Gorbachev e a ingerência de Bush na Geórgia

Não é preciso morrer de amores por Mikhail Gorbachev, o ex-presidente da Rússia, para perceber a relevância do que ele tem declarado sobre a Geórgia, seu conflito com os russos e o papel dos EUA. Apesar de ter desaparecido na poeira do tempo, a ponto de ser apenas figurante inexpressivo nas eleições da Rússia, na mídia dos EUA ele continua a ser, no mínimo, uma celebridade cortejada.

Foi nessa condição que reapareceu há menos de uma semana, como entrevistado de Larry King na CNN, para contestar a versão fantasiosa do governo Bush-Cheney e seu títere da Geórgia, Mikhail Saakashvili. O mínimo que declarou, tirando proveito de sua imagem de “herói” que desmantelou a União Soviética para os EUA, foi que Saakashvili e seu padrinho Bush estão mentindo ao mundo.

“Não houve invasão russa e sim um assalto bárbaro perpetrado pela Geórgia na Ossétia do Sul. (…) A Geórgia começou isso”, garantiu Gorbachev, para quem “a ingerência externa forçou as coisas na direção errada”. A Rússia, disse, não podia ignorar “o assalto, (…) a devastação, (…) aquele uso de armas sofisticadas contra pequenas cidades, contra pessoas que dormiam. Aquilo foi bárbaro”. (Leia AQUI a transcrição da entrevista e ouça a palavra de Gorbachev clicando no final deste artigo)

“Mentiras do princípio ao fim”

Saakashvili tinha dito à mesma CNN, na véspera: “Estamos testemunhando, nestes últimos dias, o assassinato brutal, calculado, premeditado e a sangue frio, pela Rússia, de uma pequena democracia”. Perguntado sobre isso, Gorbachev rebateu: “Tudo mentira, do princípio ao fim. O que houve foi invasão de tropas da Geórgia na Ossétia. A Rússia não teve como deixar de responder”. Só que a CNN deu a última palavra a Saakashvili: em seguida à entrevista de Gorbachev, Larry King o trouxe de novo para repetir seu teatro.

Mesmo assim a CNN teve um mérito: não se limitou, como o resto da mídia, a uma única versão. Trouxe o outro lado da história – a contestação do ex-líder soviético. Na rival Fox News, o noticioso Fox Report, apresentado por Shepard Smith, deu apenas a versão Bush-Saakashvili, além de um adendo de efeito dramático: o depoimento de uma americana de 12 anos, ao lado da mãe. Ela alegou ter estado num café quando a guerra estourou na rua e fugiu, como centenas de civis, sob o inferno de bombas russas.

A versão da “pequena democracia brutalmente atacada” nada tem a ver com os fatos. É parte de outra guerra, a da propaganda. Basta lembrar o que se inventou sobre o Iraque para justificar a primeira guerra do Golfo. A mesma CNN foi usada em 1990 pelo governo do outro Bush (o pai, George H. W.), para veicular versão fraudada de que no Kuwait tropas de Saddam Hussein tinham invadido um hospital para retirar bebês recém-nascios de incubadoras e matá-los (leia mais AQUI sobre tal fraude dos EUA).

É saudável que um veículo da mídia ouse dar atenção ao que diz Gorbachev. Afinal, essa mesma mídia, e a direita americana, o tornaram “herói” no passado. Isso pode contribuir de alguma forma para equilibrar a habitual veiculação leviana das versões cínicas do bushismo e seu apadrinhado georgiano. Até porque o candidato presidencial de Bush, John McCain, também entrou no jogo com um palpite insólito – de que a Rússia decretou “regime change” na Geórgia.

Reeditando o projeto do Iraque

Ora, “regime change” foi a receita da segunda aventura dos EUA no Iraque. Os ideólogos neocons inspiraram a lei que pôs os EUA nessa rota e conseguiram que, depois do 11/9, a dupla Bush-Cheney bancasse a invasão invocando a mentira das armas inexistentes. O efeito prático é o atual controle do petróleo pelos EUA, que hoje namoram “regime change” no Irã e a conexão Geórgia-gás-petróleo-oleoduto. Mas atribuem à Rússia a própria receita.

