Henry Kissinger, censor da História

Há quatro anos escrevi em minha coluna da Tribuna da Imprensa que, ante a submissão da mídia nos EUA à histeria patrioteira disseminada no governo Bush, com exemplos tão vergonhosos como a receptação de informações falsas por uma Judith Miller (repórter depois defenestrada do New York Times) nos corredores do poder, os heróis da liberdade de expressão passaram a ser encontrados fora das redações – na área acadêmica, por exemplo.

Citei na ocasião o caso de um deles, Kenneth Maxwell, professor e historiador, britânico de nascimento, que demonstrara não estar sua integridade e seriedade intelectual à venda, como a de certos levianos da mídia. Brasil, Portugal e América Latina devem a ele obra preciosa que devassou a Inconfidência Mineira (veja ao lado a capa da edição brasileira de A Devassa da Devassa e conheça AQUI dados sobre o mesmo livro, em sua versão inglesa) e reavaliou o legado singular do Marquês de Pombal (saiba mais AQUI) e a revolução dos cravos (AQUI).

Maxwell tinha deixado de ser scholar residente do Council on Foreign Relations, a respeitada instituição sediada em Nova York e que publica a principal revista de política externa do país (a Foreign Affairs), para não se submeter a um personagem de passado suspeito que teimava em censurar a mídia e reescrever a História, falsificando nela sua própria imagem duvidosa.

Receita para esconder a verdade

Falta aos que agem assim coragem suficiente para o confronto aberto. O ex-secretário de Estado Henry Kissinger acostumou-se a agir na sombra e a usar gente como ele, sem apreço pela verdade histórica ou pela honestidade intelectual. Durante pelo menos seis anos essa figura patética, de um período melancólico, tem recorrido a expedientes variados na obsessão de adulterar a História.

Primeiro tentou impedir, para tanto indo à última instância judicial, que o público tivesse acesso ao conteúdo de documentos e gravações de sua época na Casa Branca e no Departamento de Estado. Depois de perder a batalha ainda protelou por alguns anos o sigilo oficial sobre o papel dele em episódios como o golpe do Chile, o banho de sangue na Argentina, o bombardeio secreto do Camboja, o massacre do Timor Leste, etc – o que Christopher Hitchens pesquisou parcialmente para um julgamento por crimes de guerra que nunca se realizou (conheça AQUI o livro escrito por ele sobre o assunto).

Há razões para o mundo acreditar que é um criminoso de guerra, desde que deixou Paris às pressas a fim de escapar à intimação de um juiz para depor sobre vítimas da ditadura Pinochet. Por isso já não circula livremente fora de seu país. Mas dentro dos EUA, Kissinger ainda tem inacreditável influência e o estranho poder de censurar a mídia – como fez há quatro anos, tendo como alvo o professor Maxwell.

Um confronto Kissinger-Maxwell chamou a atenção do Establishment de política externa dos EUA entre novembro de 2003 e setembro de 2004. A causa foi uma resenha de Maxwell na Foreign Affairs sobre o livro The Pinochet File: A Declassified Dossier on Atrocity and Accountability (O arquivo Pinochet: Um dossiê desclassificado sobre atrocidade e responsabilidade), de Peter Kornbluh, que analisava documentos até então secretos (veja a capa ao lado e saiba mais sobre o livro AQUI).

A duras penas, como dente podre

Kornbluh dirige o Projeto Chile do National Security Archive, grupo privado que se esforça para liberar documentos secretos, com base na FOIA, Lei de Liberdade de Informação, e os oferece ao público, com sua análise. A resenha de Maxwell era sóbria (leia a íntegra AQUI). Elogiou o esforço para se saber mais sobre o episódio, distanciando-se às vezes das posições do autor. E referiu-se ao papel que Kissinger sempre tentou negar.

Foi o bastante para despertar a fúria do todo-poderoso censor da História. Ela não veio diretamente de Kissinger, mas de seu sócio William D. Rogers – secretário assistente para assuntos hemisféricos (1974-77) quando Kissinger era secretário de Estado, e hoje servindo à firma Kissinger Associates, que faz lobby milionário pelo mundo em favor de negócios de corporações transnacionais americanas.

Num pugilato com os fatos Rogers recorreu à tática macarthista da insinuação torpe e acusou Maxwell de se unir à esquerda para perpetuar o suposto mito do papel dos EUA no golpe pinochetista. Talvez não esperasse a resposta contundente do historiador, que ousou lembrar o assassinato do general René Schneider, a Operação Condor e a bomba que matou em Washington o ex-chanceler Orlando Letelier (leia AQUI a carta e a resposta).

O golpe foi demais para Kissinger. Maxwell sugeriu até que os americanos precisam de uma truth commission, como as criadas em países recém-saídos de tiranias e empenhados em descobrir a verdade de seu passado recente, pois nos EUA ela “está tendo de ser extraída a duras penas, como dente podre”. A resposta de Maxwell, no número de janeiro-fevereiro (de 2004) da Foreign Affairs, indignou a dupla Kissinger-Rogers.

Acobertando os crimes do vilão

Outra carta, recebida a 4 de fevereiro e de novo assinada por Rogers, foi lida por Maxwell, que respondeu em seis parágrafos e destacou, entre outras coisas: “Rogers não pode fornecer escudo eterno atrás do qual seu chefe possa esconder-se”. Mas o número de março-abril da revista deu a Rogers (leia-se: Kissinger) a última palavra (veja a carta AQUI). Isso porque Foreign Affairs sonegou aos leitores a nova resposta do professor (leia AQUI, em PDF, um relato completo de Maxwell, inclusive o texto da carta não publicada).

A agressão primária à ética foi ainda mais grave porque Maxwell, como diretor de estudos latino-americanos do Council on Foreign Relations, era responsável há uma década pelas resenhas sobre o tema na revista. Ninguém de bom senso joga pela janela um emprego como o desse professor no Council. Mas foi exatamente o que ele fez, em nome da própria integridade e de uma trajetória acadêmica que já incluiu Yale, Princeton e Columbia, jóias da coroa Ivy League.

A Universidade de Harvard apressou-se então a atraí-lo para o Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos – onde Maxwell passou a dirigir (e ainda dirige) o programa de estudos brasileiros (conheça AQUI sua página na internet). E uma carta assinada pelo professor (de Harvard) John Coatsworth e mais 10 especialistas em América Latina, todos membros do Council, protestou depois contra a decisão insólita da revista, sendo publicada no número de setembro. Só que o texto do protesto, mesmo tendo saído à época na revista, com uma resposta do editor, nunca foi incluído na edição online. Pode ser lido hoje apenas no relato de Maxwell (citado acima).

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Published in: on junho 6, 2008 at 3:27 pm  Comments (1)  

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