Um beijo contra a chapa McCain-Lieberman

Em todas as listas de nomes potenciais para completar a chapa republicana aparece o senador Joe Lieberman, que foi democrata até 2006, quando perdeu as primárias para o Senado em seu estado, Connecticut. Tudo por causa do beijo caloroso que recebeu do presidente Bush, em agradecimento pelo apoio sistemático ao projeto bélico bushista da invasão do Iraque – contra a posição do próprio partido. (Lieberman costuma negar o beijo, mas clique abaixo para ver como foi mostrado na TV)

Derrotado pelo democrata Ned Lamont devido ao ato de traição política, Lieberman insistiu em continuar na campanha, como “independente”. E continuou a cortejar o majoritário eleitorado democrata de Connecticut, jurando que se fosse eleito faria questão de permanecer aliado à bancada democrata, ajudando a oposição a ganhar o controle do Senado. Graças a tal posição enganosa e aos votos republicanos, acabou vencendo.

De fato, naquele episódio a farsa de Lieberman, fingindo estar dos dois lados, funcionou. Na segunda fase do processo, como “independente”, a campanha dele foi riquíssima. Choveu dinheiro, em especial do lobby de Israel e grupos ligados aos interesses israelenses. Entre outras coisas sua campanha proclamava que a vitória de Lieberman, um judeu ortodoxo, seria crucial para… derrotar o Hezbollah em Israel.

Campeão da causa israelense

Gente de bom senso naturalmente percebia o despropósito. Sendo candidato ao Senado dos EUA e não ao Knesset de Israel, Lieberman antes preferia destacar os interesses de seu estado. Mas ele nunca dispensou a muleta do lobby israelense, que atua com grande eficácia no nordeste do país e em especial na área metropolitana de Nova York – que inclui Connecticut.

Na época um analista político da rede de cabo MSNBC, Tom Curry, disse que Lieberman tinha passado a receber contribuições de doadores republicanos e independentes, como também de democratas que o tinham apoiado na fase das primárias. E destacou entre eles “os que concordam com o apoio dele no Senado a Israel e à permanência das tropas americanas no Iraque”.

O analista da MSNBC foi mais longe: “Neste momento em que Israel está em guerra com o Hezbollah, a candidatura de Liberman torna-se um ponto de atração para aqueles que pensam não ser correto encerrar a carreira no Senado de alguém que se tornou um campeão abnegado da aliança entre os EUA e o estado de Israel”.

Contra as posições do partido

Curry citou ainda a palavra do diretor-executivo da organização NJDC (Conselho Nacional Democrático Judaico), Ira Forman: “Ele pode levantar muito dinheiro” na campanha. Como? “Há uma rede pro-Israel de pessoas que vão dar contribuições a Lieberman por causa de sua amizade com a comunidade judaica e por causa de quem ele é”.

Assim, a questão para o eleitorado democrata de Connecticut era se o apoio sistemático, em quaisquer circunstâncias, de Lieberman a Israel, justificava votar nele, mesmo sabendo já ter perdido as primárias e traído seu partido, que oficializara a candidatura, consagrada nas urnas, de Ned Lamont – um candidato rico, que usava na campanha dinheiro de sua fortuna pessal.

Na etapa decisiva da eleição senatorial Lamont buscou expor a opção abraçada por Lieberman como mais uma traição das muitas de sua carreira política. Pois antes, já traíra ao negar apoio ao presidente Clinton no início da campanha republicana do impeachment; ao subverter o esforço democrata para anular votos resultantes de fraude na Flórida (em 2000); e ao preferir ser leal à guerra de Bush.

Foi lembrado ainda que Lieberman também traíra o partido no Senado ao romper a unidade oposicionista e ficar contra a obstrução à indicação (feita por Bush) do juiz Samuel Alito para a Suprema Corte – outra sabotagem da linha partidária. Esse juiz viria depois a reforçar a facção que empurra cada vez mais para a direita o tribunal supremo dos EUA.

A recompensa pela traição

Além de apoiar a “guerra preventiva” de Bush no Iraque, onde já morreram mais de 4000 soldados americanos (sem falar nos 30 mil aleijados e ainda nos civis iraquianos mortos, 1 milhão, e nos refugiados, 4 milhões), o senador deu força a toda a política belicista do governo republicano no Oriente Médio – e ao bombardeio e invasão do Líbano por Israel.

E o que teria Lieberman agora para oferecer à campanha de McCain? Talvez apenas a hipótese de atrair em massa os votos dos judeus de Nova York e, com isso, dar aos republicanos a vitória nesse estado, o terceiro maior em número de votos eleitorais. Mas essa é, em princípio, uma hipótese remota. Mesmo se ocorresse algo parecido, com parte do eleitorado judeu optando por McCain, ainda poderia ser insuficiente.

No mais, Lieberman apenas choveria no molhado ao entrar na chapa. A imagem dele é semelhante à do próprio McCain. A direita cristã, tão importante para Bush em 2000 e 2004, vê o ex-democrata com desconfiança – e se inclina mais pelo ex-governador Mitt Romney, que nas primárias denunciava a tendência de McCain de buscar acordo com o partido da oposição. Assim, Lieberman pode no máximo ajudar Israel como secretário da Defesa. (E clique abaixo para ver o entusiasmo com que investe na Fox News contra Barack Obama)

Published in: on junho 18, 2008 at 7:01 pm  Deixe um comentário  

A mídia e o desafio da “Brill’s Content”

Há exatamente 10 anos nascia nos EUA a revista Brill’s Content – criada pelo jornalista Steven Brill (foto), então com 48 anos de idade, que antes inventara a Court TV (o canal dos tribunais), uma das redes de cabo mais bem sucedidas do país, vendida depois por US$20 milhões ao império Time Warner. Apesar de declarar-se “a voz independente da era da informação”, a revista já causou impacto e foi motivo de controvérsia acalorada no seu primeiro número.

Colocada à venda a 17 de junho de 1998, ela dizia no artigo de capa – assinado por seu fundador, diretor, editor-chefe e executivo principal (CEO) da empresa – que o promotor independente Kenneth Starr, então investigando o presidente Bill Clinton, tinha reconhecido que vazara informações a repórteres de alguns dos principais veículos do país.

Mais de 30 páginas da revista – que esperava ter em cinco anos a circulação de 450 mil exemplares, embora a mais conhecida revista de mídia dos EUA, Columbia Journalism Review, não passasse de 26 mil – foram dedicados a devastadora crítica da cobertura na mídia do escândalo Monica Lewinsky. Todos os veículos, pelo que dizia o artigo, pareciam a serviço do promotor. E pelo menos um repórter foi acusado de se comportar como “cãozinho de colo de Starr”.

Os equívocos do jornalismo

A controvérsia gerada pela revista foi além do caso da ex-estagiária. O alvo de dois artigos era o programa jornalístico de maior audiência da TV – o “60 Minutes” da CBS, cujo produtor, Don Hewitt, colocou em dúvida nove citações atribuídas a “fontes” ou “membros da equipe”. Outro artigo condenava os jornalistas que usavam o status de celebridade para fazer dinheiro com palestras. (Saiba mais AQUI, numa entrevista de Brill na época à Mother Jones, sobre os planos dele para a revista).

O objetivo de Brill era transformar a publicação, então mensal, numa espécie de guia para os consumidores de veículos da mídia, penetrando na intimidade de todas as redações. Ele tinha apenas 28 anos quando criou outra revista, The American Lawyer, que se tornou grande sucesso na área jurídica. Foi o sucesso daquela experiência que o motivou a lançar em 1992 a Court TV, sucesso ainda maior, e em 1998 a Brill’s Content.

“Ao expor o sistema legal por dentro, o que tem de bom ou ruim, ela fez crescer o respeito por nosso sistema de justiça, hoje modelo no mundo, e a consciência de suas falhas. Quero que Brill’s Content faça o mesmo pela mídia. Ao expor preconceitos, desequilíbrios, imprecisões, falsidades e ainda o que tem de bom, os padrões serão aperfeiçoados, todos sairão beneficiados”.

Essa explicação estava no editorial assinado por Brill no primeiro número. Ali observou que se a revista fracassasse e a mídia, frequentemente arrogante, não fosse fiscalizada, questionada e analisada, haveria risco para “nossas próprias liberdades”. Por isso – observou ainda – a revista não será “direita contra esquerda, pequeno contra grande, os de dentro contra os de fora”.

“Beirando injúria e difamação”

Na verdade, o projeto da revista era demais para a arrogância da mídia corporativa, dedicada obsessivamente naquele momento ao esforço pelo impeachment de Clinton. Em reação unânime, praticamente todos os veículos investiram contra Brill’s Content e seu fundador. Acusado de não ter sido objetivo na análise do caso Lewinsky, Brill reconheceu um erro: devia ter dito ao leitor que no passado tinha apoiado Clinton e outros democratas.

Em compensação, também escrevera antes que os argumentos de Paula Jones contra Clinton eram bem fundamentados. A reação mais dura foi do promotor Starr, com uma carta de 19 páginas, publicada no número seguinte, na qual expôs 14 supostos erros e imprecisões. “O senhor alega que cometemos crimes para investigar um crime”, disse Starr. “Rejeito categórica e inequivocamente essa acusação”.

Enquanto repórteres citados somavam-se a Starr, que julgou o artigo um “ataque negligente e irresponsável”, beirando “a injúria e a difamação”, Brill conclamou o promotor a liberar as anotações sobre suas conversas com jornalistas, tanto ao telefone como pessoalmente. Conclamou-o ainda a desobrigar os repórteres do sigilo que ele ou seus auxiliares tinham exigido para passar informações. A suspeita, claro, era de que a mídia colocava-se a serviço de Starr.

Atingidos pelas críticas de Brill na revista, veículos e profissionais da mídia também reagiram – inclusive as revistas Newsweek (onde Brill escrevera) e Time, que competiam freneticamente na cobertura do escândalo. O repórter Michael Isikoff, apontado como um dos beneficiários dos vazamentos do promotor, considerou “puro lixo” e “fundamentalmente desonesto” o artigo de Brill.

O conteúdo e os vazamentos

O editor de Time, Walter Isaacson, primeiro atacou Brill por ter atribuído a ele esta afirmação: “Não podemos criticar Starr pelos vazamentos, pois estamos lá o tempo todo recebendo os vazamentos”. Depois reconheceu ter dito a frase. No Washington Post a repórter Susan Schmidt, outra beneficiária de vazamentos, foi mais contundente: “Você me difamou ao dizer que revelei minhas fontes a você”.

Na rede NBC, o repórter David Bloom, também beneficiário de vazamentos, considerou “lixo total e completo” o conteúdo da revista. O impeachment acabaria sendo uma derrota conjunta de Starr e da mídia. Brill’s Content manteve o padrão elevado e ainda durou três anos (no final, passando de mensal a sazonal, em meio a dificuldades econômicas). Foi o mais ousado e bem fundamentado esforço no país de crítica à mídia – que nunca se conformou com isso. (A edição cuja capa está reproduzida acima, com um Mickey indignado, é um exemplo: contava como a rede ABC de televisão, do império Disney, censurou reportagem de investigação que se referia até a pedofilia em parques temáticos da corporação, como a DisneyWorld).

Mas a morte da revista deveu-se mais à bolha da internet, na qual Brill apostara, entre outras coisas com outro projeto (a Contenville, para vender conteúdo) e numa fusão com outro grupo, Inside.com (leia AQUI a análise do San Francisco Chronicle sobre a causa do fracasso; e AQUI o necrológio do Contentville no site Infotoday em 2001; e AQUI um abrangente artigo da Columbia Journalism Review). Ainda guardo uma coleção, junto com a carta recebida em março de 2002, devolvendo o dinheiro da minha útima assinatura: “Com grande pesar decidimos suspender a publicação da revista. O número do outono foi o último. Obrigado pelo apoio e lealdade”. Na verdade, valeu a pena.

Published in: on junho 18, 2008 at 6:28 pm  Deixe um comentário  

A sátira que expõe a privatização da guerra

Você já conhece a história mas agora vai saber mais sobre ela. Os bilhões de dólares embolsados, graças à guerra do Iraque e ao governo Bush, por corporações como Blackwater (multinacional de mercenários), Halliburton (antes presidida pelo vice-presidente Dick Cheney) e Bechtel são o tema da sátira War, Inc, dirigida por Joshua Seftel e que John Cusack co-escreveu, co-produziu e estrelou juntamente com Ben Kingsley, Hilary Duff, Marisa Tomei e, no papel de certo vice-presidente dos EUA, Dan Aykroyd.

“Que altos assessores estão ligados a tais aproveitadores que faturam com a guerra?” – pergunta Cusack num comercial de televisão do filme, ligando as imagens de John McCain e George Bush. “Aposto que você não conseguirá distinguir um do outro”, diz o ator-produtor. Ele também divulga o filme em entrevistas à TV, inclusive à excelente Amy Goodman, do programa alternativo “Democracy Now!” (clique abaixo, no YouTube, para ouvir Cusack falar, de Londres, a Goodman, o co-âncora Juan Gonzalez e o jornalista Jeremy Scahill, autor de um livro sobre a Blackwater)

Alguns já definem o filme como “um ataque impiedoso, corrosivo e ousadamente engraçado à fúria da direita na obsessão de privatizar a guerra”. Embora críticos o tenham encarado com reservas no primeiro momento, a reação das pessoas está surpreendendo. E a surpresa tende a ampliar o interesse do público, como no caso do documentário Farenheit 9/11, de Michael Moore, também lançado num ano (2004) de eleições presidenciais (Leia AQUI entrevista de Cusack ao site AlterNet e o trailer do filme).

A força ultrajante do humor

A colunista política Arianna Huffington – criadora do site que tem seu nome, atualmente um dos mais atuantes na cobertura da campanha eleitoral – contou ter visto o filme antes de estar terminado. “Fiquei abalada pela maneira como ele conseguiu captar a insanidade que se desdobra no Iraque. War, Inc. faz quase o impossível. Expõe com humor a realidade selvagem da tragédia no Iraque”.

Segundo Huffington, “os realizadores do filme usaram com maestria minha arma criativa favorita: a sátira. É como um soco no estômago. Faz a gente rir, causa revolta e é sempre ultrajante”. Ela citou Naomi Klein, cujo artigo “Bagdá, Ano Zero”, serviu como ponto de partida do filme: “É uma daquelas raras sátiras que embutem um potencial de perigo”.

A sátira política que se propõe confrontar os poderosos com verdades terríveis, não só para produzir gargalhadas mas também para provocar mudanças, tornou-se rara no cinema atual, como observou Huffington. Isso porque poucos agora ousam tentar. Mas quando alguém o faz e é bem sucedido – como foi o caso de Stanley Kubrick, Paddy Chayefsky, Joseph Heller, Billy Wilder – o efeito é inesquecível.

Quem são os vilões da guerra

Para gênios como Mark Twain, também citado por Huffington, a exposição a uma boa sátira torna os cidadãos menos sujeitos a “se dobrarem como carneiros”. Assim, o humor é apenas uma maneira de chamar atenção para as contradições ou a hipocrisia que se impõe oficialmente. Essa a função do humor. Ele às vezes ainda é capaz de transformar a realidade.

