Receita de Bush amplia o vício em petróleo

O preço do petróleo está enlouquecendo a direita americana, em especial depois que a bomba de gasolina dos postos passou a cobrar do consumidor, em média, mais de US$4 por galão. Mas o presidente Bush e os políticos republicanos ainda não foram capazes de articular uma posição minimamente racional para enfrentar a situação, até pela tendência natural a identificar a culpa do atual governo.

Em primeiro lugar, é preciso considerar que antes de Bush ter desencadeado sua “invasão preventiva” no Iraque, as próprias autoridades de seu governo chegaram a alegar que a guerra forçaria a queda dos preços do petróleo. E mais: que o custo da gigantesca operação militar seria coberto pelo próprio Iraque, com o aumento de sua produção de petróleo. Está acontecendo exatamente o contrário.

Depois da invasão os preços do petróleo apenas subiram – e nos últimos meses o salto superou as piores estimativas, foi além de US$140 por barril. Em razão das antigas conexões da família Bush com o negócio do petróleo em geral e a Arábia Saudita em particular os americanos vêem com suspeita as ações do governo, ultimamente obcecado em repetir no Irã a lambança criada no Iraque (veja o cartum acima, de Donar para o blog Political Graffiti).

Remédio que mata o doente

No discurso do Estado da União de 31 de janeiro de 2006, o presidente Bush tinha reconhecido pela primeira vez, com todas as letras, que o país padece de uma doença grave: “A América está viciada em petróleo, produto que é importado, com freqüência, de regiões instáveis do mundo. A melhor maneira de acabar com esse vício é através da tecnologia.” (Leia a íntegra AQUI, no site da Casa Branca) 

Desde 2001, acrescentou, os EUA já tinham investido quase US$10 bilhões para desenvolver fontes mais limpas, mais baratas e mais confiáveis de energia alternativa. E graças a isso estavam às portas de progressos incríveis. Em seguida Bush anunciou sua Iniciativa Avançada de Energia (AEI), para elevar em 22% a pesquisa de energia limpa em duas áreas vitais.

A meta era mudar, primeiro, o uso de energia nas casas e escritórios, investindo mais em instalações energéticas de emissão-zero, com base no carvão, tecnologia solar e eólica, além de energia nuclear limpa e segura. “Temos ainda de mudar a maneira de mover nossos carros, ampliando a pesquisa em baterias melhores para os híbridos e elétricos e os movidos a hidrogênio, que não poluem”, afirmou.

Recordo o discurso porque agora Bush anunciou outro plano. Como destacou o colunista Tom Friedman domingo, consiste em “reforçar o vício no petróleo”, com sofisticação: 1. “conseguir que a Arábia Saudita, que nos vende a droga, aumente a dosagem, impedindo que as alternativas de energia renovável funcionem”; 2forçar o Congresso a revogar a proibição de furar poços de petróleo em áreas costeiras e no Ártico (ANWR).

Um viciado-chefe à deriva

Para Friedman, “é como se nosso viciado-chefe estivesse a nos dizer: ‘Ei caras, essa é da boa, tome um pouco mais. Mais uma cafungada aqui e um pico aí, cara. Ano que vem a gente fica careta. Até boto uma turbina de vento na minha biblioteca presidencial. Agora não dá. Temos de furar poço, cara. Só mais uma transfusão daquele doce petróleo da área oceânica da costa'”.

Entendo a confusão mental de Friedman. Esse colunista do New York Times é useiro e vezeiro em se converter ao disparate que antes condenava. Sentado no seu escritório em Washington ele disse em 2003 que a guerra do Iraque foi fabricada “por 25 pessoas que estão aqui perto, num raio de cinco quarteirões desta sala” (leia a declaração dele AQUI, no Haaretz, de Israel). E mesmo assim esse jornalista apoiou a aventura como “farol para disseminar a democracia no Oriente Médio”.

Parece insólito mas o colunista convive com as próprias contradições. Agora escreve que é difícil encontrar palavras para expressar “como é maciça, fraudulenta e patética a desculpa (de Bush) para a política energética” (leia AQUI a coluna do Times na íntegra). Talvez desta vez, como o mandato presidencial já está muito perto do fim, Friedman consiga resistir mais um pouco à insanidade do governo, o que não aconteceu em relação ao Iraque.

Ao mesmo tempo, dá pena ver o esforço de políticos republicanos para se adaptar às bruscas mudanças de Bush – que jamais admite ter cometido qualquer erro. Eles se surpreenderam com o discurso do Estado da União de 2006. Agora têm de dar meia volta e reabilitar as posições passadas, como se o problema fosse a oposição democrata à perfuração de poços de petróleo na costa e no Alasca.

Unir esforços, sem ameaça

O futuro dos EUA, advertiu o colunista, não está no petróleo. Um presidente de verdade não devia peitar o Congresso para furar poços hoje. Devia dizer ao país uma verdade bem mais contundente: “O petróleo envenena nosso clima e nossa geopolítica. E a receita para curar nosso vício é esta: fixamos o preço base de US$4,50 o galão de gasolina e US$100 o barril de petróleo”.

Para Friedman, isso iria disparar investimentos maciços em energia renovável. O país ainda embarcaria num programa rápido, de emergência, capaz de aumentar dramaticamente a eficiência energética, empurrar a conservação para um nível novo e ampliar a geração de energia nuclear. Um presidente verdadeiro também conclamaria democratas e republicanos a se unirem a ele no esforço.

“É o que faria um presidente de verdade”, afirma. “Ele nos daria um plano estratégico para pôr fim ao vício em petróleo e construiria coalizão bipartidária para executá-lo. Na certa não usaria os últimos dias no cargo para ameaçar os parlamentares democratas de que, se não aprovarem a perfuração de poços até o recesso de 4 de Julho, serão culpados pela gasolina a US$4 o galão. Isso é inépcia – uma política energética indigna de nossa data da Independência.”

Anúncios
Published in: on junho 23, 2008 at 5:24 pm  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2008/06/23/receita-de-bush-amplia-o-vicio-em-petroleo/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: