Lições amargas da convenção de 1948

Em tempo de convenções partidárias nos EUA, o nome que sempre me vem à cabeça não é o de algum candidato presidencial mas o de autores e jornalistas que no passado foram rigorosos na avaliação desses eventos. Na peça The Best Man (veja a capa do livro ao lado), Gore Vidal maltratou Joe Cantwell (visto como um John Kennedy aventureiro e ambicioso) e exaltou William Russell (um Adlai Stevenson honesto demais para ser político).

The Best Man virou filme em 1964 – com roteiro de Vidal, direção de Franklin J. Schaffner, Henry Fonda como Russell e Cliff Robertson como Cantwell. Vidal, nascido numa família de políticos (a mesma de Al Gore), não só sabia tudo sobre eleições como chegou a ser candidato e, depois, comentarista cáustico na TV – o que lhe abreviou drasticamente a carreira na cobertura de convenções.

Mas o mais implacável na cobertura de convenções, eleições e políticos em geral, pode ter sido o cético H. (Henry) L. (Louis) Mencken. Como colunista, ele foi a todas entre 1906 e 1948, quase sempre a serviço de seu jornal, o Baltimore Sun. Esse conservador escrevia muito bem e odiava a burrice. Não tinha a menor paciência para o gosto e a (in) cultura dos americanos. Mencken era impiedoso nas suas avaliações.

Mencken contra Roosevelt

Quando ouvi falar pela primeira vez de Mencken ele já tinha morrido. Crítico literário desde o início do século, celebrizado por publicações como Smart Set e American Mercury, nem por isso abandonava o jornalismo. E não poupava os políticos, entre eles o presidente Franklin Roosevelt em pleno New Deal. Mas era ainda mais rigoroso com os próprios colegas jornalistas (veja à direita a capa de uma recente biografia dele e saiba mais AQUI sobre o livro).

Conta-se que em 1934, no célebre banquete anual do Gridiron Clube, quando os papéis se invertem e cabe ao presidente vingar-se das críticas da imprensa, Roosevelt resolveu ser devastador contra os jornalistas. Mas somente no final de seu discurso o presidente revelou que todos aqueles ataques e farpas tinham sido citações de Mencken, na época o mais impiedoso de seus críticos na imprensa.

Convidado pelo Departamento de Estado em 1978 a visitar os EUA, com o privilégio de escolher o roteiro, fiz questão de incluir a cidade de Baltimore e a redação do Sun. O jornal pediu então ao seu editor Theo Lippman Jr. – que acabara de lançar um livro (A Gang of Pecksniffs) reunindo 32 artigos de Mencken com críticas e desabafos contra donos de jornais, editores e repórteres – a ser meu cicerone, levando-me inclusive à biblioteca do célebre escritor.

Rebeliões à esquerda e à direita

Mencken morreu em 1956, oito anos depois de sofrer um derrame que praticamente pôs fim à sua carreira de autor e jornalista. Até hoje é lembrado em especial seu papel como jornalista (colunista) na cobertura irreverente, que fez o mundo rir dos EUA, do “julgamento do macaco” em 1925 – no qual era réu o jovem professor John Scopes, que ousara ensinar na sala de aula, em Dayton, Tennessee, o que era a teoria da evolução, de Darwin.

As últimas convenções partidárias cobertas por Mencken como jornalista foram as duas de 1948, no início da guerra fria – o mesmo ano em que o presidente democrata Harry Truman comemorou a vitória nas urnas exibindo a manchete do Chicago Tribune que anunciava o triunfo do adversário republicano Thomas Dewey (veja a foto à direita). A convenção democrata, na Filadélfia, foi uma das mais conturbadas da história.

O partido de Truman, no poder desde a morte de Roosevelt em 1945, rachou duplamente: à esquerda, o ex-vice-presidente Henry Wallace, considerado pela ala progressista o herdeiro legítimo de Roosevelt, tornou-se candidato do Partido Progressista; e à direita o Sul racista, liderado pelo governador Strom Thurmond, da Carolina do Sul, rebelou-se contra a proposta do prefeito Hubert Humphrey, de Minneapolis, de incluir os direitos civis na plataforma.

A surpreendente reviravolta

Se Thurmond não tivesse abandonado a convenção, Truman poderia ter perdido a indicação presidencial, pois o candidato do Sul – o senador Richard Russell, da Georgia – só foi derrotado, no final, por margem muita estreita. Com aquele desfecho, Thurmond então lançou-se candidato pelo pequeno grupo criado para os racistas – o Partido dos Direitos dos Estados, conhecido como Dixiecrat.

Os dois rachas pareciam condenar à derrota a chapa democrata encabeçada por Truman. Wallace tinha crescido muito em seguida ao seu lançamento, com grandes comícios que incluiram a participação ativa de celebridades de tendência esquerdista. Mas o clima da guerra fria, com o início da caça às bruxas que se agravaria nos anos seguintes, enfraqueceria gradativamente o apoio popular ao ex-vice-presidente de Roosevelt.

Mesmo assim, as perspectivas pareciam amplamente favoráveis ao candidato republicano, Tom Dewey, já que Truman perdera apoio à esquerda e à direita no próprio partido. A derrota do republicano foi uma surpresa. Wallace, que chegara a liderar muitas pesquisas no primeiro momento da candidatura, acabou num distante quarto lugar, atrás de Truman, Dewey e até do racista Thurmond, do Dixiecrat. (E veja abaixo uma foto histórica, do National Press Club: Mencken escreve sua coluna em plena convenção democrata de 1948)

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Published in: on agosto 26, 2008 at 2:31 am  Deixe um comentário  

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