Um republicano na convenção de Obama

Na medida em que as convenções partidárias – que no passado de fato tomavam decisões relevantes, entre elas a escolha do candidato presidencial – tornaram-se espetáculos grandiosos, coloridos, roteirizados e coreografados, também perderam o poder e as funções práticas que tinham antes. Hoje elas servem apenas para referendar candidatos previamente escolhidos em primárias e caucuses.

No caso democrata, a última convenção que definiu de verdade o candidato pode ter sido a de 1960. John Kennedy realmente foi escolhido ali, em Los Angeles, graças a ações e manobras para neutralizar a mal disfarçada pretensão de Adlai Stevenson à terceira tentativa (perdera duas vezes para Eisenhower) e a habilidade de Lyndon Johnson, a raposa que líderava os democratas no Senado.

Johnson só se conformou com o desfecho – favorável ao seu liderado Kennedy, que criticava como eterno ausente no plenário do Senado – porque o escolhido, certo de que Johnson seria fundamental para ganhar os votos do Texas, tomou a iniciativa de convidá-lo para vice da chapa. Claro que tinha razão, pois mesmo com o Texas ainda foi preciso fraudar urnas no Illinois para garantir a vitória.

Kennedy, Michelle e Leach

A imagem que ficou no folclore político como ícone das convenções do passado é a de salas enfumaçadas nas quais os chefões e fat cats negociavam e decidiam. Por sinal, coube aos democratas de Nova York dar o pior exemplo, simbolizado na figura do Boss Tweed, o chefão William Tweed de Tammany Hall – sede da máquina política corrupta onde eram feitos negócios escusos, acertos políticos e distribuição de empregos (na caricatura de Thomas Nast em 1870, abaixo, ele é o gordo do “Anel de Tamanny”).

Ganhou a democracia com as mudanças mais recentes? Só é certo que os hábitos mudaram, mas é sempre confortador acreditar que mudaram para melhor. Pelo menos agora a queixa, em relação às convenções partidárias, é de que deixaram de ter a função de escolher candidatos pelo conchavo, tornando-se grandes espetáculos coloridos de discursos vazios, encenados especialmente para a TV.

O primeiro dia da convenção democrata, por exemplo, foi marcado por dois momentos emocionais. A homenagem ao senador Ted Kennedy, único sobrevivente dos três irmãos que marcaram dramaticamente a política do país. E o discurso da mulher do candidato, Michelle Obama, que pode ter acrescentado muito à imagem do candidato, definido na mídia pela difamação e pelos comerciais sórdidos do adversário.

Mal foi notada, no entanto, uma presença diferente – e significativa. A do ex-deputado republicano Jim Leach, que foi um crítico extremamente ativo do governo democrata do presidente Bill Clinton e também das trapalhadas anteriores (em Arkansas) do casal Clinton, que motivaram a investigação de três promotores especiais, culminando num processo de impeachment.

Em busca dos antigos valores

As críticas de Leach, no entanto, costumavam ser bem fundamentadas. Limitavam-se quase sempre à área econômica e financeira, especialidade dele. Moderado e sério, ele agora vai liderar na campanha o grupo “Republicanos por Obama”. Aderiu com entusiasmo à plataforma da mudança por estar convencido de que “ficou claro para todos os americanos que algo está fora de controle em nossa grande república”.

“Como republicano, eu me apresento diante de vocês com profundo respeito pela história e pelas tradições de meu partido”, explicou Leach (que aparece na foto à esquerda). “A liderança extraordinária de nossa nação em tantas áreas simplesmente não se reflete na brigalhada e na política ideológica de Washington. Raramente a defesa de uma nova ética política foi colocada de forma tão convincente. Raramente um líder emergente (Obama) se ajusta tanto à necessidade do momento”.

Na eleição de 2004 um governador fisiológico da Geórgia, mais afinado com a linha da Confederação sulista, bandeou-se para o governo Bush e discursou na convenção republicana. Era figura claramente menor. Este ano John McCain conta com o amigo Joe Lieberman, que deixou de ser democrata por ter sido repudiado pelo voto dos eleitores do partido. Mas Jim Leach está longe de tais posturas políticas oportunistas.

Ele preferiu comparar Obama aos ícones de seu partido – Abraham Lincoln, Teddy Roosevelt, Dwight Eisenhower. Liberal e sóbrio, não se ajusta à linha bushista, da guerra do Iraque, da ameaça de mais guerras no mundo, do controle partidário por evangélicos fundamentalistas, dos maiores déficits orçamentários da história. “O Partido Republicano desligou-se dos valores republicanos”, disse ele.

Uma biografia de respeito

Aos 65 anos, Leach tem um compromisso com a própria biografia. Nascido no pequeno Iowa, ocupou por 30 anos sua cadeira na Câmara dos Deputados e presidiu a importante comissão de Bancos. Mas discordou do boicote dos pagamentos à ONU, da retirada da Unesco, da rejeição de decisões da Corte Internacional de Justiça e também do abandono do Tratado de Proibição Ampla dos Testes Nucleares.

Embora tenha apoiado a guerra do Golfo em 1991, aprovada na ONU, votou contra a invasão do Iraque em 2002 e foi o único republicano a ficar contra o corte de impostos de Bush (em favor dos ricos) em 2003. Mesmo sendo crítico de Clinton no caso Whitewater, questionou o Departamento de Justiça por ter permitido ao promotor Ken Starr incluir na sua investigação o caso de sexo (Lewinsky), que levaria ao impeachment.

Formado nas Universidades de Princeton, Johns Hopkins e London School of Economics, ele foi primeiro diplomata, servindo na ONU e na Comissão de Desarmamento em Genebra. Renunciou em 1973, em protesto contra a decisão do presidente Nixon de demitir um ministro e dois promotores, para deter a investigação de Watergate. Hoje é professor da Woodrow Wilson School, de Princeton, e diretor interino do Instituto de Política da JFK School of Government, de Harvard.

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Published in: on agosto 27, 2008 at 3:20 am  Comments (1)  

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