Os cinco grandes erros de Hillary

Venho insistindo há meses em chamar a atenção do leitor para um detalhe na fase das primárias do Partido Democrata. A candidata Hillary Clinton preparou-se mais para uma coroação do que para uma disputa de votos e apoios. Saiu atrás de muito dinheiro de grandes doadores (entre eles, beneficiários de perdão presidencial assinado pelo marido – leia AQUI) e de compromissos de superdelegados. Só acordou para a impropriedade da estratégia ao sofrer a primeira derrota, em Iowa.

Não que a receita dela fosse fora de propósito. Em 2000 o candidato George W. Bush fez coisa parecida no Partido Republicano. Chegou a ser chamado, antes das primárias, de “terno vazio com US$100 milhões no bolso”. Ao mesmo tempo, tinha – como Hillary – a máquina do partido. Como ela, Bush tinha começado mal; mas ele reagiu prontamente ao sofrer o golpe da inesperada derrota frente a John McCain em New Hampshire.

O estrategista Karl Rove, celebrizado pela falta de escrúpulos, percebeu que se Bush não massacrasse McCain na primária seguinte, da Carolina do Sul, correria o risco de não recuperar o momentum. Foi, de fato, um massacre. A campanha de Bush exagerou no uso do dinheiro, disparou comerciais difamatórios e aliou-se despudoradamente ao racismo sulista e ao extremismo da direita religiosa na Carolina do Sul (leia AQUI sobre o papel de Rove nos truques sujos de 2000).

O duro golpe em Iowa

A diferença, no caso de Hillary, foi que a campanha dela pareceu atordoada pela derrota de Iowa, onde ficou não em segundo lugar (que coube a John Edwards) mas em terceiro. Como não fora uma primária e sim caucus (reunião partidária), os estrategistas julgaram que ela retomaria a liderança nacional com uma grande vitória na primária de New Hampshire. De fato, Hillary ganhou ali, mas com vantagem pequena.

Daí em diante, até abril, Barack Obama ampliaria sua vantagem ganhando com boas margens e perdendo por diferenças pequenas (até no estado dela, Nova York). Hillary só obteria vitórias convincentes quando o rival já tinha a situação praticamente sob controle – com maior número de delegados, maioria da votação popular, maior número de estados e mais superdelegados.

Mesmo assim ela não hesitou em recorrer às táticas macarthistas (veja AQUI a análise de Carl Bernstein sobre issso), em especial a torpe culpa por associação (na acusação a Obama pelos excessos do pastor da igreja dele ou pelo passado radical dos vizinhos William Ayers e Bernadine Dhorn). Ao mesmo tempo, Hillary buscou lançar contra ele os trabalhadores brancos golpeados pelo desemprego no meio-oeste e no sul, que tradicionalmente suspeitam de negros e imigrantes.

Na primeira quinzena de maio a revista Time relacionou os cinco grandes erros que a campanha de Hillary cometeu – e que fizeram evaporar as vantagens prévias dela, inicialmente consideradas insuperáveis (leia AQUI o texto). O primeiro: ela avaliou mal o estado de espírito do país. A mudança estava na cabeça de todos, mas ela só oferecia “experiência, formação, inevitabilidade”. E, claro, sua marca (ou griffe?) vigorosa no partido.

O apelo maior da mudança

Nesse sentido, ela queria, de certa forma, ser o Clinton da vez. Isso acabaria por alertar o eleitor para o detalhe de que no últimos 20 anos sempre houve ou um Bush ou um Clinton na Casa Branca. “Ela é uma consumada insider de Washington. Será isso algo que entusiasma os americanos num ano em que, ao contrário, as pessoas parecem bem mais motivadas para a mudança e a esperança?” – perguntou um assessor de Obama.

O segundo grande erro, para a Time, foi o fato de Hillary não dominar bem as regras. Costuma selecionar pessoas para sua equipe primariamente pela lealdade a ela e não pelo amplo conhecimento do jogo político. Conta-se que Mark Penn, então principal estrategista dela, garantia que na Califórnia Hillary teria todos os 370 delegados. Ignorava que a regra “vencedor leva tudo” só vigora entre os republicanos.

O terceiro grande erro foi a maneira como a campanha dela subestimou os caucuses. A estratégia baseava-se nas grandes disputas, mas ao mesmo tempo ela deixou de lado estados como Minnesotta, Nebraska e Kansas, que escolhem seus delegados em tais reuniões partidárias. Segundo um assessor, os Clinton decidiram previamente que caucuses não eram o forte deles.

Segundo o raciocínio, o grande núcleo do eleitorado de Hillary era integrado pelas mulheres, pelos mais velhos e pelos trabalhadores brancos blue collars (de linha de montagem, indústrias, etc). E essas pessoas teriam problemas para comparecer a reuniões partidárias realizadas à noite e em dias úteis. Resultado: em estados assim Obama pôde acumular talvez uns 12% de seus delegados comprometidos.

O dinheiro à moda antiga

Quando a equipe de Hillary percebeu esse erro, era tarde: carecia de recursos para tentar corrigí-lo. O quarto erro foi a campanha dela ter ficado fiel ao dinheiro obtido à moda antiga. Os Clinton estavam acostumados à velha receita. Na campanha para o Senado em 2006, ela conseguira a espantosa soma de US$51,6 milhões para enfrentar um candidato republicano inofensivo e inexperiente, apenas simbólico (um dos contribuintes foi o magnata Rupert Murdoch, que também deu dinheiro para a campanha dela à presidência em 2008 – leia AQUI sobre doações dele para campanhas).

A internet tinha mudado a prática no esforço de arrecadação. O modelo Obama mobilizou mais de 800 mil contribuintes que enviam dinheiro regularmente, US$5, US$10, US$25 ou US$50 de cada vez. A campanha dele obteve via online mais de US$100 milhões – enquanto a dela, presa à fórmula antiga, acabou endividada e quase incapaz de competir. Calcula-se que os Clinton tiveram de emprestar US$30 milhões à campanha de Hilllary.

O quinto erro: Hillary julgou que nocautearia Obama logo no início. Aconteceu o contrário. E ante o golpe sofrido em Iowa, ela foi lenta na recuperação. Teve que adaptar-se ao novo quadro. Enquanto o rival se desdobrava ao mesmo tempo em várias frentes, de forma dinâmica, a campanha dela só percebeu que também tinha de fazer isso quando já era praticamente impossível reverter o quadro.

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Published in: on junho 3, 2008 at 7:19 pm  Deixe um comentário  

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