A direita, desafiada pela sátira, está tentando condenar Cusack e os demais envolvidos do filme. Para tanto, recorre às mesmas táticas e acusações que se tornaram rotina desde o 11 de setembro de 2001: eles são repreendidos pela suposta falta de patriotismo e por “ofenderem” as tropas que lutam no Iraque. Seriam culpados ainda porque tentam fazer humor sem levar em conta o sofrimento dos soldados.

Mas Cusack responde que os alvos do filme não são os soldados americanos e sim aquelas grandes corporações, várias delas empenhadas em obter lucros escandalosos com o negócio do mercenarismo. Elas e seus executivos, como ainda os políticos de bandeirinha na lapela que as apóiam e ao mesmo tempo insistem em manter os soldados em situação de risco e negam-se a aprovar a lei sobre os direitos deles depois da volta à pátria”. 

New York Times contra a terceirização

Cusack contou ainda estar recebendo numerosas manifestações emocionadas de apoio, enviadas por soldados e suas famílias. Como a do sargento Brent Sammann, ainda ativo no Iraque: “Sou testemunha pessoal da exploração da KBR (subsidiária da Halliburton) e outras companhias que prestam serviços ao esforço de guerra – serviços que nossos soldados poderiam perfeitamente fazer e fariam melhor”.

O soldado ainda enviou sua própria foto na qual conclama: “Go see War, Inc” (Vá ver War, Inc). Acrescenta ele: “Essas corporações ampliam o lucro com superfaturamento. É a rotina aqui. Além disso, o serviço delas é ruim, como também o tratamento que nós, soldados, recebemos dos empregados delas, cuja remuneração é três vezes maior do que nossa. Estamos aqui para servir ao país. Não é esse o caso daquela gente com contratos militares bilionários”.

Em seu editorial da última quinta-feira o New York Times saudou o Congresso por finalmente estar tentando “proibir uma das fugas mais flagrantes do governo Bush à responsabilidade no Iraque – a terceirização, para mercenários de empresas privadas, dos interrogatórios de detidos” (leia AQUI a íntegra). Na tortura, disse ainda, os mercenários operam como bandidos corporativos. Não respeitam regras militares e nem a ética. Torturam e ficam impunes.

 

Published in: on junho 14, 2008 at 3:30 pm  Comments (2)  

Os neocons de Bush e o nepotismo

Quando Cuba anunciou que seria mesmo Raul Castro o sucessor de Fidel, o presidente George W. Bush avisou que os EUA “não aceitarão transição política de um irmão Castro para outro”. Mas  a família Bush, que já deu dois presidentes, um senador, dois governadores e um deputado, é péssimo exemplo em matéria de nepotismo, até pelos bons negócios dos Bush nos governos dos parentes (leia mais sobre isso no capítulo 5 do meu livro O Império Contra-Ataca – o da capa ao lado).

Ao mesmo tempo, os neoconservadores (ou simplesmente neocons) – no poder com Bush – cultuam o nepotismo e defendem os chamados “privilégios do berço”. Um “elogio do nepotismo” é o tema de um livro de Adam Bellow, In Praise of Nepotism (conheça-o AQUI) que se diz “uma história do empreendimento familiar, do rei Davi a George W. Bush”. Adam é filho de Saul Bellow, que conviveu com o grupo e se inspirou nele para escrever o romance Ravelstein. Mesmo assim, a extensão do nepotismo dos neocons é surpreendente.

Recentemente houve exemplo revelador numa revista de reflexão política deles – a Commentary, que teve certa influência no passado mas está reduzida a 34 mil exemplares, não passando de relíquia nostálgica da guerra fria, praticamente dedicada apenas aos interesses de Israel. Norman Podhoretz, diretor durante 35 anos, nomeou nomeou para sucedê-lo o filho John, cuja qualificação intelectual é no mínimo duvidosa.

Irã é o novo alvo deles

Curiosamente, entre os neocons é assim há muitos anos. “A família que reza unida, permanece unida”, pregava a “cruzada do rosário em família” do padre Peyton (ela existe até hoje: veja AQUI). Os casos específicos de Norman Podhoretz e Irving Kristol, os dois padrinhos-fundadores do movimento, são eloqüentes. Um sempre foi mais voltado para a política doméstica do país, o outro para a política externa (e a segurança de Israel).

Kristol, casado com a escritora Gertrude Himmelfarb, dirigiu inicialmente a célebre revista Encounter, que teve de fechar depois do escândalo sobre a verba secreta da CIA que a financiava. Em 1965 ele fundou The Public Interest, que sai apenas quatro vezes por ano. O filho do casal, William (Bill) Kristol, dirige hoje a Weekly Standard (que se anuncia como “a mais lida na Casa Branca”), bancada pelo magnata australiano Rupert Murdoch (leia AQUI, na revista do filho, a defesa que o pai faz do neoconservadorismo).

Bill Kristol, além disso, é presença permanente nos programas políticos da rede Fox News, também do império Murdoch, e desde janeiro de 2008 defende suas posições direitistas numa coluna semanal para o New York Times (leia AQUI a última) – como contra-peso aos liberais. Da mesma forma como fora o primeiro a pregar publicamente a invasão do Iraque, dias depois do 11 de setembro de 2001 (Saddam Hussein obviamente nada tivera a ver com o caso), agora sua obsessão é uma guerra contra o Irã.

As duas famílias e em especial os Kristol aparecem com destaque em The Cultural Cold War – The CIA and the World of Arts and Letters, o extraordinário livro de Frances Stonor Saunders que há quase 10 anos devassou a trama da espionagem americana para controlar círculos intelectuais sofisticados dos EUA e outras partes do mundo, distribuindo verbas oficiais e bancando publicações onerosas. 

Pais, mães, filhos e genros

No ramo Podhoretz, o velho Norman casou-se com a escritora Midge Decter. Seu filho John, que em janeiro deste ano assumiu o comando de Commentary (veja AQUI o último número), já tinha há algum tempo uma coluna no tablóide New York Post, do império Murdoch, que também lhe garantia espaço regular para escrever sobre cinema na Weekly Standard de Bill Kristol.

Segundo disse ao New York Times o escritor Jacob Heilbrunn, que em janeiro lançou um livro novo sobre os neocons (The Knew They Were Right: The Rise of the Neocons), John Podhoretz é encarado no grupo “como mero beneficiário da celebridade dos pais, nos moldes de George W. Bush”. Detalhe: os que fazem críticas a eles têm o cuidado de pedir para não serem identificados.

Outra alegre família que reza unida é a dos Kagan (Fred, Donald, Robert e Kimberly). Atualmente há muitos neocons em desgraça, devido aos efeitos da guerra e à desastrosa ocupação do Iraque. Casado com Rachel Decter, Elliott Abrams – genro de Norman Podhoretz e Midge Decter, além de cunhado de John – já tinha cumprido pena no escândalo Irã-Contras, quando esteve na trama do coronel Oliver North.

A ascensão e a decadência

O atual governo Bush reabilitou Abrams, instalando-o como especialista em América Latina no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, mas depois da ingerência americana no fracassado golpe da Venezuela (2002), ele parece preferir um perfil baixo. Entre os neocons conspícuos, já sairam de cena Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz, I. Lewis Libby (condenado por perjúrio), Richard Perle e Douglas Feith.

São desfalques conspícuos, que golpeiam o papel do grupo no governo Bush. Originalmente, os neocons destacaram-se no período macarthista ao dar força aos caçadores de bruxas. Ex-trotskistas, tornaram-se então liberais ferozmente anti-comunistas. Na política externa, seguiam a linha dura do senador Henry (Scoop) Jackson, democrata de direita; e na política interna, pregavam redução de gastos e do tamanho do Estado.

