O último enigma de Hillary Clinton

Um dos erros mais graves da candidata Hillary Clinton, em sua fase de desespero pela perda da condição de favorita na corrida presidencial democrata, foi ao declarar no dia 6 de março que apenas ela própria e o republicano John McCain, já então detentor da indicação de seu partido, tinham provado ter capacidade para tomar decisões como “comandante-chefe”, na área de segurança nacional. A ênfase dela: Barack Obama era capaz apenas de fazer belos discursos (clique abaixo para ouví-la no YouTube).

Como compatibilizar tal manifestação com o reconhecimento formal do último sábado, com vários dias de atraso, de que Obama é o ganhador legítimo e indiscutível da indicação presidencial democrata? Nesse dia a senadora prometeu ainda fazer tudo para ajudar, na eleição de novembro, o colega negro do Senado que antes considerava inferior ao próprio republicano – palavras agora usadas na campanha adversária contra os democratas. Também no sábado, em vez de pôr fim à sua campanha, Hillary limitou-se a anunciar uma “suspensão” – sem se dar ao trabalho de dizer o que significa isso.

Pouco antes Hillary tivera uma reunião com Obama a portas fechadas – “clandestina”, para usar a palavra contida nos relatos da mídia – na casa da senadora Diane Feinstein, em Washington. Ninguém sabe o que aconteceu ali. Para mais de um analista, no entanto, ela pediu socorro a ele para ajudá-la a pagar a dívida de sua campanha, estimada nuns US$ 35 milhões, dos quais a maior parte é dinheiro emprestado por ela própria. Ou seja, a pretensão seria de um reembolso daquilo que saiu do cofre da família.

Parece no mínimo insólito buscar a “ajuda” do rival para recuperar o dinheiro injetado pelos Clinton, nas semanas finais de uma campanha já perdida, na ânsia de financiar a veiculação de comerciais torpes com ataques macarthistas que causaram graves danos à imagem do hoje candidato democrata. Ironicamente, o gasto da fase final da disputa era só para criar na mídia a aparência de que ainda havia alguma chance de vitória para ela – uma ilusão enganosa.

O eleitorado contra a favorita

Apesar dos sucessivos elogios feitos a ela por Obama (como a declaração de que “inspirou milhões de americanos com sua força, sua coragem e seu compromisso com causas que fazem diferença”), a imagem falsa que Hillary tentou passar, à custa daquele déficit gigantesco acumulado, é a de vítima do preconceito sexista – a de uma mulher injustiçada porque ousou desafiar o machismo dominante. Outra fantasia: como destacou a colunista Maureen Dowd, ela não perdeu por ser mulher e sim por causa dos erros fatais dela mesma, do marido e de Mark Penn, desastrado administrador da campanha (leia AQUI a coluna de Dowd).

A realidade nesse episódio específico, ainda que a força do preconceito seja inegável, é bem diferente da aparência que vendeu. Em primeiro lugar, ela não tem o direito de abraçar assim a vitimologia sem falar da força do racismo contra o rival – até porque Hillary tirou partido do ressentimento de trabalhadores brancos do meio-oeste contra negros e imigrantes, conseqüência da redução de empregos na região.

Vítima? Hillary? Até a primeira disputa, em Iowa, a campanha dela recebera mais dinheiro do que qualquer candidato na história das primárias. Dinheiro de lobbies e figurões, enquanto Obama captava milhões, via internet, em contribuições de US$5, US$10, US$20. Além disso, ela antecipara-se aos rivais para garantir superdelegados (dirigentes partidários) antes mesmo de ser desencadeado o processo. Estava tão à frente de todos os adversários, como favorita absoluta, que não percebeu a necessidade de ganhar não só cartolas, mas também a base – os eleitores democrata.

Atropelada antes da coroação

A arrogância dela, com pose de presidente mais de dois anos antes, durou até Hillary ser atropelada em Iowa – não por um, mas por dois dos candidatos, Obama e John Edwards. Ela parecia então à espera de uma coroação, mas ficou só em terceiro lugar. Em busca da reabilitação em New Hampshire, onde teve ligeira vantagem sobre Obama, apelou pela primeira vez para a vitimologia: chorou diante das câmeras de TV.

O pior, no entanto, foi o que veio depois, principalmente nas semanas e meses posteriores à Super Terça-Feira. Naquele 5 de fevereiro Obama distanciou-se com uma frente sólida, na votação popular, no número de delegados e no número de estados – enquanto superdelegados, até muitos dos que antes tinham prometido o voto a ela, começaram a aderir em massa ao preferido pelos eleitores. 

Restou à campanha dela – que se negava a reconhecer a derrota mesmo diante da impossibilidade aritmética de evitá-la – criar as falsas aparências para contestar a realidade dos números. Por exemplo, ela fingiu ter vencido no Texas, onde Obama obteve maior número de delegados, e iniciou esforço obstinado para validar os votos da Flórida e Michigan, anulados previamente pela direção nacional do partido com o apoio explícito dela.

Há mais particularidades na aparência que ela tentou criar – como a história de que venceu na votação popular. Ela não diz que isso só ocorre na contagem particular dela, com base em critério singular que nada tem a ver com as regras do partido. As regras variam de estado para estado, mas Hillary optou, por exemplo, por ignorar caucuses (reuniões partidárias), que estão fora da contagem dela. Além disso,conta os votos da Flórida e até os de Michigan, onde só o nome dela estava na cédula. E inclui Porto Rico, cujos votos não valem na eleição presidencial. 

A ameaça radical feminista

Mais grave na campanha foi a escalada difamatória de Hillary desde o momento em que se deu conta de ter perdido o bonde. Ela ressuscitou a culpa por associação, na linha macarthista (para atribuir ao rival os excessos do pastor da igreja dele e, depois, as posições de um vizinho que fora radical há 40 anos, na década de 1960). E, claro, proclamou que ela própria, como o republicano John McCain, provou que pode ser comandante-chefe, mas não Obama.

Os milhões de dólares da dídiva da campanha dela foram usados nesse tipo de campanha prejudicial ao próprio Partido Democrata – e quando já não havia como reverter o triunfo de Obama. Ao defender a decisão de manter a campanha, até o início da semana passada, Hillary lembrou, de forma inconveniente e imprudente (pelo risco da emulação), que em 1968 o candidato Bob Kennedy fora assassinado em junho, depois de vencer as primárias da Califórnia. Como se esperasse a execução de Obama.

A obstinação de Hillary contra o fato consumado – a derrota que se negava a admitir – ainda extremou os ânimos entre suas mais exaltadas seguidoras. Como a comissão partidária de regras rejeitou a pretensão dela sobre Michigan, só validando parte dos votos, morreu a última esperança. Agora feministas exaltadas gritam que votarão em McCain – o que não beneficia o feminismo, já que uma vitória republicana põe em risco na Suprema Corte até a legalidade do aborto, causa maior da mulher. (Clique abaixo para ouvir, no YouTube, a clintoniana radical Harriet Christian gritar que votará em McCain)

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Published in: on junho 9, 2008 at 3:20 pm  Deixe um comentário  

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