As duas convenções de Obama

Está havendo duas convenções em Denver, Colorado. A que a maioria das pessoas vêem nas grandes redes de TV (abertas e de cabo) dos impérios de mídia que controlam a opinião do país e a que uma minoria vê em duas redes públicas – a C-SPAN (a da foto acima, na qual Obama viu Hillary discursar), dedicada sobriamente à cobertura do Congresso e às questões de interesse público, e as afiliadas da PBS, com sua grade de informação, debate e entretenimento de nível elevado.

No dois primeiros dias, por exemplo, o país inteiro viu no horário nobre da cobertura da convenção a homenagem ao senador Ted Kennedy e a apresentação da mulher do candidato, Michelle Obama (na segunda-feira); e o keynote speaker, Mark Warner, seguido pelo discurso da senadora Hillary Clinton (na terça-feira, mesmo horário).

As grandes redes, tanto da TV aberta (ABC, NBC, CBS, Fox) como as de cabo (CNN, Fox News, MSNBC) têm suas próprias receitas para disputar a audiência, com intervalos comerciais e tudo. Tais receitas excluem, por opção, a fala de personagens como Jim Leach (líder do grupo Republicanos por Obama, citado ontem neste blog), ou o deputado Dennis Kucinich, candidato presidencial censurado por elas desde 2004 porque sempre diz inconveniências (saiba AQUI porque ele decidiu retirar a candidatura à Casa Branca).

Censurando e desinformando

As atrações maiores do horário nobre aparecem também nas grandes redes, onde as estrelas maiores do jornalismo político discutem os discursos depois em tempo abreviado. As três redes all news de cabo, por sua vez, iniciam a cobertua no início da tarde e a prolongam até ser cumprida toda a agenda da noite. Mas são seletivas – e às vezes, como no caso da Fox, ainda impoem suas restrições de ordem ideológica.

A cobertura de terça-feira praticamente ignorou o discurso de Warner. A Fox News só colocou no ar uns dois minutos da exposição calorosa feita por um político com chance até de chegar em outra eleição à Casa Branca. Nascido em Indiana, cresceu em Illinois e Connecticut e foi a primeira pessoa da família a cursar universidade (George Washington na capital, Harvard em Massachusetts).

O fato de ter sido governador da Virgínia (2002-06) e ser candidato a senador já exigiria atenção. E no discurso ele cativou os que o ouviram contar como criou uma empresa que faliu em seis semanas, outra que durou oito meses e depois ainda teve a terceira chance (“em que outro país isso aconteceria?” – perguntou), que lhe permitiu ser bem sucedido como empresário de telefonia celular (Nextel, depois Capital Cellular).

A Fox News deixou Warner de lado e dedicou o resto do tempo a ataques a Obama por ter como vizinho William Ayers, que há 40 anos (quando o candidato de hoje tinha seis anos de idade) foi ativista do grupo extremista Weather Underground. A TV do império Murdoch não faz cobertura: apenas usa o espaço da convenção como palco para ali produzir seus programas politicamente destemperados.

A singularidade invisível

CNN e MSNBC mostraram o discurso de Warner na íntegra. Já o de Hillary veio por inteiro até na Fox. Como desmentia as previsões catastróficas de “racha”, feitas pela rede, a palavra foi dada ao ideólogo neoconservador Bill Kristol, que negou com veemência ter havido apoio explícito e enfático a Obama. Sua “interpretação”: Hillary ainda rejeita o candidato, já que não retirou os ataques que fizera nas primárias.

Kristol e a Fox viram a prometida catarse de Hillary como golpe de misericórdia no candidato – para selar a derrota de Obama frente a McCain e inviabilizar uma candidatura dela em 2012, quando seria castigada com um boicote dos negros. Mas os fatos atropelaram a “profecia” insólita: primeiro, Obama cresceu com a unidade do partido; depois, um eventual insucesso dele já não privará Hillary no futuro de um respaldo negro.

É difícil enxergar, à distância, as duas convenções que se desdobram em Denver – a descrita nos veículos dos impérios de mídia e a que aparece, completa, nas redes públicas PBS e C-SPAN. O obstinado esforço republicano de difamação, turbinado pela Fox e outros, apela para o racismo envergonhado dos eleitores – e a campanha democrata, insegura, parece tentada a tornar “invisível” a singularidade de Obama.

O momento Hi, daddy da apresentação de Michelle foi emblemático. É a imagem que se prefere vender ao eleitorado – como se o pai e a mãe, formados em Harvard, e as duas filhas, fossem uma família americana igualzinha às outras, brancas, da classe média. Tal preocupação pode até estar afastando a campanha de uma resposta dura, negativa, que já devia ter sido dada à enxurrada negativa do rival McCain.

Kucinich: “Acorda, América!”

O clima favorece há muito a saída da defensiva para o ataque – reclamada por gente equilibrada como Paul Krugman, do New York Times, na sua coluna do dia 24, sob o título “Accentuate the negative” / Acentuem o negativo (leia o texto AQUI). John Kerry perdeu em 2004 porque insistiu em continuar “bonzinho”, mesmo sob o fogo cerrado de uma das campanhas republicanas mais sórdidas da história do país.

Já está claro que McCain copia o exemplo mas até o início da tarde de ontem só o discurso de Dennis Kucinich na convenção esteve realmente à altura da ofensiva adversária. A prova de que encontrou a linguagem e o tom adequados foi o súbito entusiasmo das pessoas na medida em que o discurso avançava, numa condenação candente da lambança generalizada dos últimos oito anos de Bush-Cheney.

A conclamação de Kucinich – coerente com outras admiráveis inconveniências dele, inclusive a formalização do pedido de impeachment de Cheney ano passado na Câmara e do próprio Bush este ano – foi para sacudir e despertar o país (conheça AQUI a fundamentação dele para o impeachment de Bush). “Acorda, América!” – implorou ele. “Acorda, América! Acorde, América!” repetiu. (Clique abaixo para ver e ouvir o curto e inflamado discurso, também na tela da C-SPAN).

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Published in: on agosto 28, 2008 at 3:42 am  Deixe um comentário  

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