Obviamente Gorbachev tenta tirar proveito da celebridade com que antes o Ocidente premiou seus serviços – entre outras coisas, com o Nobel da Paz. Talvez tenha consciência de que será impossível derrotar Bush-Cheney na arte de manipular a mídia. Mas ele na certa ajudará a impedir a fabricação mentirosa de armas inexistentes, de assassinato de bebês em incubadoras e sabe-se lá mais o que.

Os EUA e seu títere georgiano falaram na covardia da invasão – uma invasão que Gorbachev nega ter havido. “Então a Geórgia não foi invadida mas, ao contrário, invadiu?” – perguntou Larry King. Gorbachev foi enfático. Contou ter falado com Eduard Shevardnadze, ex-chanceler da URSS e ex-presidente da Geórgia para conhecer a história real – a invasão da Ossétia do Sul para um expurgo étnico da população russa. “A cidade, Tskhinvali, dormia. De repente foi bombardeada e invadida por todos os lados”.

Bombardeio aéreo, artilharia, lançadores de chamas – uma matança. “Atacaram pessoas, casas, hospitais, instalações de água e esgoto, a infra-estrutura de energia e de comunicação. Tudo ficou completamente destruído Até velhos monumentos. Alguns dos mais antigos do Cáucaso. Sepulturas ancestrais foram arruinadas, tanques passaram por cima de tudo”.

O militarismo crescente dos EUA 

Gorbachev declarou-se perplexo com a cobertura da mídia ocidental, em especial a dos EUA. “Eles disseram ter havido invasão deliberada da Rússia, mas a Ossétia do Sul, onde estava a força de paz russa – atuando desde o acordo de 1992, quando a província separou-se de fato da Geórgia – é que foi invadida por tropas georgianas. A Rússia respondeu. O que a mídia fez foi desinformar. Tudo mentira. Houve na verdade um plano prévio para o ataque à Ossétia”.

Para o ex-líder soviético, Saakashvili enganou a Europa. “Enganou também os EUA, a não ser que tenha sido tudo um projeto americano implementado por ele”. Gorbachev preocupa-se com o que ocorre hoje no mundo. “No Sul, na Ásia, no Sul da Rússia, no Oriente Médio. Preocupa-me em especial o processo de militarização. Orçamentos militares crescem em ritmo acelerado”.

Ele chama atenção para o que ocorre na Geórgia, hoje armada até os dentes. “Não fosse isso, não teria feito o que fez. Esse pequeno estado tem orçamento militar de nada menos de US$1 bilhão. Os EUA, principalmente, armaram a Geórgia com armas sofisticadas – aviões, armas terrestres, montanhas de armas. O resultado era inevitável. Mas ainda há tempo de evitar a volta ao clima da guerra fria entre Rússia e EUA”.

Ele lamentou a falta, até hoje, de uma boa relação entre Rússia e EUA. Alegou que o governo americano comete erros pelos quais o povo acaba tendo de pagar. “O orçamento militar dos EUA é superior a US$600 bilhões – metade de todos os orçamentos militares do mundo somados. (…) No mundo há situações que levam a conflitos. Saakashvili só criou o confronto porque teve apoio e proteção. Mesmo agora os EUA ainda insistem em apoiar e justificar Saakashvili”. (Clique abaixo para ver e ouvir trechos da entrevista de Gorbachev à CNN)

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Published in: on agosto 21, 2008 at 4:38 pm  Comments (1)  

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  1. […] patos mancos George W. Bush e Dick Cheney, em apoio ao títere deles, Mikhail Saakashvili (confira AQUI). Segundo a declaração de Gorbachev à rede CNN, não houve a apregoada invasão russa da […]


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