Obama, Ohio e a América patriota

Em reportagem de destaque na primeira página de ontem, o jornal Washington Post (leia AQUI no original em inglês) contou o que está acontecendo numa pequena cidade (40 mil habitantes) do estado de Ohio – Findlay, que se orgulha de ser também chamada de “Flag City, USA” (Cidade da Bandeira, EUA), pela abundância de bandeiras americanas expostas pelos moradores, movidos por patriotismo exagerado, nos jardins à frente de suas casas.

O personagem central entrevistado pelo repórter – Jim Peterman, trabalhador aposentado de 74 anos, veterano da Força Aérea e ex-empregado de uma fábrica de pneus – olha para as quatro bandeiras no seu jardim e passa a mão na cabeça ao explicar como está confuso em relação ao que ouve sobre o candidato Barack Obama. E a versão dos amigos e vizinhos parece, de fato, assustadora.

Segundo pesquisas, hoje um em cada 10 americanos acha Obama islâmico. Uma parte deles o considera terrorista. O Post explica que o candidato, nascido no Havaí, é de família cristã com antecedentes muito conhecidos. Mas numa loja próxima, na casa do vizinho e na oficina mecânica onde o filho trabalha, Peterman ouve que o candidato é africano, possivelmente gay, e se recusa a jurar lealdade aos EUA.

A arte de espalhar boatos

Peterman confessou que já não sabe em quem acreditar. É incapaz de distinguir a verdade dos boatos. Mas as pessoas que lhe trazem as informações falsas, em geral disseminadas primeiro pela Internet, são próximas dele, inclusive amigos de muitos anos. Boatos selvagens estão sendo espalhados em bares, nos campos de baseball, em restaurantes, nas casas de repouso para velhos.

Ohio e outros estados do Meio-Oeste são encarados como terreno fértil para boatos – que já funcionaram contra Obama na fase das primárias, vencidas em Ohio por Hillary Clinton. Além disso, esse é um dos swing states, que podem ir para um lado ou para o outro. Depois da eleição de 2004 numerosas denúncias de fraude (para favorecer Bush contra o democrata John Kerry) foram bem documentadas em três livros.

Preocupada com o efeito dos rumores falsos espalhados a partir de ações de má fé na Internet, a campanha presidencial democrata já produziu um comercial de TV e criou o website “Fight the Smears” (lute contra os boatos difamatórios), que busca desacreditar as intrigas e restabelecer a verdade sobre a religião, a família, o patriotismo e os antecedentes do candidato (clique AQUI para entrar no site).

Segundo o Post, dezenas de voluntários estão sendo enviados ao Ohio, cinco meses antes da eleição, para levar informações verdadeiras. Mas o jornal observa que no quarteirão de Peterman já pode ser tarde demais para mudar a tendência. Dan LeMaster, veterano da Marinha e vizinho de Peterman há 40 anos, já o convenceu, por exemplo, de que Obama se recusa a usar uma bandeirinha na lapela.

…e a verdade, prova por prova

Peterman sofre forte influência de LeMaster e de outro amigo, Leroy Pollard, que garantiu a ele ser Obama “muçulmano radical” e ameaçou romper com a filha se ela voltar a pedir que vote nele. Para Peterman, é difícil ignorar o que todo dia ouve das pessoas que o cercam. Como duvidar daquela gente simples e amiga, sempre próxima, em quem confia há tantos anos. “Estarão todos eles errados?” – pergunta.

Se confiasse mais na própria informática que espalha boatos podia ser diferente. A cada dia o website antidifamação destrói um. Por exemplo, sobre a versão de que Obama no Senado fez juramento com a mão no Corão e não na Bíblia, existe a foto do candidato – com a mulher Michelle e as duas filhas – jurando sobre a Bíblia da família e diante do vice-presidente Dick Cheney, que preside o Senado.

Em relação à suspeita de que é muçulmano, há um ataque múltiplo: 1. ele não tem certidão de nascimento oficial; 2. foi educado numa “madrassa” (de ensino islâmico) na Indonésia; 3. Negou-se a jurar lealdade ao país. O website reproduziu a certidão de nascimento (veja AQUI); mostrou em filme o Pledge of Allegiance (juramento de lealdade à bandeira, ao lado de capelã convidada), Obama com a mão no peito no plenário do Senado (clique abaixo para ver); e em outro filme (veja as imagens no final deste artigo) as crianças que hoje estudam na mesma escola pública que o candidato frequentou.

Numa cidade 93% branca

Com base em outro filme que também circula na Internet, ele foi acusado de, por “razões religiosas”, não colocar a mão no peito ao ouvir o hino nacional. O website mostrou o filme juntamente com vários outros nos quais personalidades várias, entre elas o próprio presidente George W. Bush e outros líderes republicanos, ouvem o hino em posição idêntica à do candidato democrata.

No quarteirão de Peterman em Findlay os residentes são trabalhadores brancos, que se ajudam de várias maneiras. Sete famílias diferentes vivem ali, no mesmo trecho, há pelo menos 35 anos. Elas se reunem em feriados patrióticos e nas datas religiosas do cristianismo. É uma cidade 93% branca. E muitos se queixam de estrangeiros, como os japoneses que chegaram para dirigir fábricas.

Findlay, onde quase não há negros, foi declarada oficialmente “Flag City, USA” pela Câmara dos Deputados em Washington. O slogan de Obama, “Mudança” (Change), pode entusiasmar outras cidades mas ali soa suspeito. Voluntários da campanha democrata são hostilizados. Estranho, para os moradores da cidadezinha, é a ousadia de Obama – com nome tão esquisito e querendo viver na Casa Branca e mudar a vida deles.

(E clique abaixo para ver como é hoje a escola pública onde Obama estudou na Indonésia)

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Published in: on julho 1, 2008 at 4:19 am  Comments (1)  

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  1. […] blogs e talk-shows ultraconservadores já disseminavam mentiras (como registrei anteriormente AQUI), entre elas a de que Obama é estrangeiro e não tem certidão de nascimento. A certidão está […]


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