Denver entre a festa e o desafio

O senador Joe Biden era candidato no início das primárias (veja à esquerda seu logo da época). Agora é o vice do ex-adversário Barack Obama (veja à direita o cartaz dos dois juntos). Consumada a chapa, a Convenção Nacional Democrata começa hoje em Denver, Colorado. Adversários republicanos apostam num desastre de relações públicas, ao invés dos habituais espetáculos roteirizados e coreografados. Confiam num imprevisível desafio dos Clinton, embora menos traumático do que a rebelião de 1968.

Há 40 anos contestadores indignados com a guerra do Vietnã e frustrados com o assassinato do senador Bob Kennedy em Los Angeles, depois da vitória nas primárias da Califórnia, enfrentaram a polícia de Chicago nas proximidades da convenção. Hoje os adeptos de Hillary estão frustrados mas o apoio público dela à chapa do partido parece longe de sugerir qualquer tipo de confronto.

Ela própria foi enfática ao falar da escolha do companheiro de chapa de Obama. “Ao indicar meu colega e amigo, senador Joe Biden, para completar a chapa presidencial, o senador Obama manteve-se fiel às melhores tradições da vice-presidência. Escolheu um líder excepcionalmente vigoroso e experiente, além de dedicado servidor público”, declarou a senadora e ex-primeira dama.

Mas a campanha do republicano John McCain encarregou-se de veicular, no mesmo dia, um comercial contendo os ataques dela, quando ainda disputava as primárias, contra o colega democrata que agora ela declara apoiar. Clique na imagem abaixo (do You Tube, para ver e ouvir na íntegra o comercial de McCain no qual é ela a principal estrela.

O fantasma que reaparece

Manifestações de outras personalidades citadas antes como cotadas para integrar a chapa – como os governadores da Virgínia, Tim Kaine, e de Kansas, Kathleen Sebelius, e os senadores Chris Dodd e Claire McCaskill – foram igualmente entusiásticas. Os Clinton, aliás, estarão ainda entre os oradores especiais da convenção, amanhã (ela) e quarta-feira (o ex-presidente Bill Clinton).

Apesar disso, comentaristas da Fox News – do império Murdoch de mídia – continuavam ontem a prever que coisas terríveis podem acontecer. William (Bill) Kristol, um dos ideólogos neoconservadores que ajudaram a “vender” ao país a invasão do Iraque, só faltou conclamar a facção feminista do Partido Democrata à guerra. Ele lembrou que Hillary teve 18 milhões de votos e Biden apenas 9 mil.

Biden, na verdade, retirou-se da disputa ainda nas escaramuças iniciais das primárias. Até comentaristas da Fox News, entre eles o próprio Kristol, reconheceram que Biden, que está à direita de Obama, é um reforço para a chapa devido à larga experiência e por ter presidido duas das comisões mais importantes do Senado – a de Justiça e a de Relações Exteriores, atualmente sob a presidência dele pela segunda vez.

A palavra fácil – ou vazia

O pequeno estado de Delaware, que Biden representa, tem apenas três votos no colégio eleitoral. Mas esse senador católico sempre cultivou também o eleitorado do vizinho e bem mais importante (e populoso) estado da Pensilvânia. Candidado potencial à Casa Branca pela primeira vez em 1988, acabou desistindo em seguida à crítica de que “plagiara” discurso de um político britânico, Neil Kinnock.

Esse episódio foi prontamente recordado, horas depois da indicação anunciada por Obama, mas a Fox News e demais veículos que o fizeram não se deram ao trabalho de explicar que Biden citara algumas vezes o autor original da frase usada, com um paralelo entre suas razões e as do político britânico. Seu pecado teria sido apenas o de deixar de fazê-lo pelo menos uma vez, conforme o argumento em sua defesa.

Apesar da relevância discutível do caso, os críticos republicanos acham Biden muito capaz de mais escorregões porque fala pelos cotovelos. Na Fox News, o recado ontem do diretor da sucursal de Washington, Brit Hume, foi nesse sentido. Ele contou ter publicado artigo uma vez sob o título “Shut Up, Biden” (Cale a boca, Biden), para fazer reparos a coisas ditas por ele.

Uns dois anos depois, ao ouvir queixa do senador, em conversa informal, de estar sendo relegado, Hume argumentou que o senador falava muito nas entrevistas mas na hora da edição não se conseguia achar soundbites – aquelas frases sucintas que a TV adora. “Sabe o que é?”, disse Hume a ele. “O senhor é um ‘saco de vento’ (windbag, no original inglês)”.

Impossível como “cão de ataque”

Na versão de Hume, o próprio Biden teria concordado, mas o compromisso da Fox News com a verdade não é lá essas coisas. Tanto Hume como Kristol, ao mesmo tempo, dizem que o candidato democrata a vice é “ótima pessoa”, “sujeito muito decente”, mas que terá dificuldade em fazer o papel mais importante que cabe a um número dois da chapa: o de virar “cão de ataque” do candidato presidencial.

Além disso, os dois estão convencidos de que Biden, apesar de “escolha sólida”, não será capaz de “unir o partido” e “unir a convenção”, o que exigiria Hillary Clinton (na verdade, há meses a Fox dedica-se a pregar essa chapa Obama-Hillary). Para Hume, Biden não vai atrair eleitores centristas e conservadores – os que, diz estarem fora do circuito de Obama. “E este país é centro-direita”.

A Fox reproduziu esta fala anterior de Hillary aos seguidores: “Eu preciso de um presidente com o qual eu possa trabalhar. E vocês também”. Essa manifestação insólita explica a também insólita palavra-slogan forjada no grupo dela: NOBAMA. Equivalente a “não” a Obama. Talvez por isso, a esperança democrata é de por fim à ambiguidade durante a convenção. Mostrar que isso é coisa da Fox e demais inimigos.

Mas não só Hillary atacou Obama nas primárias democratas. O próprio Biden, como ela, fez crítica dura a Obama por candidatar-se sem ter suficiente experiência. Embora tenha bem mais tarde passado a apoiá-lo, inclusive contra Hillary, Biden confirmou a crítica no debate da rede ABC, como mostra sua resposta à pergunta de George Stephanopoulos, reeditada depois pela CNN (clique abaixo para ver e ouvir).

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Published in: on agosto 25, 2008 at 1:18 am  Deixe um comentário  

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