O império corrupto do “lobby” nos EUA

Na avaliação do New York Times de domingo, o novo livro do jornalista e escritor Thomas Frank – que escreve sobre cultura, negócios, governo e a relacionamento entre os três, em especial a cultura dos negócios e os negócios da cultura – relata como os ideólogos que assaltaram Washington em 1994 para iniciar uma revolução conseguiram, ao invés disso, construir “um lucrativo império de lobby” (leia AQUI a resenha do Times).

A referência é ao assalto comandado por Newt Gingrich na suposta revolução conservadora do que chamou “Contrato com a América”. Graças a esse movimento os republicanos tomaram dos democratas naquele ano o controle da Câmara e do Senado – de certa forma, favorecidos pela indiferença do casal Clinton, que na campanha de 1992 e nos seus oito anos na Casa Branca buscou empurrar para a direita o Partido Democrata.

Antes de mais nada, convido o leitor a saber mais sobre Thomas Frank – ou, ao menos, a refrescar a memória sobre esse personagem. Antes de seu último livro (veja a capa ao lado, à direita), The Wrecking Crew – How Conservatives Rule (A equipe da destruição: como os conservadores governam), Frank já tinha frequentado a lista de best-sellers ao chocar o país com outro livro, lançado há quatro anos, What’s the Matter With Kansas? – How Conservatives Won the Heart of America (O que está havendo no Kansas? – Como os conservadores ganharam o coração da América).

A retórica da guerra cultural

Numa linguagem de denúncia e provocação, às vezes irônica e bem humorada, What’s the Matter With Kansas expôs a trama conservadora para enganar a classe média e o eleitorado em estados como Kansas. Nascido em Kansas City, do outro lado da fronteira do vizinho Missouri, ele crescera no subúrbio de Mission Hills, geograficamente no Kansas, formando-se na Universidade desse estado (obteria em 1994 o PhD em História na Universidade de Illinois).

Conforme sua análise, a maioria dos eleitores daquele Kansas que conhece tão bem – como os do Meio-Oeste americano e do Sul, que ajudaram a instalar George W. Bush na Casa Branca – deixou-se iludir de tal forma pela retórica conservadora da guerra cultural e religiosa que passou a votar contra seus próprios interesses. A denúncia de Frank (saiba mais AQUI sobre aquele livro e veja sua capa ao lado, à esquerda) ganhou mais força porque ele a apresenta com uma ironia marcada pela sátira e pelo humor. What’s the Matter With Kansas? reapareceu no debate político em abril de 2008, quando os republicanos tentaram manipular suas informações para ampliar a barragem de ataques a Barack Obama como “elitista” – o que levou Frank a responder NESTE artigo publicado pelo Wall Street Journal

A julgar por resenhas já publicadas, The Wrecking Crew retoma a receita. Confirma ainda as virtudes de Frank – hoje vivendo na capital – como observador social. Em Washington ele vê o crescimento do governo como uma indústria que transformou a região metropolitana: o condado mais rico do país não é no vale do Silício, é um subúrbio da capital (Loudoun, Virgínia); o segundo mais rico também (Fairfax); e ainda o terceiro, o sexto e o sétimo.

Os milhões que rolam na capital

Fui buscar algumas dessas informações no artigo de domingo no Times, assinado por Michael Lind, que há mais de uma década também tem sido um duro crítico da direita religiosa e nos últimos anos exorcizou implacavelmente a era Bush. Embora existissem milionários em Washington no passado, lembrou ele, antes os milhões quase sempre vinham de fora.

A partir dos anos 1980 (de Reagan-Bush) os milionários passaram a ser feitos ali. Vieram padrões novos nas casas luxuosas – ostentação, desperdício, privilégios, aristocracia. A Washington de Frank é a realização perfeita do sonho inatingível, um universo superior no qual economias são conduzidas pelo malabarismo de informações compradas e vendidas. Há a indústria dos selvagens sujos em terras distantes, mas em Washington a figura dominante é a do lobista.

Citando Frank, Lind acrescenta que o suprimento cada vez mais abundante de lobistas “devia provocar queda no preço do lobby, mas ocorre o contrário. (…) A explicação mais confiável (…) é de que os clientes confiam cada vez mais em que seus lobistas serão capazes de fornecer algo de valor em troca do que cobram. (…) Em outras palavras, empresas começaram a comprar porque o Congresso começou a vender”.

A inclusão em projetos de leis, por deputados e senadores, de ítens destinados a beneficiar interesses especiais multiplicaram-se, enquanto carreiras no Legislativo e nos mais altos cargos da administração pública tornaram-se meros aprendizados para a adesão futura ao lobby. Cada vez mais deputados, senadores, ministros e secretários mudam o rumo – e se tornam, eles próprios, lobistas milionários da K Street, a rua dos corruptos (saiba mais AQUI, na entrevista de Thomas a Bill Moyers na PBS, rede pública de TV).

A arte impune da corrupção

Segundo Lind, The Wrecking Crew culpa os republicanos conservadores pelo crescimento absurdo do câncer lobista nos últimos anos. O livro cita duas razões. Primeira: republicanos conspícuos vêem o lobby como outra frente na guerra aos democratas liberais. Segunda: por repudiarem o governo, eles rejeitam o estado liberal como tão ilegítimo como um ladrão que faz assaltos a mão armada.

Ironicamente, o líder dos republicanos na Câmara, o texano bushista Tom DeLay, direitista adepto dessa teoria, acabou escorraçado do cargo – e do Congresso – em meio a escândalo de corrupção. Era, ele próprio, um ladrão acumpliciado com o lobista republicano Jack Abramoff, já condenado na Justiça. Mas Lind não aceita inteiramente o retrato devastador que Frank faz do republicanismo conservador.

Reclama, por exemplo, a ausência no livro de um reconhecimento formal de  algumas boas notícias – como as derrotas da direita antigoverno em grandes batalhas que forçaram recuos de Bush, da fúria privatista contra o Social Security (Seguridade Social) à investida contra a escola pública (em seu projeto dos vouchers). Mesmo assim, The Wrecking Crew pode ser exatamente o livro certo para o debate, neste momento, dos efeitos maléficos do lobby.

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Published in: on agosto 18, 2008 at 10:33 pm  Comments (1)  

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  1. I recently came accross your blog and have been reading along. I thought I would leave my first comment. I dont know what to say except that I have enjoyed reading. Nice blog.

    Tim Ramsey


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