A lua de mel de Bush e Sarkozy

O presidente Bush está em lua de mel com o francês Nicolas Sarkozy (leia AQUI os discursos dos dois na Casa Branca no dia 6 de novembro de 2007). Mais sensato, no entanto, seria entender que a política exterior da França não mudou – e estudar a análise feita há cinco anos pelo professor Stanley Hoffman, de Harvard, autor de livros de política internacional e questões européias (leia AQUI seu artigo em The Nation a 29 janeiro de 2004). Ele registrou dois pontos críticos nas relações dos EUA com a França. Primeiro, a maneira como a divergência foi tratada em Washington às vésperas do ataque ao Iraque.

No passado o general De Gaulle tinha alertado os EUA para mudar o rumo equivocado no Vietnã – prevendo o desastre iminente. Nunca foi perdoado. Houve então uma divergência séria. A França raciocinava a partir de sua própria derrota na Indochina em 1954, após oito anos de guerra sangrenta. Sabia que os EUA agiam como protetores do regime fantoche de Saigon, a pretexto de combater a “agressão comunista”. O presidente Johnson julgava maliciosa e anti-americana a interpretação francesa de que os EUA estavam em confronto com o nacionalismo vietnamita.

Para Kennedy e Johnson, os soldados americanos eram benvindos no Vietnã, como protetores contra o comunismo. O caráter colonialista do conflito só foi reconhecido pelos EUA depois de oito anos de guerra e 58 mil soldados americanos mortos. Houve ressentimento na época pela posição do general De Gaulle, mas isso não se fez acompanhar, segundo Hoffman, de um assalto geral à França, como ocorreu na divergência com o neoconservadorismo bushista sobre o Iraque (leia AQUI outra reflexão dura de Hoffman sobre a política externa de Bush na New York Review of Books de 12 de junho de 2003).

Pecado da França foi estar certa

Em 2005 a nova secretária de Estado Condoleezza Rice recebeu a missão de atrair a França de volta, mas sem admitir que os franceses estavam certos e o governo Bush errado. A França queria continuar as inspeções de armas enquanto Bush partia de uma ficção – a suposta existência das tais armas proibidas. Na etapa seguinte, a França recomendou o pronto restabelecimento da soberania do Iraque, mas os EUA insistiram na fase da ocupação militar – um novo desastre.

O que Bush tentou em 2005 não foi exatamente recompor a aliança com a França e sim convencê-la a dividir com os EUA as consequências dos erros americanos, para os quais Bush fora advertido por Paris. A França apoiara o aliado e fora à guerra com ele no Afeganistão. Ao se opor ao erro no Iraque, tornara-se alvo de campanha destrutiva e orquestrada (até contra o consumo nos EUA de vinho francês), cheia de insinuações malévolas, distorções e mentiras. Por que teria depois de arcar com o ônus?

Buscara-se desacreditar os argumentos e a própria França. Hoffman (foto à esquerda – e saiba mais sobre ele AQUI e AQUl) observou que a campanha só parou “depois que o embaixador francês enviou à Casa Branca a lista das maiores mentiras. Era falsa a alegação de que a França opusera-se a qualquer guerra contra Saddam Hussein: os franceses tinham apenas informado Bush de que dariam tropas se houvesse prova de que o Iraque não admitia livrar-se das supostas armas proibidas.

As mentiras e a prepotência

Pouco antes da guerra do Iraque os franceses ainda ofereceram uma solução de compromisso, segundo a qual os EUA interpretariam a ambígua resolução 1441 do Conselho de Segurança, de novembro de 2002, como fundamento para sua ação contra o Iraque; enquanto a França e outros países apenas manifestariam sua divergência. Isso teria evitado uma votação. O Conselho, assim, não ficaria dividido na segunda resolução.

Mas Bush, prepotente e arrogante, preferiu ridicularizar as inspeções de armas (até comparou Hans Blix ao “inspetor Clouseau”) e insistir na escalada retórica – “quem não está conosco está contra nós”, “cada um que mostre suas cartas”. Naquela bobajada texana de pôquer, o alvo do desafio era a França. O governo Chirac limitou-se a advertir os EUA: “se houver votação, vocês perdem”. Só à última hora Bush caiu na realidade e desistiu do voto. Ignorou então a posição idêntica de outros (Alemanha, Rússia, China, até Chile e México) e dirigiu sua ira contra a França, cujo pecado foi estar certa e advertir lealmente o aliado.

O segundo ponto destacado por Hoffman foi sobre a própria posição francesa. Jacques Chirac discordou por várias razões. De algumas delas participavam também críticos americanos da obsessão neoconservadora de forçar a guerra. Para a França, era absurdo considerar o Iraque, enfraquecido pela derrota de 1991 e anos de inspeções e sanções, “perigo iminente e claro”. Afinal, até a União Soviética, superpotência nuclear, fora contida durante 40 anos.

Tentando dividir os europeus

Os franceses – como também o general Brent Scowcroft, que antes tinha assessorado Bush pai na Casa Branca – temiam que o efeito da guerra no Iraque seria desviar atenção e recursos do combate ao terrorismo e ainda atrair terroristas para novo front (o que de fato aconteceu). Enfatizavam a importância do Direito Internacional e instituições como ONU, OTAN e União Européia num mundo inderdependente no qual nenhuma potência deve impor sua vontade.

A linha dura do governo Bush, com desprezo pelas normas internacionais, pela ONU e pelas alianças estabelecidas, namorou abertamente o unilateralismo e o expediente obceno batizado de “coalition of the willing” (coalizão de “voluntários” – na verdade, de “submissos”), e hostilizando o que chamou de “velha Europa”. Finalmente, Hoffman (veja à esquerda a capa de seu livro de 2004 sobre o Iraque e a tentação imperial dos EUA – e saiba mais AQUI) viu três componentes na preferência da França pelas inspeções ao invés de guerra:

1. Confiança na capacidade e alcance das inspeções, como na objetividade e rigor de Hans Blix, chefe da equipe de inspetores internacionais de armas;

2. Mesmo sem simpatia por Saddam, a França relutava em apoiar guerra para mudar um regime, receita potencial de caos no mundo, ou impor democracia à força aos árabes;

3. Com 5 milhões de muçulmanos no país e longa experiência de terrorismo, era natural que encarasse com apreensão outra tese bushista, a do “choque de civilizações”.

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Published in: on junho 28, 2008 at 4:16 am  Deixe um comentário  

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