Como nasceu o “JFK” de Oliver Stone

Há quase 16 anos vivi uma experiência singular. Tomei o metrô em Nova York e fui à rua Quatro, no lado oeste de Greenwich Village. Bem perto da estação, no número 145 da West 4th Street estava uma pequena editora de livros chamada Sheridan Square Press, dirigida pelo casal William (Bill) Schaap e Ellen Ray.

Essa editora tinha publicado o livro do ex-promotor Jim Garrison, On the Trail of the Assassins: My Investigation and Prosecution of the Murder of President Kennedy (Na trilha dos assassinos: Minha investigação e acusação do assassinato do presidente Kennedy), depois transformado no filme JFK, de Oliver Stone (saiba mais sobre o livro AQUI). Ellen Ray, uma americana corajosa, então com 52 anos, um metro e noventa de altura, acostumada a brigar com a CIA (na revista CovertAction Information Bulletin) e com o New York Times (criticado por ela em outra revista, Lies of Our Times).

Além de editar aqueles dois periódicos polêmicos, ela dirigia – com o marido – o Instituto para a Análise da Mídia e a Sheridan Square Press, que já tinha publicado uns 10 livros. A tarefa exigia um esforço gigantesco de Ellen, Bill e alguns voluntários, em duas ou três salinhas acanhadas do Village (em Washington, onde estavam antes e eu os conhecera, havia ainda Louis Wolf, co-autor, com o ex-agente Philip Agee, de um par de livros identificando espiões da CIA – veja AQUI). 

Para mim, era um exemplo impressionante de imprensa alternativa nos EUA. E de resistência ao crescente controle da mídia por grandes corporações como a Time-Warner e a News Corp, impérios multibilionários. A maior façanha de Ellen e Bill até então era o sucesso do livro de Garrison, que depois virou filme.

A idéia que não queria calar

Eu estava diante dela para saber mais sobre o feito. Ellen contou-me como encontrara o cineasta Oliver Stone numa festa, em Cuba, no final de um festival de cinema de Havana. Explicou que Stone gosta de glamorizar esse encontro, dizendo ter acontecido no elevador do hotel, mas garantiu que não fora bem assim. A conversa dos dois, glamour à parte, fora numa festa, durante a qual presenteou Stone com o livro.

Na verdade, sequer já era livro, conforme corrigiu – por enquanto era apenas prova. O livro de verdade ainda não estava pronto e obviamente nem tinha chegado às livrarias. Mas Ellen estava tão confiante que jurou a Stone: se o lesse, seguramente iria querer filmá-lo. O cineasta prometeu ler, mas foi logo avisando que não poderia filmar. O momento não era bom porque estava comprometido com outros projetos já em andamento.

De fato, no dia seguinte Stone deixou Cuba rumo a Los Angeles, de onde seguiria para as Filipinas. Ellen voltou para Nova York. De Los Angeles, o cineasta telefonou para dizer a ela que estava gostando do livro. Voltou a lamentar que não pudesse filmá-lo.

Um ou dois dias depois, telefonou outra vez. Do Havaí. “Olha aqui, Ellen. É um grande livro. Que pena que eu não posso filmar”. Finalmente, chegou às Filipinas. De novo procurou um telefone: “Terminei o livro, Ellen. Não consigo evitar. Tenho de fazer esse filme de qualquer jeito”.

Depois do sucesso, as dúvidas

O resto é história. On the Trail of the Assassins, o livro, virou best-seller. Grande demais para os parcos recursos da editora de Ellen Ray e Bill Schaap. Após vender 35 mil exemplares (quatro impressões) emhardcover (capa dura), ela rendeu-se a um contrato de cessão de direitos do paperback (brochura) ao império de comunicação Time-Warner, que venderia quase um milhão de cópias.

Ficou 14 semanas na lista dos mais vendidos publicada pelo mesmo Times que odiava Ellen por causa da revista Lies of Our Times. Durante nove semanas esteve em primeiro lugar. O filme, produzido depois, retomaria a mesma trajetória de sucesso, apesar da onda de ataques à suposta paranóia de Stone.

JFK, que em português teve o subtítulo A pergunta que não quer calar, incluiu ainda dados de outro livro (Crossfire: The Plot that Killed Kennedy, de Jim Marrs). Ao sair, abalou a opinião pública americana com sua contestação frontal do relatório Warren, que concluira ter sido o assassinato do presidente John Kennedy um ato solitário do desajustado Lee Harvey Oswald – o atirador executado depois, diante da Polícia, de jornalistas estarrecidos e de câmeras de TV, pelo dono de boate Jack Ruby.

O impacto causado pelo filme acabaria por forçar a revisão da política de liberação de documentos sigilosos ou censurados sobre a investigação do crime de Dallas. Graças a JFK, mais documentos secretos passaram a ser liberados – muitos chegando ao conhecimento do público 30 anos antes da data prevista.

Entre a ficção e a realidade

No pequeno escritório da Sheridan Square, no Village, Ellen quis saber o que eu tinha achado de JFK. Fui franco, disse que adorei o tom provocativo, aqueles truques de Stone e o ritmo frenético que impôs ao relato. E que também gostei da reconstituição das cenas reais com atores no preto-e-branco dos documentários, tudo muito convincente como cinema.

Mas para mim, disse ainda, era mais ficção do que realidade. Não era História. O Kevin Costner bonitão, tímido, educado e perseguido pouco tinha a ver com o promotor Garrison da vida real – um fanfarrão, que adorava fazer declarações bombásticas e aparecer na mídia.

A falta de seriedade do processo que o promotor levara ao tribunal de Nova Orleans tivera efeito contrário ao que ele próprio esperava. Acabou por desmoralizar – ainda na década de 1960 – a tese da conspiração, na qual todo mundo na época queria muito acreditar. A crítica do Times foi negativa (leia AQUI a resenha de Vincent Canby), mas o filme ganhou ampla cobertura por causa da controvérsia, inclusive uma capa da revista Newsweek, cujo artigo principal já dizia tudo no título: “A verdade distorcida de JFK” (veja AQUI um texto do Times sobre toda a controvérsia).

Ao contrário do que está em JFK, por exemplo, Garrison sequer tinha aparecido no tribunal, em Nova Orleans, no dia da decisão. O comovente discurso final de Kevin Costner é pura fantasia. Nunca aconteceu porque o promotor, ante a falta de provas, não teve coragem de ir pessoalmente vender o seu peixe.

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Published in: on junho 4, 2008 at 3:45 pm  Deixe um comentário  

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