, que estiveram na tal reunião.

Os advogados da Casa Branca tiveram dificuldades, depois, para conciliar a versão de Bush com os fatos relatados por ele próprio. E a campanha de Clinton explorou o caso – lembrando que a questão do caráter, levantada pelo presidente, passara a perseguí-lo por não ter dito a verdade. Clinton não voltou aos detalhes agora. Poupou o ex-adversário, hoje um ex-presidente com o qual tem participado de missões internacionais.

McCain na lambança de Bush

Ao referir-se às acusações dos comerciais de John McCain a Obama, Clinton preferiu ser econômico. Quem acabou por destroçar o atual conteúdo negativo da campanha republicana, sem sequer poupar seu amigo McCain, foi Joe Biden, no discurso final da noite. Relacionou momentos em que McCain e Obama divergiram. E concluia para cada um: “McCain estava errado e Obama certo.”

Antes de se referir pela primeira vez ao candidato presidencial republicano, Biden não deixou de prestar homenagem (como também fizera Hillary e, depois, o ex-presidente Clinton) aos seus serviços ao país e aos cinco anos e meio que passou no Vietnã como prisioneiro de guerra. E explicou que a amizade entre os dois tem mais de 30 anos, durante os quais viajaram muitas vezes pelo mundo.

Sem questionar o caráter do colega com quem conviveu tanto tempo no Senado, Biden pôs em dúvida sua capacidade de julgamento e avaliação, que o leva agora a defender todos os erros do atual governo Bush – e até aliar-se ao presidente em 95% das votações do Senado. No plenário os delegados em coro repetiam “That’s not change, that’s the same” (Isso não é mudança, é a mesma coisa) a cada lambança recordada. (Clique abaixo para ouvir um trecho do discurso)

Os Clinton na festa da unidade

O candidato a vice também afirmou que a escolha na eleição de 2008 é clara. “Os tempos atuais exigem mais do que um bom soldado. Exigem um líder com sabedoria, um líder capaz de concretizar a mudança que todos sabemos que o país precisa”. Destacou ainda que “o presidente Clinton nos lembrou aqui como é diferente quando um presidente coloca o povo em primeiro lugar” – revivendo o slogan da campanha de 1992 (Put the people first).

Antes dos discursos de Clinton e Biden, a própria Hillary Clinton – como alguns já tinham previsto – interrompeu a chamada dos delegados para a declaração de voto e pediu sua suspensão para que Obama fosse indicado, por aclamação, candidato democrata à presidência. O gesto selou finalmente a tão esperada unidade do partido. “No espírito da unidade e olhos fixos no futuro”, anunciou ela.

O ex-presidente Clinton subiu depois ao palco para o discurso e foi ovacionado por tanto tempo e de forma tão barulhenta que quase teve de implorar para que cessasem os aplausos. “Sentem-se todos, por favor, temos de continuar o programa”, pediu. No discurso disse o que, afinal, corrigiu em parte o maior ataque de Hillary a Obama: “Com Obama e Biden a América terá a liderança de segurança nacional que precisamos”. (E clique abaixo para ver a parte final do discurso de Biden e a chegada de Obama à convenção na noite de quarta-feira)

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Published in: on agosto 29, 2008 at 4:37 am  Deixe um comentário  

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