Vozes do passado na crise dos mísseis

Se dependesse apenas de generais como Curtis LeMay, chefe do Estado Maior da Força Aérea e arquiteto da estratégia nuclear, e David Shoup, voz dos Fuzileiros no Estado Maior Conjunto, ou de políticos como o senador Richard Russell, presidente da Comissão das Forças Armadas, teria havido em 1962 um confronto nuclear, de conseqüências imprevisíveis, entre as duas grandes superpotências.

Essa já era a suspeita de alguns historiadores da Guerra Fria, mas em 1997 surgiram afinal as provas definitivas: as próprias vozes, gravadas secretamente, dos personagens centrais nos EUA da crise dos mísseis de Cuba, vivida há quase 46 anos. Durante 13 dias e noites, em outubro de 1962, o mundo esteve à beira da catástrofe nuclear – como contou Robert (Bob) Kennedy em seu livro Thirteen Days, ampliado depois e transformado em 2000, graças a mais depoimentos, no docudrama do mesmo título (veja acima a capa do DVD).

O que disseram naqueles dias tensos o presidente John Kennedy, o irmão Bob (secretário de Justiça na época), o vice-presidente Lyndon Johnson, os secretários Dean Rusk (de Estado), Robert McNamara (Defesa), Douglas Dillon (Tesouro), os chefes do Estado Maior Conjunto e outras autoridades tornou-se conhecido em 1997 graças ao livro The Kennedy Tapes: Inside the Cuban Missile Crisis (As fitas de Kennedy: por dentro da crise dos mísseis de Cuba), de Ernest May e Philip Zelikow.

“Como o mundo não acabou”

May e Zelikow, professores de História em Harvard, explicaram e analisaram as fitas transcritas no livro (algumas ainda são mantidas em sigilo). O livro transcreveu mais de 260 horas de gravação das discussões no gabinete oval da Casa Branca e na sala das reuniões ministeriais, além de chamadas telefônicas. Só o presidente, o irmão Bob e dois ou três auxiliares próximos sabiam do sistema de gravação.

A crise dos mísseis começou no dia 14. Um avião-espião U-2 documentara, num de seus vôos sobre Cuba, a instalação de plataformas de lançamento de mísseis. As forças armadas ficaram em “alerta vermelho”. As gravações transcritas permitem acompanhar o desdobramento da crise, só superada com a trégua negociada por Kennedy e o então premier Nikita Kruschev. Navios com mais equipamentos para Cuba deram marcha-a-ré e retornaram à Rússia, apesar de ameaça anterior de desafiar o bloqueio dos EUA.

Segundo expressão de um analista americano, as fitas cujo conteúdo o livro transcreveu mostram “como o mundo não acabou”. De fato, ali há momentos dignos da ficção de Hollywood. Como o desafio do general LeMay à opção do bloqueio, preferida pelo presidente (saiba mais sobre o general AQUI, num breve texto da TV pública, PBS). O chefe militar (notem na foto ao lado a abundância de medalhas no peito dele) praticamente chamou Kennedy de covarde por descartar a proposta de ação militar imediata.

“Para mim, bloqueio e ação política só levam à guerra”, diz LeMay na fita gravada. “É quase tão ruim como Munique (o pacto com Hitler em 1938). (…) Não vejo nenhuma outra solução além da ação militar direta – e imediata! (…) Bloqueio e ação política serão vistos por nossos aliados e pelos neutros como fraqueza. Nossos próprios cidadãos vão achar isso. É muito ruim, sr. presidente”.

Um presidente encurralado?

Terminada a reunião, o general David Shoup, chefe do Estado Maior dos Fuzileiros, ainda ficou na sala com LeMay, a quem elogiou por ter encurralado Kennedy. “Nossa, você puxou o tapete dele!”, disse Shoup. “Jesus Cristo, que diabo você está dizendo?” – pergunta LeMay. E Shoup: “Alguém tem de impedir essa conversa de pacifismo. (…) Acabe com o filho da puta. É isso!”.

Esse diálogo ocorreu sexta-feira, 19 de outubro – quinto dia de discussões na Casa Branca após a descoberta dos mísseis soviéticos em Cuba. No dia 22, alarmado com a linha dura dos chefes militares, o presidente Kennedy pediu ao secretário Assistente da Defesa, Paul Nitze, para se certificar de que nenhum deles iria disparar arma nuclear sem a autorização presidencial.

“Não quero essas armas nucleares sendo disparadas sem que eu saiba. (…) Podemos cuidar disso, Paul? Precisamos expedir nova instrução”, disse Kennedy. “Volto lá e digo a eles”, respondeu Nitze. Kennedy perguntou então se “eles são contra expedir nova instrução”? E Nitze: “São. Acham que compromete as instruções em vigor”.

Nitze explicou ainda a Kennedy, na resposta, que “o contato estratégico da OTAN (jargão militar para ataque nuclear russo) exige, em tal situação, a execução imediata do E.D.P.”. E Kennedy: “O que vem a ser E.D.P.?” Nitze: “European Defense Plan (Plano de Defesa da Europa). Significa guerra nuclear”. “Não. É por isso que a instrução tem de ser expedida”, reiterou Kennedy, tornando a ordem inequívoca. “E o que temos a fazer é nos certificarmos de que esses caras saibam disso”.

“Berlim na guerra generalizada”

Em outro diálogo, o subsecretário de Estado George Ball manifestou o temor de ficarem os EUA estigmatizados “se atacarem Cuba primeiro, como os japoneses fizeram em Pearl Harbor”. Kennedy observou que a resposta de Kruschev seria tomar Berlim. “Ele vai tomar Berlim, claro. Qualquer coisa que ocorra, perdemos Berlim por causa desses mísseis”.

A uma pergunta de McNamara, Kennedy disse que Berlim seria tomada por tropas soviéticas. “Aí o que faremos?”, perguntou uma voz não identificada. “Vamos para a guerra generalizada”, respondeu Ball, com respaldo de McGeorge Bundy. “Você quer dizer confronto nuclear?”, perguntou Kennedy. E a voz não identificada: “Exato”. O senador Richard Russell, presidente da Comissão das Forças Armadas, foi informado por Kennedy sobre a situação e exigiu “ações mais duras”, alegando ter “chegado a hora”. “Um dia teremos de fazer isso por Berlim, pela Coréia, por Washington ou Winder, Georgia. Guerra nuclear. (…) Haverá condições mais auspiciosas?”

Russell tratou o presidente com desprezo por ter ponderado ser a situação difícil e delicada. Queria que ele fosse duro para garantir a posição de grande potência, pois “um dia isso terá de acontecer”. Na mesma linha ficou o senador William Fulbright, da Comissão de Relações Exteriores. No livro, May e Zelikow elogiaram “a mente fria e analítica” de Kennedy ao fazer perguntas sensatas e extraordinariamente pertinente em meio ao clima tenso e exaltado. (Saiba mais AQUI sobre o livro)

Além dos choques com Kennedy, LeMay teve outros, em ocasiões diversas – com o secretário da Defesa McNamara, com o chefe do Estado Maior Conjunto (Maxwell Taylor), com o secretáro da Força Aérea (Eugene Zuckert), etc. Shoup, mais velho, morreu no ano seguinte, 1963. Forçado a se aposentar em 1965, LeMay candidatou-se sem sucesso a vice na chapa presidencial de George Wallace em 1968. Ao morrer, em 1991, com 85 anos, ainda encarava a decisão de Kennedy como “a maior derrota de nossa história”.

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Published in: on agosto 24, 2008 at 12:16 am  Deixe um comentário  

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