Blix, a França e as armas da mentira

Em julho passado, quando Tony Snow (veja sua foto ao lado), ex-apresentador da rede Fox News e ex-secretário de imprensa na Casa Branca de Bush, morreu de câncer, os necrológios na mídia evitaram lembrar outro papel histórico dele. Tinha sido também a pessoa que em 1996 apresentara Linda Tripp a Lucianne Goldberg – a dupla que detonou o escândalo Lewinsky, quase responsável pela queda do presidente Bill Clinton (leia AQUI como a CNN referiu-se ao papel dele em 1998).

Sem ser brilhante, Snow parecia sempre risonho e simpático, além de leal aos chefes, o magnata de mídia Rupert Murdoch e o presidente George W. Bush. Mas num domingo de 2006, ao voltar pela primeira vez à Fox para uma entrevista, ouviu pergunta claramente formulada com a intenção de reabilitar como verdade a mentira das ADM (armas de destruição em massa) do Iraque. Negou-se a embarcar nisso. Nada havia capaz de confirmar a versão, garantiu.

Propagadora incansável dessa e outras mentiras bushistas, a Fox News nunca desistiu de vender a lorota como verdade. Talvez por isso uma pesquisa posterior concluiu: 89% dos telespectadores dessa rede ainda acredita na existência das armas invocadas para justificar a invasão dos EUA pelo Iraque. Em relação a outras redes, a percentagem caia para 30% ou mesmo 20%. Em 2004 os bushistas James Woolsey, ex-diretor da CIA, e George Will, jornalista, pregadores impenitentes da guerra, disseram-se na ABC perplexos pela inexistência das ADM.

Bush no país dos espelhos

Foi comovente o espanto de Woolsey, a se perguntar como fora possível “todo mundo ter errado”, até em informações e detalhes específicos? Mas ele próprio era exemplo da farsa: integrava organismo do Pentágono em claro conflito de interesses com empresa a que servia, fornecedora de armas. Felizmente havia, na discussão da ABC, um jornalista mais sensato, cuja intervenção fez diferença.

Fareed Zakaria, colunista da Newsweek, interrompeu os dois panacas: “Espere aí”, disse. “Nem todos erraram. Os inspetores internacionais da ONU não erraram. O que David Kay e sua equipe americana de caçadores de ADM disseram depois da invasão foi aquilo que especialistas da ONU tinham dito em seguida a inspeções, com base até em dados dos EUA, em centenas de lugares no Iraque, antes da guerra. Eles estavam certos”.

Kay (saiba mais AQUI sobre o relatório dele) foi o primeiro americano a procurar as ADM depois da ocupação. Charles Duelfer, que o substituiu, chegou a conclusão idêntica (conheça AQUI as conclusões dele). Ainda em fevereiro de 2004, segundo o Washington Post, Bush resolvera não mais insistir numa investigação independente sobre “as causas do erro da espionagem”. Claro, a suposta culpa dos espiões só provaria a suposta “ingenuidade” do presidente. E se ele não queria passar por mentiroso, tampouco queria passar por idiota.

A trama não confessada é hoje mais ou menos óbvia: colocados contra a parede por Bush, pelo secretário da Defesa Donald Rumsfeld e em especial pelo vice Dick Cheney, só restava a especialistas de inteligência declararem o que os chefões queriam ouvir. Era um pouco como Alice no país dos espelhos. E permitiu a Bush, naquela campanha eleitoral de 2004, fugir outra vez da da própria responsabilidade.

Quem acreditou nas armas?

Teoricamente tanto Kay como Duelfer investigavam para a CIA. Depois, mesmo fora do emprego de caçadores de armas, os dois continuaram tentando preservar a imagem de Bush. Insistiram na culpa da espionagem e negaram que tivesse havido pressão para intimidar os analistas. Como? Repetindo a desculpa de que “todo mundo” acreditava nas armas, até os inspetores da ONU. Outra mentira.

Era insólita a repetição de tal mentira qualificada – o que também Woolsey fez na ABC, diante de Zakaria. Só não era lorota completa porque no passado, de fato, um ou outro inspetor ou ex-inspetor da ONU rendera-se à tese de Bush. Quem? Gente como o próprio Kay, integrando equipe da ONU (antes da guerra ele também fora “analista” da rede de televisão MSNBC e defendia a fantasia bushista).

Os inspetores da ONU a que se referia Kay eram dois, além dele próprio. O australiano Richard Butler servira menos ao esforço da ONU do que ao governo dos EUA. Sabe-se hoje que à época dele a equipe fazia espionagem para a CIA. E Scott Ritter, um americano que se arrependeu do papel que teve e mais tarde contou a verdade em livros que negam a existência de ADM e comprometem os EUA (conheça AQUI o livro que escreveu com o jornalista Seymour Hersh expondo a trama dos EUA para sabotar a ONU e derrubar Saddam).

Resistindo ao império arrogante

O austero Hans Blix (veja sua foto ao lado), sucessor de Butler à frente da equipe da ONU, não se submeteu à intimidação da Casa Branca. Trabalhou com seriedade e negou a existência das ADM até a véspera da invasão dos EUA (saiba AQUI sobre o livro no qual relata o trabalho que fez para a ONU no Iraque). Coube ainda a um colega dele, Mohamed El Baradei, diretor da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), ridicularizar os tubos de alumínio de Colin Powell e chamar de “fraude grosseira” as “provas” sobre o fantasioso urânio africano de Saddam.

Powell tentara dentro do governo resistir aos que forçaram a guerra a pretexto daquelas mentiras. Mas sua imagem acabaria detroçada – por ter cessado a resistência, prestando-se a papel melancólico no Conselho de Segurança da ONU. Pior: para servir Bush, ainda buscou ridicularizar Blix, comparando-o ao Inspetor Clouseau, interpretado por Peter Sellers na sátira A Pantera Cor-de-Rosa.

A piada embutia ainda, claro, a intenção de atingir a França. O pobre Powell tentou explicar-se depois, Blix e a França não, pois estavam certos todo o tempo. O presidente Jacques Chirac pagou caro por defender as inspeções da ONU. Inspirada no macarthismo, gente de Bush apoiou o boicote de produtos franceses – na campanha liderada pela Fox News e atribuída cinicamente pela Casa Branca a “reação expontânea” do povo.

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Published in: on agosto 23, 2008 at 10:31 pm  Deixe um comentário  

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