A estranha culpa de um editor anônimo

Saiu terça-feira das organizações Globo, segundo nota publicada pela Folha de S. Paulo (leia AQUI), um produtor anônimo da Globo News (o nome foi omitido na nota). Não sei o critério (terá sido sorteio?) para se atribuir a ele a responsabiliade pela notícia de 20 de maio sobre o acidente, não acontecido, com avião da Pantanal Linhas Aéreas, que supostamente atingira um prédio na zona sul de São Paulo.

Faço o registro pela admiração que tenho pela equipe da Globo News, cujo jornalismo engole o das celebridades do “Jornal Nacional” & cia., do “Seu Boneco” Bonner no Rio ao modelo da Playboy Alexandre Garcia em Brasília – para não falar no escalão mais alto, de gente como o guardião da doutrina da fé, Ali Kamel, que no passado defendeu o escândalo ProConsult e no presente não vê racismo no Brasil.

A Globo News, um heróico exército Brancaleone, faz jornalismo 24 horas por dia. Produtores como aquele transformado agora em bode expiatório do que o jargão da imprensa chama de “barriga” é forçado a tomar decisões rápidas. A causa oculta da demissão pode ser esta: o incêndio de fábrica de colchões que virou desastre aéreo desmentiu uma alegação anterior de que a Globo só noticia desastre aéreo quando há certeza.

Os guardiões da doutrina da fé

A alegação foi da cúpula do jornalismo da Globo ao justificar em 2006 uma conduta indecorosa do “Jornal Nacional”: em plena campanha eleitoral, quando se aliara ao tucano Geraldo Alckmin, optou por ignorar o maior desastre da aviação comercial brasileira a fim de ampliar o tempo de exposição na tela do dinheiro apreendido por um delegado amigo, na ânsia de detonar a reeleição do presidente Lula.

O mau jornalismo dos guardiões da doutrina da fé conseguiu apenas adiar a reeleição para o segundo turno. E ao ser cobrada deles a falha jornalística sobre o desastre da TAM, noticiado antes por emissoras menos obcecadas em derrotar o governo, a única desculpa invocada foi de que a Globo, “preocupada com as famílias dos passageiros”, prefere omitir tais informações até que haja uma apuração rigorosa.

A cabeça do produtor da Globo News pode ter rolado por isso. Ele estava acostumado – como contou a Folha – a fazer de tudo. Apurava, escrevia as “cabeças” e editava. E em São Paulo funcionava freqüentemente como editor-chefe informal do “Jornal das Dez”, o principal noticiário do dia, que muitas vezes dá de 10 a zero no “Jornal Nacional” do “Seu Boneco”, feito para Homer Simpson ver (aquele idiota do cartum, que aparece aí no alto, à esquerda).

Procurada pela Folha de S. Paulo, a Globo foi econômica nas informações sobre a demissão. Limitou-se a alegar que tinha tomado “as medidas que julgou necessárias e que dizem respeito aos seus procedimentos internos”. Lamento, pois mesmo não conhecendo o bode expiatório, conheço a dedicação e a competência da equipe da Globo News, que faz milagres diários e cumpre missões impossíveis.

Em busca da “opção nuclear”

Por coincidência, também esta semana houve demissões na USAF – a Força Aérea dos EUA. Como no episódio da Globo, a decisão foi tomada depois de uma investigação. O assunto era mais grave: problemas sistêmicos na operação de armas nucleares e componentes. Mas desta vez o secretário da Defesa, Robert Gates, preferiu evitar a clássica escolha de bodes expiatórios no escalão inferior (leia AQUI a notícia do New York Times).

Gates encarou os responsáveis da cúpula: o próprio secretário da Força Aérea, Michael W. Wynne, e o chefe do Estado Maior, general Michael Moseley. Os dois foram convidados a renunciar. Segundo a investigação, a última série de incidentes detectados refletia “um padrão de conduta deficiente” no manejo de “componentes militares sensíveis”.

Qualquer pessoa que costuma acompanhar as notícias na área do Pentágono – minado pelo que o general Eisenhower, no seu discurso de despedida da Casa Branca (leia o texto AQUI), chamou de “complexo militar-industrial” – sabe que a notícia desta semana foge à rotina militar. Não é o procedimento habitual. Mas o caso era tão grave que pode até alimentar a esperança de mais mudanças no futuro.

Claro que o episódio das organizações Globo não se compara ao das armas nucleares do Pentágono. Mas se for levado em conta a queda de audiência de seu jornalismo em geral (excluída a fase da exploração do caso Isabella) não seria o momento de adotar uma “opção nuclear” e rever o poder dos guardiões da doutrina da fé? Não estaria a doutrina deles a reclamar remendos capazes de mudar o rumo do jornalismo?

A fórmula da Globo na Record

Reportagem de Jonathan Wheatley publicada quinta-feira pelo Financial Times (leia AQUI) observou que a estratégia vencedora da Globo já completou 30 anos. Depois de conquistar os telespectadores ela buscava mantê-los leais. Agora, se a Globo não está mudando, diz o Times, seus telespectadores estão. Só nos últimos dois anos 20 milhões de brasileiros entraram na faixa de renda média, que compreende 46% da população.

A fatia da Globo continua em 70%, mas sob ameaça. O público médio caiu, mesmo no horário nobre. E ao invés de fugir para as rivais tradicionais, SBT e Bandeirantes, vai para a nova Record, cuja fórmula consiste em copiar a Globo. “As novelas da Record parecem com as da Globo, até os atores, os ambientes e a programação visual”, escreve Wheatley. “E seus atores vieram da Globo”.

O Times refere-se ainda a novidades introduzidas na fórmula pela Record. Cita o sucesso de duas novelas, Vidas opostas e Caminhos do coração, ambas consideradas grandes sucessos. Não fala do jornalismo mas há indícios de que também pode estar vivendo experiência semelhante. Daí a suspeita de que a Globo vai, sim, precisar de guardiões diferentes para a sua doutrina da fé.

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Published in: on junho 7, 2008 at 3:52 pm  Deixe um comentário  

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