Um beijo contra a chapa McCain-Lieberman

Em todas as listas de nomes potenciais para completar a chapa republicana aparece o senador Joe Lieberman, que foi democrata até 2006, quando perdeu as primárias para o Senado em seu estado, Connecticut. Tudo por causa do beijo caloroso que recebeu do presidente Bush, em agradecimento pelo apoio sistemático ao projeto bélico bushista da invasão do Iraque – contra a posição do próprio partido. (Lieberman costuma negar o beijo, mas clique abaixo para ver como foi mostrado na TV)

Derrotado pelo democrata Ned Lamont devido ao ato de traição política, Lieberman insistiu em continuar na campanha, como “independente”. E continuou a cortejar o majoritário eleitorado democrata de Connecticut, jurando que se fosse eleito faria questão de permanecer aliado à bancada democrata, ajudando a oposição a ganhar o controle do Senado. Graças a tal posição enganosa e aos votos republicanos, acabou vencendo.

De fato, naquele episódio a farsa de Lieberman, fingindo estar dos dois lados, funcionou. Na segunda fase do processo, como “independente”, a campanha dele foi riquíssima. Choveu dinheiro, em especial do lobby de Israel e grupos ligados aos interesses israelenses. Entre outras coisas sua campanha proclamava que a vitória de Lieberman, um judeu ortodoxo, seria crucial para… derrotar o Hezbollah em Israel.

Campeão da causa israelense

Gente de bom senso naturalmente percebia o despropósito. Sendo candidato ao Senado dos EUA e não ao Knesset de Israel, Lieberman antes preferia destacar os interesses de seu estado. Mas ele nunca dispensou a muleta do lobby israelense, que atua com grande eficácia no nordeste do país e em especial na área metropolitana de Nova York – que inclui Connecticut.

Na época um analista político da rede de cabo MSNBC, Tom Curry, disse que Lieberman tinha passado a receber contribuições de doadores republicanos e independentes, como também de democratas que o tinham apoiado na fase das primárias. E destacou entre eles “os que concordam com o apoio dele no Senado a Israel e à permanência das tropas americanas no Iraque”.

O analista da MSNBC foi mais longe: “Neste momento em que Israel está em guerra com o Hezbollah, a candidatura de Liberman torna-se um ponto de atração para aqueles que pensam não ser correto encerrar a carreira no Senado de alguém que se tornou um campeão abnegado da aliança entre os EUA e o estado de Israel”.

Contra as posições do partido

Curry citou ainda a palavra do diretor-executivo da organização NJDC (Conselho Nacional Democrático Judaico), Ira Forman: “Ele pode levantar muito dinheiro” na campanha. Como? “Há uma rede pro-Israel de pessoas que vão dar contribuições a Lieberman por causa de sua amizade com a comunidade judaica e por causa de quem ele é”.

Assim, a questão para o eleitorado democrata de Connecticut era se o apoio sistemático, em quaisquer circunstâncias, de Lieberman a Israel, justificava votar nele, mesmo sabendo já ter perdido as primárias e traído seu partido, que oficializara a candidatura, consagrada nas urnas, de Ned Lamont – um candidato rico, que usava na campanha dinheiro de sua fortuna pessal.

Na etapa decisiva da eleição senatorial Lamont buscou expor a opção abraçada por Lieberman como mais uma traição das muitas de sua carreira política. Pois antes, já traíra ao negar apoio ao presidente Clinton no início da campanha republicana do impeachment; ao subverter o esforço democrata para anular votos resultantes de fraude na Flórida (em 2000); e ao preferir ser leal à guerra de Bush.

Foi lembrado ainda que Lieberman também traíra o partido no Senado ao romper a unidade oposicionista e ficar contra a obstrução à indicação (feita por Bush) do juiz Samuel Alito para a Suprema Corte – outra sabotagem da linha partidária. Esse juiz viria depois a reforçar a facção que empurra cada vez mais para a direita o tribunal supremo dos EUA.

A recompensa pela traição

Além de apoiar a “guerra preventiva” de Bush no Iraque, onde já morreram mais de 4000 soldados americanos (sem falar nos 30 mil aleijados e ainda nos civis iraquianos mortos, 1 milhão, e nos refugiados, 4 milhões), o senador deu força a toda a política belicista do governo republicano no Oriente Médio – e ao bombardeio e invasão do Líbano por Israel.

E o que teria Lieberman agora para oferecer à campanha de McCain? Talvez apenas a hipótese de atrair em massa os votos dos judeus de Nova York e, com isso, dar aos republicanos a vitória nesse estado, o terceiro maior em número de votos eleitorais. Mas essa é, em princípio, uma hipótese remota. Mesmo se ocorresse algo parecido, com parte do eleitorado judeu optando por McCain, ainda poderia ser insuficiente.

No mais, Lieberman apenas choveria no molhado ao entrar na chapa. A imagem dele é semelhante à do próprio McCain. A direita cristã, tão importante para Bush em 2000 e 2004, vê o ex-democrata com desconfiança – e se inclina mais pelo ex-governador Mitt Romney, que nas primárias denunciava a tendência de McCain de buscar acordo com o partido da oposição. Assim, Lieberman pode no máximo ajudar Israel como secretário da Defesa. (E clique abaixo para ver o entusiasmo com que investe na Fox News contra Barack Obama)

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Published in: on junho 18, 2008 at 7:01 pm  Deixe um comentário  

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