O fenômeno Obama em novo momento


Na matéria de capa da edição de março do Le Monde Diplomatique Brasil (veja ao lado), sobre o fenômeno Obama, assinalei que, qualquer que fosse o resultado final da eleição de novembro, uma coisa era certa: o confronto Obama-Hillary já representava um avanço histórico. E mais: “Ele ainda poderá perder, por ser negro; ou ela, por ser mulher. Mas uma etapa terá sido vencida”.

De fato, nunca um negro ou uma mulher concorreram antes à Casa Branca por um grande partido com chance de ganhar. Mas os obstáculos maiores serão na próxima etapa, decisiva, em seguida às convenções dos partidos no final de agosto e início de setembro. O esforço republicano contra Barack Obama ganhou contornos mais ferozes bem antes do esperado – em parte alimentado pelo tom agressivo de Hillary, ao se ver diante da derrota iminente.

Mesmo assim – ou talvez em consequência disso – a campanha do candidato a ter a indicação oficializada pelo Partido Democrata continua vigorosa, sugerindo que será capaz de suportar os golpes que ainda virão. A vantagem dele sobre o republicano John McCain cresceu depois de Hillary ter reconhecido a derrota. Uma pesquisa de acompanhamento deu-lhe dianteira de 8 pontos percentuais; e outra, de 7 pontos.

As razões para uma vitória

O neoconservador John Podhoretz, hoje à frente da revista Commentary, escreveu que os republicanos não têm esperança de prevalecer em novembro a menos que se apresentem como “tribunos de uma vitória americana no Iraque”. Mas em carta à redação (veja AQUI) um leitor observou que Podhoretz parece não ter percebido o significado daquilo que ocorreu na paisagem política do país nos últimos oito anos.

“Durante os dois mandatos do presidente George W. Bush o Partido Republicano: 1. deu as costas ao conservadorismo fiscal e converteu superávits nos maiores déficits orçamentários da história; 2. elevou a dívida nacional do ano 2000, US$4,8 trilhões e em declínio, a US$10 trilhões (e em ascensão), como é projetada para outubro; 3. atolou os EUA numa guerra mal explicada no Iraque, hoje transformada numa lambança; 4. ampliou no mundo a desconfiança dos EUA; e 5. fez mais para subverter a liberdade em nome da segurança do que qualquer governo na história.”

Para aquele leitor, os republicanos vão receber em novembro uma merecida rejeição do eleitorado, sendo improvável que McCain, entregando-se por inteiro à guerra impopular, consiga evitá-lo. O raciocínio é de um conservador ortodoxo que se considera traído. Só o grupo neoconservador a que se ligou Podhoretz é capaz de virar pelo avesso o conservadorismo e dizer a McCain para insistir nos erros desastrosos do atual presidente.

Além disso, uma realidade diferente desafia atualmente o Partido Republicano – algo que a democrata Hillary Clinton também não entendeu. Atropelada pelo fenômeno Obama, ela recorreu prontamente à velha receita dos ataques macarthistas – a mesma que já é reprocessada nos laboratórios republicanos de Karl Rove. A campanha do senador negro mexe com o país inteiro, em mobilização comparável à de 1968.

O jornalismo da dona-de-casa

Naquele ano tropas americanas lutavam no Vietnã enquanto jovens protestavam na rua e, depois, também nas campanhas – primeiro na do senador Eugene McCarthy (cujo bom desempenho em New Hampshire levou Lyndon Johnson a desistir da reeleição) e, em seguida, na de Bob Kennedy (cuja vitória na Califórnia o deixou a um passo da indicação presidencial). Os assassinatos de Luther King (em abril) e Kennedy (junho) contribuiram então para subverter o quadro.

A violência em Chicago (“o mundo inteiro está olhando”, diziam os manifestantes), durante a convenção democrata que indicou o candidato de Johnson, Hubert Humphrey, resultou da desesperança (saiba mais AQUI). Hoje é o contrário: depois de 28 anos com um Bush ou um Clinton na Casa Branca, um negro de 46 anos de idade representa a esperança. A promessa dele é “Hope” (esperança) e “Change” (mudança). E os jovens repetem o bordão: “Yes, we can” – Sim, nós podemos (clique abaixo para o videoclip de Obama, “Yes, We Can”, já visto por mais de um milhão e meio de pessoas).

É esse o quadro retratado a cada dia pela grande mídia – ou melhor, pela “velha mídia” dos jornais, revistas, TVs e rádios, em especial os canais de cabo dedicados ao jornalismo 24/7 (vinte e quatro horas do dia; sete dias da semana). Mas hoje há mais. Faz diferença a nova mídia, pulverizada: Huffington Post, Politico, Drudge Report, MoveOn, TomPaine.com, Slate, Media Matters, Daily Kos, TruthDig, You Tube, etc. E os milhares de blogs, infiltrados em massa até nos sites da velha mídia.

Enquanto a velha ainda tenta encontrar seu novo papel, a nova descobre aos poucos seu potencial – como a capacidade de atrair pequenas contribuições políticas, inclusive a maior parte das dezenas de milhões de dólares que financiam Obama. O jornalismo ortodoxo quer entender a nova mídia. Esta semana no Washington Post a coluna Media Notes, de Howard Kurtz, relatou a história de Mayhill Fowler, uma dona- de-casa de 61 anos que nunca fizera jornalismo antes mas deu dois “furos” em poucos dias (leia AQUI).

Uma verdade fora dos ônibus

 Fowler (foto ao lado) integra o projeto “Off the Bus” (de US$200 mil) do site Huffington Post  em conjunto com o professor de jornalismo Jay Rosen (Universidade de Nova York). Essa  expressão, “fora do ônibus”, refere-se aos ônibus de jornalistas que acompanham os  candidatos). Parte do princípio de que os jornalistas tradicionais ficam dentro de uma  bolha, por isso costumam dizer frequentemente a mesma coisa.

O projeto usa 2500. Fowler, além de escrever bem (formou-se em literatura há anos pela Universidade da Califórnia em Berkeley), adora conversar. Ela se meteu nisso devido ao entusiasmo por Obama, o primeiro golpeado por um “furo” dela – a gravação da fala em San Francisco na qual ele criticava os desencantados trabalhadores do meio-oeste que abraçam religião e armas, hostilizando negros e imigrantes. Semanas depois repetiu a façanha: gravou as ofensas de Bill Clinton ao jornalista Todd Purdum, da Vanity Fair.

Ela é parte de uma história bem maior: a do papel desempenhado pela nova mídia na atual campanha. Os fatos acontecem todo dia. Na última sexta-feira, por exemplo, uma apresentadora da Fox News, E.D. Hill chamou a saudação de punhos fechados de Obama e sua mulher Michelle (veja AQUI) de “gesto terrorista islâmico”. Os blogs reagiram. Mostraram até o velho Bush (o pai) a fazer o mesmo. Restou a Hill pedir desculpas – uma imagem que está agora no YouTube (clique abaixo para ver).

 

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Published in: on junho 12, 2008 at 2:11 am  Deixe um comentário  

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