Rejeitados pelos republicanos de Gerald Ford e pelos democratas de Jimmy Carter, só começaram a chegar ao poder, timidamente, no governo Reagan (Perle, Abrams e Jeane Kirkpatrick entre outros). Depois Bush pai deu força ao grupo ao instalar Dick Cheney no Pentágono; e no governo do segundo Bush eles praticamente assaltaram o poder com seu Projeto do Novo Século Americano, que se tornou a nova Estratégia de Segurança Nacional do país (conheça sua íntegra AQUI, em PDF). Agora estão claramente em declínio.

Published in: on junho 13, 2008 at 6:17 pm  Comments (1)  

Cena americana no tempo dos “hippies”

 Quem não se lembra de Easy Rider? Nesse filme de 1969, cujo título no Brasil  foi Sem Destino, uma dupla de hippies sujos e incômodos (Peter Fonda e  Dennis Hopper, aos quais juntou-se depois Jack Nicholson), cavalgando  motocicletas e fumando maconha, é eliminada por cidadãos normais de uma  cidadezinha qualquer. Parecia tão insólito que, ajudado pela trilha sonora, bateu  recordes de bilheteria e fez escola em Hollywood. Hoje sabemos porque:  o  clima ali retratado refletia uma realidade vivida no país.

A minúscula cidade de Nederland, no Colorado, foi palco no verão de 1971 de crime parecido, impune por mais de um quarto de século. A vítima: um hippie sujo acampado nos arredores. O assassino: o xerife adjunto, que o matou a tiros. Como um fantasma do passado, o caso foi desenterrado há pouco mais de uma década e o criminoso confessou. Renner LeRoy Forbes, o assassino, já era estava então aposentado, tinha quase 70 anos e morava numa comunidade para velhos em outro estado, Kansas.

Um investigador do Colorado o encontrou ali, esquecido – e ouviu a confissão. O fato despertou interesse por reviver o conflito interno que dividia o país nos anos conturbados da guerra do Vietnã. Aquele choque entre a pequena Nederland, de 550 habitantes pacatos e acomodados, e o bando hippie acampado nas imediações depois de sair da escola, queimar papéis do serviço militar e viajar em caronas, retratava uma época.

O silêncio cúmplice da cidade

Nederland fica nas montanhas Rochosas. O hippie Guy Howard Goughnour tinha 19 anos. Era de família rica num subúrbio de Minneapolis, Minnesotta. Abandonara a escola secundária e a casa confortável para se juntar a outros hippies desencantados com o establishment e viajar sem rumo. “Acho que o mataram porque era hippie e nada significava para ninguém – a não ser para seus pais”, disse a mãe dele, Nancy Goughnour.

“Na época não nos explicaram nada”, contou ela. Na verdade, a própria Nederland fez questão de esquecer o crime. Não se explicavam mortes de hippies no país. A de Goughnour seria fácil de investigar. Estava então vivendo numa comunidade cuja existência irritava a cidade. O xerife o prendeu na noite de 17 de julho de 1971, depois de tumulto num bar, e o levou no carro-patrulha. O corpo foi encontrado a mais de 30 quilômetros da cidade, numa ribanceira.

O adjunto Forbes tinha então 42 anos. Fora criado numa fazenda do Kansas e viajara pelo mundo graças ao serviço militar na Força Aérea. Patriota no velho estilo, orgulhava-se do treinamento militar e odiava vagabundos e contestadores. Apesar de mais baixo do que Goughnour, era uma montanha de músculos. E pelo menos 45 quilos mais pesado do que o hippie.

“Solução é abater a tiros”

“Era um valentão. Parecia um touro. E se exibia”, contou ao New York Times, em 1987, Dave Gordon, dono do Pioneer Inn, bar frequentado à época pelos mineiros da redondeza – e pelos hippies. Gordon chamou a Polícia por causa de tumulto causado por Goughnour. Forbes trancafiou o hippie no carro-patrulha e depois avisou: “Se você voltar a essa cidade, vai se arrepender”.

Forbes disse posteriormente a outras pessoas que tinha levado Goughnour para fora da cidade e do condado. “Ele vai levar muito tempo para encontrar o caminho de volta”, garantiu. Outros policiais já tinham declarado, para quem quisesse ouvir, que a melhor maneira de livrar Nederland dos hippies era “abater esses bastardos a tiros e depois jogar os cadáveres montanha abaixo”.

Depois que o corpo de Goughnour foi descoberto, com duas perfurações de bala, a cidade inteira suspeitou de Forbes. Mas nem por isso a comunidade local fez qualquer pressão para o caso ser investigado. O laudo técnico foi inconclusivo e o xerife adjunto negou ter qualquer coisa a ver com o crime.

“Éramos apenas crianças”

A comunidade, na verdade, refletia o clima anti-hippie do país naquela época. Seis meses antes tinham acontecido os massacres do bando de Charles Manson em Los Angeles – quando foi morta, entre outras pessoas, a atriz de cinema Sharon Tate. Em Nederland muita gente achava que qualquer coisa era válida para livrar a área dos hippies, acusados de pedir esmolas e roubar.

Um dos companheiros hippies de Goughnour na época, Bruce Bohne, também foi encontrado, 26 anos depois, pelos jornais. Estava então com mais de 40 anos de idade e trabalhava como ator em Hollywood. Aos repórteres interessados no passado dele, deu sua versão: “De fato a gente costumava pedir dinheiro. Mas éramos só crianças tentando viver aventuras. Não fazíamos mal a ninguém”.

Valentão no passado, o ex-xerife adjunto já não passava de um velho inofensivo. Psicologicamente perturbado desde a morte da mulher, movimentava-se em cadeira de rodas, devido a derrame sofrido algum tempo antes. Terça-feira, 14 de outubro de 1987, ele se declarou culpado no tribunal. Arrependido, garantiu que se pudesse daria 10 anos de sua vida para que aquilo nunca tivesse acontecido.

Published in: on junho 13, 2008 at 3:24 pm  Deixe um comentário  

O fenômeno Obama em novo momento


Na matéria de capa da edição de março do Le Monde Diplomatique Brasil (veja ao lado), sobre o fenômeno Obama, assinalei que, qualquer que fosse o resultado final da eleição de novembro, uma coisa era certa: o confronto Obama-Hillary já representava um avanço histórico. E mais: “Ele ainda poderá perder, por ser negro; ou ela, por ser mulher. Mas uma etapa terá sido vencida”.

De fato, nunca um negro ou uma mulher concorreram antes à Casa Branca por um grande partido com chance de ganhar. Mas os obstáculos maiores serão na próxima etapa, decisiva, em seguida às convenções dos partidos no final de agosto e início de setembro. O esforço republicano contra Barack Obama ganhou contornos mais ferozes bem antes do esperado – em parte alimentado pelo tom agressivo de Hillary, ao se ver diante da derrota iminente.

Mesmo assim – ou talvez em consequência disso – a campanha do candidato a ter a indicação oficializada pelo Partido Democrata continua vigorosa, sugerindo que será capaz de suportar os golpes que ainda virão. A vantagem dele sobre o republicano John McCain cresceu depois de Hillary ter reconhecido a derrota. Uma pesquisa de acompanhamento deu-lhe dianteira de 8 pontos percentuais; e outra, de 7 pontos.

As razões para uma vitória

O neoconservador John Podhoretz, hoje à frente da revista Commentary, escreveu que os republicanos não têm esperança de prevalecer em novembro a menos que se apresentem como “tribunos de uma vitória americana no Iraque”. Mas em carta à redação (veja AQUI) um leitor observou que Podhoretz parece não ter percebido o significado daquilo que ocorreu na paisagem política do país nos últimos oito anos.

“Durante os dois mandatos do presidente George W. Bush o Partido Republicano: 1. deu as costas ao conservadorismo fiscal e converteu superávits nos maiores déficits orçamentários da história; 2. elevou a dívida nacional do ano 2000, US$4,8 trilhões e em declínio, a US$10 trilhões (e em ascensão), como é projetada para outubro; 3. atolou os EUA numa guerra mal explicada no Iraque, hoje transformada numa lambança; 4. ampliou no mundo a desconfiança dos EUA; e 5. fez mais para subverter a liberdade em nome da segurança do que qualquer governo na história.”

Para aquele leitor, os republicanos vão receber em novembro uma merecida rejeição do eleitorado, sendo improvável que McCain, entregando-se por inteiro à guerra impopular, consiga evitá-lo. O raciocínio é de um conservador ortodoxo que se considera traído. Só o grupo neoconservador a que se ligou Podhoretz é capaz de virar pelo avesso o conservadorismo e dizer a McCain para insistir nos erros desastrosos do atual presidente.

Além disso, uma realidade diferente desafia atualmente o Partido Republicano – algo que a democrata Hillary Clinton também não entendeu. Atropelada pelo fenômeno Obama, ela recorreu prontamente à velha receita dos ataques macarthistas – a mesma que já é reprocessada nos laboratórios republicanos de Karl Rove. A campanha do senador negro mexe com o país inteiro, em mobilização comparável à de 1968.

O jornalismo da dona-de-casa

Naquele ano tropas americanas lutavam no Vietnã enquanto jovens protestavam na rua e, depois, também nas campanhas – primeiro na do senador Eugene McCarthy (cujo bom desempenho em New Hampshire levou Lyndon Johnson a desistir da reeleição) e, em seguida, na de Bob Kennedy (cuja vitória na Califórnia o deixou a um passo da indicação presidencial). Os assassinatos de Luther King (em abril) e Kennedy (junho) contribuiram então para subverter o quadro.

A violência em Chicago (“o mundo inteiro está olhando”, diziam os manifestantes), durante a convenção democrata que indicou o candidato de Johnson, Hubert Humphrey, resultou da desesperança (saiba mais AQUI). Hoje é o contrário: depois de 28 anos com um Bush ou um Clinton na Casa Branca, um negro de 46 anos de idade representa a esperança. A promessa dele é “Hope” (esperança) e “Change” (mudança). E os jovens repetem o bordão: “Yes, we can” – Sim, nós podemos (clique abaixo para o videoclip de Obama, “Yes, We Can”, já visto por mais de um milhão e meio de pessoas).

É esse o quadro retratado a cada dia pela grande mídia – ou melhor, pela “velha mídia” dos jornais, revistas, TVs e rádios, em especial os canais de cabo dedicados ao jornalismo 24/7 (vinte e quatro horas do dia; sete dias da semana). Mas hoje há mais. Faz diferença a nova mídia, pulverizada: Huffington Post, Politico, Drudge Report, MoveOn, TomPaine.com, Slate, Media Matters, Daily Kos, TruthDig, You Tube, etc. E os milhares de blogs, infiltrados em massa até nos sites da velha mídia.

Enquanto a velha ainda tenta encontrar seu novo papel, a nova descobre aos poucos seu potencial – como a capacidade de atrair pequenas contribuições políticas, inclusive a maior parte das dezenas de milhões de dólares que financiam Obama. O jornalismo ortodoxo quer entender a nova mídia. Esta semana no Washington Post a coluna Media Notes, de Howard Kurtz, relatou a história de Mayhill Fowler, uma dona- de-casa de 61 anos que nunca fizera jornalismo antes mas deu dois “furos” em poucos dias (leia AQUI).

Uma verdade fora dos ônibus

 Fowler (foto ao lado) integra o projeto “Off the Bus” (de US$200 mil) do site Huffington Post  em conjunto com o professor de jornalismo Jay Rosen (Universidade de Nova York). Essa  expressão, “fora do ônibus”, refere-se aos ônibus de jornalistas que acompanham os  candidatos). Parte do princípio de que os jornalistas tradicionais ficam dentro de uma  bolha, por isso costumam dizer frequentemente a mesma coisa.

O projeto usa 2500. Fowler, além de escrever bem (formou-se em literatura há anos pela Universidade da Califórnia em Berkeley), adora conversar. Ela se meteu nisso devido ao entusiasmo por Obama, o primeiro golpeado por um “furo” dela – a gravação da fala em San Francisco na qual ele criticava os desencantados trabalhadores do meio-oeste que abraçam religião e armas, hostilizando negros e imigrantes. Semanas depois repetiu a façanha: gravou as ofensas de Bill Clinton ao jornalista Todd Purdum, da Vanity Fair.

Ela é parte de uma história bem maior: a do papel desempenhado pela nova mídia na atual campanha. Os fatos acontecem todo dia. Na última sexta-feira, por exemplo, uma apresentadora da Fox News, E.D. Hill chamou a saudação de punhos fechados de Obama e sua mulher Michelle (veja AQUI) de “gesto terrorista islâmico”. Os blogs reagiram. Mostraram até o velho Bush (o pai) a fazer o mesmo. Restou a Hill pedir desculpas – uma imagem que está agora no YouTube (clique abaixo para ver).

 

Published in: on junho 12, 2008 at 2:11 am  Deixe um comentário  

O último enigma de Hillary Clinton

Um dos erros mais graves da candidata Hillary Clinton, em sua fase de desespero pela perda da condição de favorita na corrida presidencial democrata, foi ao declarar no dia 6 de março que apenas ela própria e o republicano John McCain, já então detentor da indicação de seu partido, tinham provado ter capacidade para tomar decisões como “comandante-chefe”, na área de segurança nacional. A ênfase dela: Barack Obama era capaz apenas de fazer belos discursos (clique abaixo para ouví-la no YouTube).

Como compatibilizar tal manifestação com o reconhecimento formal do último sábado, com vários dias de atraso, de que Obama é o ganhador legítimo e indiscutível da indicação presidencial democrata? Nesse dia a senadora prometeu ainda fazer tudo para ajudar, na eleição de novembro, o colega negro do Senado que antes considerava inferior ao próprio republicano – palavras agora usadas na campanha adversária contra os democratas. Também no sábado, em vez de pôr fim à sua campanha, Hillary limitou-se a anunciar uma “suspensão” – sem se dar ao trabalho de dizer o que significa isso.

Pouco antes Hillary tivera uma reunião com Obama a portas fechadas – “clandestina”, para usar a palavra contida nos relatos da mídia – na casa da senadora Diane Feinstein, em Washington. Ninguém sabe o que aconteceu ali. Para mais de um analista, no entanto, ela pediu socorro a ele para ajudá-la a pagar a dívida de sua campanha, estimada nuns US$ 35 milhões, dos quais a maior parte é dinheiro emprestado por ela própria. Ou seja, a pretensão seria de um reembolso daquilo que saiu do cofre da família.

Parece no mínimo insólito buscar a “ajuda” do rival para recuperar o dinheiro injetado pelos Clinton, nas semanas finais de uma campanha já perdida, na ânsia de financiar a veiculação de comerciais torpes com ataques macarthistas que causaram graves danos à imagem do hoje candidato democrata. Ironicamente, o gasto da fase final da disputa era só para criar na mídia a aparência de que ainda havia alguma chance de vitória para ela – uma ilusão enganosa.

O eleitorado contra a favorita

Apesar dos sucessivos elogios feitos a ela por Obama (como a declaração de que “inspirou milhões de americanos com sua força, sua coragem e seu compromisso com causas que fazem diferença”), a imagem falsa que Hillary tentou passar, à custa daquele déficit gigantesco acumulado, é a de vítima do preconceito sexista – a de uma mulher injustiçada porque ousou desafiar o machismo dominante. Outra fantasia: como destacou a colunista Maureen Dowd, ela não perdeu por ser mulher e sim por causa dos erros fatais dela mesma, do marido e de Mark Penn, desastrado administrador da campanha (leia AQUI a coluna de Dowd).

