Lições da fraude de Ohio que reelegeu Bush

Em ano de eleição presidencial o tema é obrigatório – até por ser subestimado, mesmo tendo recebido alguma atenção em 2004. Na campanha daquele ano o secretário de Estado Kenneth Blackwell, de Ohio, repetiu a fraude de Katherine Harris na Flórida em 2000. Mas em 2006, ironicamente, tanto o eleitorado de Ohio derrotou Blackwell para governador como o da Flórida repudiou Harris para o Senado.

Você se lembra da mulher esquisita da foto ao lado? É Harris. Em 2000 ela era co-presidente da campanha presidencial de George W. Bush, apesar de ter a responsabilidade de conduzir com neutralidade e lisura um processo eleitoral honesto na Flórida. Blackwell, com  idêntica missão eleitoral em 2004, fora presidente honorário da campanha para reeleger Bush. A diferença foi ter havido em Ohio uma crônica da fraude anunciada: tudo ocorreu exatamente como fora previamente denunciado.

Vale uma reflexão. Os EUA sonham com convenientes mudanças de governo no mundo sem o desgaste de seu apoio habitual, desde o início do século passado, a golpes militares no velho estilo – que às vezes dão certo mas também podem fracassar, como o de 2002 contra Chávez na Venezuela (leia AQUI sobre documentos secretos da CIA que provam ter o governo Bush acompanhado durante semanas a preparação do golpe). Não seria a fraude eleitoral, após testes bem sucedidos em casa (nos EUA) receita eficaz também em outros países?

Aquela outra eleição roubada

De qualquer forma, ainda é no mínimo subavaliado o que aconteceu no Ohio. Na Flórida a mídia preferiu omitir-se nos desdobramentos pos-eleitorais – até mesmo na interpretação dos estudos encomendados por ela própria. No Ohio, em meio à sua campanha para governador, Blackwell viu-se forçado a suspender a destruição das cédulas da eleição de Bush em 2004.

Em dezembro de 2007 a nova secretária de Estado do Ohio, Jennifer Brunner, concluiu que os sistemas de votação que apontaram o resultado eleitoral do estado três anos antes tinham sido minados por “falhas críticas de segurança”. Meses antes já fora lançado o livro (veja a capa ao lado) What Happened in Ohio? – A Documentary Record of Theft and Fraud in the 2004 Election (O que aconteceu em Ohio? – Registro documental do roubo e da fraude na eleição de 2004), escrito por Robert J. Fitrakis, Steven Rosenfeld e Harvey Wasserman (saiba mais AQUI sobre o livro).

Com base em fontes primárias, os três autores mostraram a desonestidade na eleição, apuração, expurgo de eleitores, cassação, etc. Fitrakis é advogado e professor de Ciências Políticas, além de diretor do Institute for Contemporary Journalism. Passou dois anos estudando o processo eleitoral de 2004. O repórter Rosenfeld, residente em San Francisco, trabalhava para a rede pública de rádio. Wasserman era do jornal Free Press, de Ohio.

Anomalias maciças na votação

O adiamento da destruição das cédulas resultou do trabalho dos três e do esforço de democratas da comissão de Justiça da Câmara, em Washington, presidida pelo deputado John Conyers, além de ações judiciais paralelas, que fizeram avançar as investigações da fraude. Muita gente continuou empenhada no trabalho, mas a mídia corporativa dos EUA fez o possível para ignorar a questão, que motivou ainda mais um livro (How the GOP Stole America’s 2004 Election & Is Rigging 2008, dos mesmos Fitrakis e Wasserman) e o volume (What Went Wrong in Ohiocom as conclusões da comissão Conyers (capa acima, à esquerda – leia mais AQUI).

Como acontece desde o 11/9, a mídia fez o que pôde para preservar a duvidosa legitimidade de Bush. Uma exceção foi reportagem do New York Times a 31 de agosto de 2006 (leia AQUI), ao noticiar o retardamento da destruição dos votos de 2004. Em 2000 o próprio candidato democrata Al Gore, vencedor da votação popular no país, optou por jogar a toalha sem questionar a fraude. John Kerry seguiu o exemplo dele em 2004.

Mas uma equipe de estatísticos e advogados que investigou a eleição de 2004 viu nos resultados preliminares sinais de irregularidades bem mais amplas do que se pensava antes. Por isso cresceu a campanha pela preservação da papeladada toda – e não apenas adiamento da destruição. Na Câmara, estudo dos democratas também descobriu “irregularidades e anomalias maciças e sem precedentes na votação”.

Uma análise devastadora

O rosário de irregularidades incluiu artifícios para impedir eleitores de votar (expurgo prévio de nomes, como na Flórida), panfletos informando mudança falsa de muitos locais de votação, correspondência fraudada a eleitores avisando que não votariam por estar em situação irregular, retirada de máquinas de votação em distritos de tendência democrata e filas forjadas (em um posto a votação estendeu-se até 4 da manhã). Daí o título apropriado do segundo livro de Filtrakis e Wasserman, Como os republicanos roubaram a eleição de 2004 & estão fraudando 2008 (veja a capa ao lado e leia AQUI mais informações sobre ele).

Depoimentos e documentos comprovaram que pelo menos 129.543 eleitores foram impedidos de votar no candidato democrata (seria o suficiente para inverter o resultado). Aparentemente, Blackwell conseguiu proeza ainda maior que a de Harris na Flórida. O cálculo de outro estudo – publicado na revista Rolling Stone por Robert F. Kennedy Jr. em 2006 – foi ainda mais minucioso: ampliou para 350 mil o total daqueles votos perdidos.

Depois do escândalo da última eleição do México, toda a América Latina está no dever de estudar com cuidado o caso de Ohio. Neste ano eleitoral dos EUA é possível que os democratas estejam mais atentos. Nesse sentido recomenda-se a leitura do livro What Happened in Ohio, do relatório Conyers e ainda o trabalho de Bob Kennedy Jr, filho do senador assassinado há 40 anos, após vencer a primária de 1968 na Califórnia. Leia-o AQUI, na edição de junho de 2006 da Rolling Stone.

Anúncios
Published in: on junho 26, 2008 at 2:37 am  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2008/06/26/licoes-da-fraude-de-ohio-que-reelegeu-bush/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: