As duas realidades nos relatórios sobre o Iraque

Enquanto nos EUA a mídia bushista (Fox News à frente) insiste em vender a idéia de que a guerra já fez o Iraque virar um paraíso, em Sadr City – subúrbio da capital, Bagdá – a explosão de uma bomba terrorista voltou a matar pessoas nas últimas horas, inclusive quatro americanos (dois soldados e dois funcionários do governo dos EUA) e seis civis iraquianos.

O paradoxo da cobertura oferecida diariamente pela Fox News é que os repórteres de vídeo passaram a aparecer de uniforme e superequipados – não com câmeras e sim blindados com coletes à prova de bala e capacetes reforçados. Se a situação estivesse sob controle das autoridades, como teimam em repetir, por que eles fazem questão de se vestir como combatentes e não repórteres?

A última bomba explodiu no prédio do Conselho Municipal em Sadr City. É inegável que o surge (reforço que aumentou o número de soldados dos EUA) funcionou ao reduzir as baixas nas tropas. Mas até o general David Petraeus evita dizer quando a força de ocupação voltará ao nível anterior. Em 10 anos, 50, 100? O plano original é transferir a responsabilidade aos próprios iraquianos. Não é mais?

Aquele complicador iraniano

O Wall Street Journal, que hoje integra com a Fox News e outros veículos o império Murdoch de mídia, foi o primeiro ontem a revelar um novo relatório do Pentágono que considera o Irã “a maior ameaça a longo prazo à segurança do Iraque” (leia AQUI). Trata-se de relatório largamente positivo. Registra a queda da violência e exalta o primeiro-ministro Nouri al-Maliki por atacar e destruir os milicianos xiitas.

Mas o GAO (Government Accountability Office), braço investigativo do Congresso, divulgou seu próprio relatório e desmentiu amplamente o otimismo róseo do Pentágono ao analisar a situação. Segundo o Washington Post (leia AQUI), os dois relatórios “parecem avaliar realidades totalmente diferentes”. Aliás, o GAO sequer fez referência ao Irã – que não é citado nem de passagem.

Coisa parecida já tinha acontecido há poucos meses, também tendo o Irã como alvo. O governo de Teerã alega que seu programa nuclear (foto AFP à esquerda) é para fins pacíficos; e depois de sucessivas advertências do Departamento de Estado sobre suposta “ameaça nuclear” iraniana, um relatório de inteligência (NIE) da CIA (Agência Central de Espionagem) negou a ameaça, subestimando o significado do enriquecimento de urânio, sobre o qual a Casa Branca vinha fazendo declarações alarmistas (leia AQUI sobre o relatório em reportagem do New York Times).

Revivendo a fraude das ADM

Para quem acompanhou os preparativos da invasão do Iraque – e a campanha de propaganda sobre a ameaça das armas de destruição em massa (ADM) de Saddam Hussein, que não existiam – o quadro atual parece um dejà vu. A diferença é que naqueles dias a resistência era do Departamento de Estado, que só se rendeu depois de um acerto entre o presidente Bush e o secretário Colin Powell.

Uma guerra no Irã continua a ser a obsessão de Bush e do vice Cheney mas a dupla já não conta com a histeria patrioteira que manipulou a partir do 11/9. E o Congresso (Senado e Câmara) está sob o controle da oposição democrata. Claro que sempre será possível contar com o belicismo incontrolável de Israel – até para um ataque de surpresa ao Irã. Mesmo assim é uma situação muito mais complexa do que a de 2002-03.

Um presidente com nível de aprovação inferior a 30% dificilmente seria capaz de fabricar mais uma guerra de forma irresponsável. Além disso, o relatório do GAO disse que a maneira escolhida pelo governo Bush para medir progressos no Iraque deixa de mostrar o quadro por inteiro. Muitas das metas estabelecidas pelo presidente não foram alcançadas. E não existe estratégia clara sobre o que as tropas farão depois do surge.

A força de Muqtada al-Sadr

Segundo o relatório do GAO, há uma idéia equivocada sobre o significado da redução da violência. Isso porque o governo Bush frequentemente usa dados exagerados e enganosos na obsessão de demonstrar progressos. Para auditores oficiais, apenas 10% das forças de segurança do Iraque conseguem de fato operar sem uma efetiva assistência das tropas americanas.

Como agora o Wall Street Journal colocou também sua reportagem a serviço do governo Bush (antes da invasão de Rupert Murdoch, apenas a página de opinião estava afinada com os neocons) parece natural o jornal tornar-se linha auxiliar do bushismo, patrocinando – como fez ontem – o relatório róseo do Pentágono, que proclamou o triunfo de al-Maliki sobre as milícias de Muqtada al-Sadr.

Segundo o Journal, os sadristas ainda têm apoio das bases no sul do Iraque rural, onde a população é majoritariamente xiita (leia AQUI a reportagem de ontem). A esperança dos EUA são os rivais deles no Conselho Supremo Islâmico, graças a Maliki. Mas a bomba que ontem matou uns 10, entre eles quatro americanos, põe em xeque a conclusão do jornal da Wall Street de que Maliki praticamente já neutralizou os xiitas anti-americanos.

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Published in: on junho 25, 2008 at 2:54 am  Deixe um comentário  

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