A realidade nesse episódio específico, ainda que a força do preconceito seja inegável, é bem diferente da aparência que vendeu. Em primeiro lugar, ela não tem o direito de abraçar assim a vitimologia sem falar da força do racismo contra o rival – até porque Hillary tirou partido do ressentimento de trabalhadores brancos do meio-oeste contra negros e imigrantes, conseqüência da redução de empregos na região.

Vítima? Hillary? Até a primeira disputa, em Iowa, a campanha dela recebera mais dinheiro do que qualquer candidato na história das primárias. Dinheiro de lobbies e figurões, enquanto Obama captava milhões, via internet, em contribuições de US$5, US$10, US$20. Além disso, ela antecipara-se aos rivais para garantir superdelegados (dirigentes partidários) antes mesmo de ser desencadeado o processo. Estava tão à frente de todos os adversários, como favorita absoluta, que não percebeu a necessidade de ganhar não só cartolas, mas também a base – os eleitores democrata.

Atropelada antes da coroação

A arrogância dela, com pose de presidente mais de dois anos antes, durou até Hillary ser atropelada em Iowa – não por um, mas por dois dos candidatos, Obama e John Edwards. Ela parecia então à espera de uma coroação, mas ficou só em terceiro lugar. Em busca da reabilitação em New Hampshire, onde teve ligeira vantagem sobre Obama, apelou pela primeira vez para a vitimologia: chorou diante das câmeras de TV.

O pior, no entanto, foi o que veio depois, principalmente nas semanas e meses posteriores à Super Terça-Feira. Naquele 5 de fevereiro Obama distanciou-se com uma frente sólida, na votação popular, no número de delegados e no número de estados – enquanto superdelegados, até muitos dos que antes tinham prometido o voto a ela, começaram a aderir em massa ao preferido pelos eleitores. 

Restou à campanha dela – que se negava a reconhecer a derrota mesmo diante da impossibilidade aritmética de evitá-la – criar as falsas aparências para contestar a realidade dos números. Por exemplo, ela fingiu ter vencido no Texas, onde Obama obteve maior número de delegados, e iniciou esforço obstinado para validar os votos da Flórida e Michigan, anulados previamente pela direção nacional do partido com o apoio explícito dela.

Há mais particularidades na aparência que ela tentou criar – como a história de que venceu na votação popular. Ela não diz que isso só ocorre na contagem particular dela, com base em critério singular que nada tem a ver com as regras do partido. As regras variam de estado para estado, mas Hillary optou, por exemplo, por ignorar caucuses (reuniões partidárias), que estão fora da contagem dela. Além disso,conta os votos da Flórida e até os de Michigan, onde só o nome dela estava na cédula. E inclui Porto Rico, cujos votos não valem na eleição presidencial. 

A ameaça radical feminista

Mais grave na campanha foi a escalada difamatória de Hillary desde o momento em que se deu conta de ter perdido o bonde. Ela ressuscitou a culpa por associação, na linha macarthista (para atribuir ao rival os excessos do pastor da igreja dele e, depois, as posições de um vizinho que fora radical há 40 anos, na década de 1960). E, claro, proclamou que ela própria, como o republicano John McCain, provou que pode ser comandante-chefe, mas não Obama.

Os milhões de dólares da dídiva da campanha dela foram usados nesse tipo de campanha prejudicial ao próprio Partido Democrata – e quando já não havia como reverter o triunfo de Obama. Ao defender a decisão de manter a campanha, até o início da semana passada, Hillary lembrou, de forma inconveniente e imprudente (pelo risco da emulação), que em 1968 o candidato Bob Kennedy fora assassinado em junho, depois de vencer as primárias da Califórnia. Como se esperasse a execução de Obama.

A obstinação de Hillary contra o fato consumado – a derrota que se negava a admitir – ainda extremou os ânimos entre suas mais exaltadas seguidoras. Como a comissão partidária de regras rejeitou a pretensão dela sobre Michigan, só validando parte dos votos, morreu a última esperança. Agora feministas exaltadas gritam que votarão em McCain – o que não beneficia o feminismo, já que uma vitória republicana põe em risco na Suprema Corte até a legalidade do aborto, causa maior da mulher. (Clique abaixo para ouvir, no YouTube, a clintoniana radical Harriet Christian gritar que votará em McCain)

Published in: on junho 9, 2008 at 3:20 pm  Deixe um comentário  

A estranha culpa de um editor anônimo

Saiu terça-feira das organizações Globo, segundo nota publicada pela Folha de S. Paulo (leia AQUI), um produtor anônimo da Globo News (o nome foi omitido na nota). Não sei o critério (terá sido sorteio?) para se atribuir a ele a responsabiliade pela notícia de 20 de maio sobre o acidente, não acontecido, com avião da Pantanal Linhas Aéreas, que supostamente atingira um prédio na zona sul de São Paulo.

Faço o registro pela admiração que tenho pela equipe da Globo News, cujo jornalismo engole o das celebridades do “Jornal Nacional” & cia., do “Seu Boneco” Bonner no Rio ao modelo da Playboy Alexandre Garcia em Brasília – para não falar no escalão mais alto, de gente como o guardião da doutrina da fé, Ali Kamel, que no passado defendeu o escândalo ProConsult e no presente não vê racismo no Brasil.

A Globo News, um heróico exército Brancaleone, faz jornalismo 24 horas por dia. Produtores como aquele transformado agora em bode expiatório do que o jargão da imprensa chama de “barriga” é forçado a tomar decisões rápidas. A causa oculta da demissão pode ser esta: o incêndio de fábrica de colchões que virou desastre aéreo desmentiu uma alegação anterior de que a Globo só noticia desastre aéreo quando há certeza.

Os guardiões da doutrina da fé

A alegação foi da cúpula do jornalismo da Globo ao justificar em 2006 uma conduta indecorosa do “Jornal Nacional”: em plena campanha eleitoral, quando se aliara ao tucano Geraldo Alckmin, optou por ignorar o maior desastre da aviação comercial brasileira a fim de ampliar o tempo de exposição na tela do dinheiro apreendido por um delegado amigo, na ânsia de detonar a reeleição do presidente Lula.

O mau jornalismo dos guardiões da doutrina da fé conseguiu apenas adiar a reeleição para o segundo turno. E ao ser cobrada deles a falha jornalística sobre o desastre da TAM, noticiado antes por emissoras menos obcecadas em derrotar o governo, a única desculpa invocada foi de que a Globo, “preocupada com as famílias dos passageiros”, prefere omitir tais informações até que haja uma apuração rigorosa.

A cabeça do produtor da Globo News pode ter rolado por isso. Ele estava acostumado – como contou a Folha – a fazer de tudo. Apurava, escrevia as “cabeças” e editava. E em São Paulo funcionava freqüentemente como editor-chefe informal do “Jornal das Dez”, o principal noticiário do dia, que muitas vezes dá de 10 a zero no “Jornal Nacional” do “Seu Boneco”, feito para Homer Simpson ver (aquele idiota do cartum, que aparece aí no alto, à esquerda).

Procurada pela Folha de S. Paulo, a Globo foi econômica nas informações sobre a demissão. Limitou-se a alegar que tinha tomado “as medidas que julgou necessárias e que dizem respeito aos seus procedimentos internos”. Lamento, pois mesmo não conhecendo o bode expiatório, conheço a dedicação e a competência da equipe da Globo News, que faz milagres diários e cumpre missões impossíveis.

Em busca da “opção nuclear”

Por coincidência, também esta semana houve demissões na USAF – a Força Aérea dos EUA. Como no episódio da Globo, a decisão foi tomada depois de uma investigação. O assunto era mais grave: problemas sistêmicos na operação de armas nucleares e componentes. Mas desta vez o secretário da Defesa, Robert Gates, preferiu evitar a clássica escolha de bodes expiatórios no escalão inferior (leia AQUI a notícia do New York Times).

Gates encarou os responsáveis da cúpula: o próprio secretário da Força Aérea, Michael W. Wynne, e o chefe do Estado Maior, general Michael Moseley. Os dois foram convidados a renunciar. Segundo a investigação, a última série de incidentes detectados refletia “um padrão de conduta deficiente” no manejo de “componentes militares sensíveis”.

Qualquer pessoa que costuma acompanhar as notícias na área do Pentágono – minado pelo que o general Eisenhower, no seu discurso de despedida da Casa Branca (leia o texto AQUI), chamou de “complexo militar-industrial” – sabe que a notícia desta semana foge à rotina militar. Não é o procedimento habitual. Mas o caso era tão grave que pode até alimentar a esperança de mais mudanças no futuro.

Claro que o episódio das organizações Globo não se compara ao das armas nucleares do Pentágono. Mas se for levado em conta a queda de audiência de seu jornalismo em geral (excluída a fase da exploração do caso Isabella) não seria o momento de adotar uma “opção nuclear” e rever o poder dos guardiões da doutrina da fé? Não estaria a doutrina deles a reclamar remendos capazes de mudar o rumo do jornalismo?

A fórmula da Globo na Record

Reportagem de Jonathan Wheatley publicada quinta-feira pelo Financial Times (leia AQUI) observou que a estratégia vencedora da Globo já completou 30 anos. Depois de conquistar os telespectadores ela buscava mantê-los leais. Agora, se a Globo não está mudando, diz o Times, seus telespectadores estão. Só nos últimos dois anos 20 milhões de brasileiros entraram na faixa de renda média, que compreende 46% da população.

A fatia da Globo continua em 70%, mas sob ameaça. O público médio caiu, mesmo no horário nobre. E ao invés de fugir para as rivais tradicionais, SBT e Bandeirantes, vai para a nova Record, cuja fórmula consiste em copiar a Globo. “As novelas da Record parecem com as da Globo, até os atores, os ambientes e a programação visual”, escreve Wheatley. “E seus atores vieram da Globo”.

O Times refere-se ainda a novidades introduzidas na fórmula pela Record. Cita o sucesso de duas novelas, Vidas opostas e Caminhos do coração, ambas consideradas grandes sucessos. Não fala do jornalismo mas há indícios de que também pode estar vivendo experiência semelhante. Daí a suspeita de que a Globo vai, sim, precisar de guardiões diferentes para a sua doutrina da fé.

Published in: on junho 7, 2008 at 3:52 pm  Deixe um comentário  

Henry Kissinger, censor da História

Há quatro anos escrevi em minha coluna da Tribuna da Imprensa que, ante a submissão da mídia nos EUA à histeria patrioteira disseminada no governo Bush, com exemplos tão vergonhosos como a receptação de informações falsas por uma Judith Miller (repórter depois defenestrada do New York Times) nos corredores do poder, os heróis da liberdade de expressão passaram a ser encontrados fora das redações – na área acadêmica, por exemplo.

Citei na ocasião o caso de um deles, Kenneth Maxwell, professor e historiador, britânico de nascimento, que demonstrara não estar sua integridade e seriedade intelectual à venda, como a de certos levianos da mídia. Brasil, Portugal e América Latina devem a ele obra preciosa que devassou a Inconfidência Mineira (veja ao lado a capa da edição brasileira de A Devassa da Devassa e conheça AQUI dados sobre o mesmo livro, em sua versão inglesa) e reavaliou o legado singular do Marquês de Pombal (saiba mais AQUI) e a revolução dos cravos (AQUI).

Maxwell tinha deixado de ser scholar residente do Council on Foreign Relations, a respeitada instituição sediada em Nova York e que publica a principal revista de política externa do país (a Foreign Affairs), para não se submeter a um personagem de passado suspeito que teimava em censurar a mídia e reescrever a História, falsificando nela sua própria imagem duvidosa.

Receita para esconder a verdade

Falta aos que agem assim coragem suficiente para o confronto aberto. O ex-secretário de Estado Henry Kissinger acostumou-se a agir na sombra e a usar gente como ele, sem apreço pela verdade histórica ou pela honestidade intelectual. Durante pelo menos seis anos essa figura patética, de um período melancólico, tem recorrido a expedientes variados na obsessão de adulterar a História.

Primeiro tentou impedir, para tanto indo à última instância judicial, que o público tivesse acesso ao conteúdo de documentos e gravações de sua época na Casa Branca e no Departamento de Estado. Depois de perder a batalha ainda protelou por alguns anos o sigilo oficial sobre o papel dele em episódios como o golpe do Chile, o banho de sangue na Argentina, o bombardeio secreto do Camboja, o massacre do Timor Leste, etc – o que Christopher Hitchens pesquisou parcialmente para um julgamento por crimes de guerra que nunca se realizou (conheça AQUI o livro escrito por ele sobre o assunto).

Há razões para o mundo acreditar que é um criminoso de guerra, desde que deixou Paris às pressas a fim de escapar à intimação de um juiz para depor sobre vítimas da ditadura Pinochet. Por isso já não circula livremente fora de seu país. Mas dentro dos EUA, Kissinger ainda tem inacreditável influência e o estranho poder de censurar a mídia – como fez há quatro anos, tendo como alvo o professor Maxwell.

Um confronto Kissinger-Maxwell chamou a atenção do Establishment de política externa dos EUA entre novembro de 2003 e setembro de 2004. A causa foi uma resenha de Maxwell na Foreign Affairs sobre o livro The Pinochet File: A Declassified Dossier on Atrocity and Accountability (O arquivo Pinochet: Um dossiê desclassificado sobre atrocidade e responsabilidade), de Peter Kornbluh, que analisava documentos até então secretos (veja a capa ao lado e saiba mais sobre o livro AQUI).

A duras penas, como dente podre

Kornbluh dirige o Projeto Chile do National Security Archive, grupo privado que se esforça para liberar documentos secretos, com base na FOIA, Lei de Liberdade de Informação, e os oferece ao público, com sua análise. A resenha de Maxwell era sóbria (leia a íntegra AQUI). Elogiou o esforço para se saber mais sobre o episódio, distanciando-se às vezes das posições do autor. E referiu-se ao papel que Kissinger sempre tentou negar.

Foi o bastante para despertar a fúria do todo-poderoso censor da História. Ela não veio diretamente de Kissinger, mas de seu sócio William D. Rogers – secretário assistente para assuntos hemisféricos (1974-77) quando Kissinger era secretário de Estado, e hoje servindo à firma Kissinger Associates, que faz lobby milionário pelo mundo em favor de negócios de corporações transnacionais americanas.

Num pugilato com os fatos Rogers recorreu à tática macarthista da insinuação torpe e acusou Maxwell de se unir à esquerda para perpetuar o suposto mito do papel dos EUA no golpe pinochetista. Talvez não esperasse a resposta contundente do historiador, que ousou lembrar o assassinato do general René Schneider, a Operação Condor e a bomba que matou em Washington o ex-chanceler Orlando Letelier (leia AQUI a carta e a resposta).

O golpe foi demais para Kissinger. Maxwell sugeriu até que os americanos precisam de uma truth commission, como as criadas em países recém-saídos de tiranias e empenhados em descobrir a verdade de seu passado recente, pois nos EUA ela “está tendo de ser extraída a duras penas, como dente podre”. A resposta de Maxwell, no número de janeiro-fevereiro (de 2004) da Foreign Affairs, indignou a dupla Kissinger-Rogers.

Acobertando os crimes do vilão

Outra carta, recebida a 4 de fevereiro e de novo assinada por Rogers, foi lida por Maxwell, que respondeu em seis parágrafos e destacou, entre outras coisas: “Rogers não pode fornecer escudo eterno atrás do qual seu chefe possa esconder-se”. Mas o número de março-abril da revista deu a Rogers (leia-se: Kissinger) a última palavra (veja a carta AQUI). Isso porque Foreign Affairs sonegou aos leitores a nova resposta do professor (leia AQUI, em PDF, um relato completo de Maxwell, inclusive o texto da carta não publicada).

A agressão primária à ética foi ainda mais grave porque Maxwell, como diretor de estudos latino-americanos do Council on Foreign Relations, era responsável há uma década pelas resenhas sobre o tema na revista. Ninguém de bom senso joga pela janela um emprego como o desse professor no Council. Mas foi exatamente o que ele fez, em nome da própria integridade e de uma trajetória acadêmica que já incluiu Yale, Princeton e Columbia, jóias da coroa Ivy League.

A Universidade de Harvard apressou-se então a atraí-lo para o Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos – onde Maxwell passou a dirigir (e ainda dirige) o programa de estudos brasileiros (conheça AQUI sua página na internet). E uma carta assinada pelo professor (de Harvard) John Coatsworth e mais 10 especialistas em América Latina, todos membros do Council, protestou depois contra a decisão insólita da revista, sendo publicada no número de setembro. Só que o texto do protesto, mesmo tendo saído à época na revista, com uma resposta do editor, nunca foi incluído na edição online. Pode ser lido hoje apenas no relato de Maxwell (citado acima).

Published in: on junho 6, 2008 at 3:27 pm  Comments (1)  

Bush-McCain e os 100 anos no Iraque

 

 É verdade que o senador John McCain, hoje ansioso para exibir independência, já foi bem menos afinado com Bush e seu governo. Em 2000 os dois foram adversários ferozes nas primárias; e durante o primeiro mandato do atual presidente o senador ousou fazer críticas ao governo. Mas o próprio McCain reavaliou as posições independentes do passado e rendeu-se ao bushismo, a ponto de cortejar a direita republicana, que o abominava, e até aplaudir os cortes de impostos de Bush em benefício apenas dos ricos.

O que sela a unidade Bush-McCain é a emblemática adesão do candidato à política da guerra no Iraque. Há precisamente um ano o presidente rasgou a fantasia e assumiu o que negava desde que começara a planejar a invasão: os EUA de fato vão manter tropas no Iraque “durante anos ou mesmo décadas”, disse. Ele citou os exemplos do Japão e Alemanha depois da II Guerra Mundial, mas o modelo ideal, também confessado, é o da Coréia.

McCain gostou, a julgar por seu próprio remendo – pois em seguida, mais realista do que o rei, prometeu que os EUA vão ficar 100 anos no Iraque (clique abaixo deste parágrafo para ver o comercial democrata que expôs sua declaração, deixando-o irritado). Na Coréia do Sul as tropas americanas já estão há mais de meio século. Os casos do Japão e da Alemanha eram entendidos no contexto, já sem sentido, da guerra fria – até por ter sido a Alemanha reunificada em 1989. A Coréia vive ainda o clima da guerra fria, com a divisão norte-sul do armistício. A reunificação ali até já motivou reunião das partes, sem resultados concretos.

Como nasceu o “modelo Coréia”

Para os EUA, há fórmulas menos ou mais ostensivas para perpetuar a ocupação do Iraque – ainda que disfarçada. Isso porque o objetivo óbvio, como já se sabe desde o primeiro momento, é manter sob seu controle o fluxo de petróleo do país. Poderia ser com uma ditadura tipo Reza Pahlevi do Irã, cuja SAVAK, treinada pela CIA, torturava e matava. Ou então com a presença de tropas americanas.

Coube ao New York Times dedicar ao tema, no ano passado, a relevância que merecia, com uma análise do jornalista David E. Sanger, publicada numa edição de domingo (leia AQUI). Ele lembrou que o governo Bush já falava há muito (de forma discreta) na necessidade de manter uma presença militar na região, sem dizer exatamente onde. E afinal tinha vindo a história, sintomática, do “modelo da Coréia”.

Quem na época falou no exemplo (e tais coisas nunca acontecem por acaso) foi o então porta-voz da Casa Branca, Tony Snow. Ele disse que a Coréia era uma maneira de pensar sobre como a missão dos EUA pode evoluir para “um papel de apoio (ao Iraque) no horizonte”, quando as tropas americanas não estiverem mais patrulhando as ruas de Bagdá.

No dia seguinte, fingindo ser por acaso, o secretário da Defesa Robert Gates também citou a Coréia. Afirmou que o estabelecimento de uma guarnição americana a longo prazo seria bem mais inteligente do que a maneira como se conduziu a saída do Vietnã. “A idéia é mais um modelo de arranjo acertado pelas partes para presença continuada e duradoura, com apoio bipartidário e sob certas condições”. 

Buscando apoio na oposição

Ficou claro, pela escolha cuidadosa das palavras, que o governo Bush tinha consciência de que seria obrigado a negociar isso menos com o Iraque, parte fraca, do que com a oposição democrata nos EUA, que ao menos teoricamente tinha o controle das duas casas do Congresso (Joe Lieberman, no Senado, contava para dar maioria à oposição, mas já fechava sempre com Bush, pois representa mais Israel do que seu próprio estado de Connecticut).

A citação da Coréia, como Sanger fez questão de destacar, tem boas razões. A Coréia do Sul neste momento oferece a imagem de democracia consolidada, com uma economia entre as maiores do mundo – em contraste com os problemas da Coréia do Norte, comunista. Mas tal modelo, conforme a análise doTimes, sugere também uma “presença quase permanente” no Iraque.

O que o governo Bush deixou de lado, por razões óbvias, é a interpretação a ser dada pelo setor mais firme e consequente da oposição democrata. Ali existe consciência de que havia desde o primeiro momento o projeto oculto de gente como Bush, Dick Cheney e Condoleezza Rice, egressos do setor petrolífero, de usar artifícios para apropriar-se do petróleo iraquiano.

O exemplo de Pahlevi no Irã

Opositores naturais aos planos do governo Bush não têm dúvida de que o Iraque tende a continuar polo de atração para combatentes islâmicos de toda parte. Afinal, a própria transformação do saudita Osama Bin Laden, treinado pela CIA para combater os russos no Afeganistão, em grande líder mundial da luta anti-EUA, deveu-se à decisão americana de estacionar tropas na Arábia Saudita.

Como ele, largos setores islâmicos repudiam a presença das tropas “infiéis” em países onde existem cidades santas para eles – como Arábia Saudita e Iraque. O envio de soldados para território saudita, iniciativa do governo do primeiro Bush, a pretexto de proteger o país contra Saddam Hussein, é fonte permanente de preocupação, por alimentar a pregação extremista.

A reação islâmica a decisão semelhante no Iraque corre o risco de exigir mais repressão – e talvez um regime implacável em Bagdá, como o de Riad. Como o governo Bush, ao contrário do que apregoa, sonha mais com o controle do petróleo do que com democracia naquele país, insistirá na idéia. Foi mais ou menos o que os EUA fizeram no Irã do xá Pahlevi – onde a insanidade levou à explosão dos aiatolás (veja AQUI, numa coleção de fotos, a intimidade do xá com diferentes presidentes dos EUA). No debate eleitoral McCain tenta distanciar-se de Bush mas inevitavelmente será cobrado pela promessa dos 100 anos, que nem Bush fez.

 

Published in: on junho 5, 2008 at 4:00 pm  Deixe um comentário