Cena americana no tempo dos “hippies”

 Quem não se lembra de Easy Rider? Nesse filme de 1969, cujo título no Brasil  foi Sem Destino, uma dupla de hippies sujos e incômodos (Peter Fonda e  Dennis Hopper, aos quais juntou-se depois Jack Nicholson), cavalgando  motocicletas e fumando maconha, é eliminada por cidadãos normais de uma  cidadezinha qualquer. Parecia tão insólito que, ajudado pela trilha sonora, bateu  recordes de bilheteria e fez escola em Hollywood. Hoje sabemos porque:  o  clima ali retratado refletia uma realidade vivida no país.

A minúscula cidade de Nederland, no Colorado, foi palco no verão de 1971 de crime parecido, impune por mais de um quarto de século. A vítima: um hippie sujo acampado nos arredores. O assassino: o xerife adjunto, que o matou a tiros. Como um fantasma do passado, o caso foi desenterrado há pouco mais de uma década e o criminoso confessou. Renner LeRoy Forbes, o assassino, já era estava então aposentado, tinha quase 70 anos e morava numa comunidade para velhos em outro estado, Kansas.

Um investigador do Colorado o encontrou ali, esquecido – e ouviu a confissão. O fato despertou interesse por reviver o conflito interno que dividia o país nos anos conturbados da guerra do Vietnã. Aquele choque entre a pequena Nederland, de 550 habitantes pacatos e acomodados, e o bando hippie acampado nas imediações depois de sair da escola, queimar papéis do serviço militar e viajar em caronas, retratava uma época.

O silêncio cúmplice da cidade

Nederland fica nas montanhas Rochosas. O hippie Guy Howard Goughnour tinha 19 anos. Era de família rica num subúrbio de Minneapolis, Minnesotta. Abandonara a escola secundária e a casa confortável para se juntar a outros hippies desencantados com o establishment e viajar sem rumo. “Acho que o mataram porque era hippie e nada significava para ninguém – a não ser para seus pais”, disse a mãe dele, Nancy Goughnour.

“Na época não nos explicaram nada”, contou ela. Na verdade, a própria Nederland fez questão de esquecer o crime. Não se explicavam mortes de hippies no país. A de Goughnour seria fácil de investigar. Estava então vivendo numa comunidade cuja existência irritava a cidade. O xerife o prendeu na noite de 17 de julho de 1971, depois de tumulto num bar, e o levou no carro-patrulha. O corpo foi encontrado a mais de 30 quilômetros da cidade, numa ribanceira.

O adjunto Forbes tinha então 42 anos. Fora criado numa fazenda do Kansas e viajara pelo mundo graças ao serviço militar na Força Aérea. Patriota no velho estilo, orgulhava-se do treinamento militar e odiava vagabundos e contestadores. Apesar de mais baixo do que Goughnour, era uma montanha de músculos. E pelo menos 45 quilos mais pesado do que o hippie.

“Solução é abater a tiros”

“Era um valentão. Parecia um touro. E se exibia”, contou ao New York Times, em 1987, Dave Gordon, dono do Pioneer Inn, bar frequentado à época pelos mineiros da redondeza – e pelos hippies. Gordon chamou a Polícia por causa de tumulto causado por Goughnour. Forbes trancafiou o hippie no carro-patrulha e depois avisou: “Se você voltar a essa cidade, vai se arrepender”.

Forbes disse posteriormente a outras pessoas que tinha levado Goughnour para fora da cidade e do condado. “Ele vai levar muito tempo para encontrar o caminho de volta”, garantiu. Outros policiais já tinham declarado, para quem quisesse ouvir, que a melhor maneira de livrar Nederland dos hippies era “abater esses bastardos a tiros e depois jogar os cadáveres montanha abaixo”.

Depois que o corpo de Goughnour foi descoberto, com duas perfurações de bala, a cidade inteira suspeitou de Forbes. Mas nem por isso a comunidade local fez qualquer pressão para o caso ser investigado. O laudo técnico foi inconclusivo e o xerife adjunto negou ter qualquer coisa a ver com o crime.

“Éramos apenas crianças”

A comunidade, na verdade, refletia o clima anti-hippie do país naquela época. Seis meses antes tinham acontecido os massacres do bando de Charles Manson em Los Angeles – quando foi morta, entre outras pessoas, a atriz de cinema Sharon Tate. Em Nederland muita gente achava que qualquer coisa era válida para livrar a área dos hippies, acusados de pedir esmolas e roubar.

Um dos companheiros hippies de Goughnour na época, Bruce Bohne, também foi encontrado, 26 anos depois, pelos jornais. Estava então com mais de 40 anos de idade e trabalhava como ator em Hollywood. Aos repórteres interessados no passado dele, deu sua versão: “De fato a gente costumava pedir dinheiro. Mas éramos só crianças tentando viver aventuras. Não fazíamos mal a ninguém”.

Valentão no passado, o ex-xerife adjunto já não passava de um velho inofensivo. Psicologicamente perturbado desde a morte da mulher, movimentava-se em cadeira de rodas, devido a derrame sofrido algum tempo antes. Terça-feira, 14 de outubro de 1987, ele se declarou culpado no tribunal. Arrependido, garantiu que se pudesse daria 10 anos de sua vida para que aquilo nunca tivesse acontecido.

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Published in: on junho 13, 2008 at 3:24 pm  Deixe um comentário  

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