Bush e o fantasma da ilegitimidade

Com seu nível de aprovação reduzido a apenas 27%, o mais baixo desde que é feita a aferição da popularidade dos presidentes do país, George W. Bush vê com constrangimento seu candidato John McCain aceitá-lo no esforço de arrecadação de fundos destinados à campanha e ao mesmo tempo deixá-lo em papel discreto nos eventos mais ostensivos para cortejar os votos dos eleitores.

É uma situação quase humilhante se for levado em conta que: 1. nas primárias republicanas do ano 2000, McCain tinha sido alvo do jogo sujo da campanha de Bush, depois de derrotá-lo em New Hampshire; 2. depois de divergências frequentes com o governo, inclusive sobre a guerra, McCain acertou os ponteiros com Bush (apoiou até a redução de impostos para os ricos, que antes repudiava) e hoje chega ao exagero de defender a permanência das tropas mais 1000 anos no Iraque”.

A vitória de Bush em 2000, claro, resultou da fraude na Flórida, então governada pelo irmão Jeb Bush. Nos oito primeiros meses do governo a imagem do presidente chegou ao fundo do poço, sugerindo que, como os demais presidentes que tinham chegado à Casa Branca sem ganhar a votação popular, não seria reeleito. O que o salvou foi o terrorismo do 11/9, ocorrido no nono mês de seu governo.

Jefferson e Quincy Adams

No seu primeiro discurso como presidente eleito Bush ousou paralelo insólito de sua situação com a que se seguira à eleição de 1800, na qual tinha havido empate no colégio eleitoral. Após 36 escrutínios, seis dias de incerteza e a abstenção de dois estados, o Congresso deu a presidência a Thomas Jefferson. Mas esse paralelo pareceu piada, já que Bush podia ser qualquer coisa, menos um Jefferson.

A trajetória dele comportava outros paralelos – com os três que perderam no voto, John Quincy Adams (1824), Rutherford B. Hayes (1876) e Benjamim Harrison (1888), nenhum dos quais teve segundo mandato. O caso do primeiro tinha sido revelador: foi a única vez antes de 2001 que o fillho de um presidente (John Adams, sucessor de George Washington) tornou-se presidente.

Na eleição de 1824 Andrew Jackson tivera mais votos populares (152.901, 42,34%) do que Quincy Adams (114.023, 31,57%). Jackson ganhou também no colégio eleitoral (99 votos contra 84 de Adams), mas como nenhum dos dois conseguira maioria absoluta a decisão foi para a Câmara, cujo presidente, o poderoso Henry Clay, garantiu o resultado em conchavo com Adams – e em troca do cargo de secretário de Estado.

Marcado pela ilegitimidade, o republicano Adams (saiba mais sobre ele AQUI) sofreria derrota esmagadora quatro anos depois frente ao mesmo Jackson – tanto na votação popular (647.292, 56%, contra 507.730, 44%) como no próprio colégio eleitoral. Jackson seria reeleito em 1832, já então contra Clay, aquele articulador do conchavo de 1824.

Como nossas atas falsas

Rutherford B. Hayes foi o segundo a se tornar presidente sem ganhar a votação popular. Em 1876 esse republicano de Ohio teve 4.036.572 votos e o adversário democrata Samuel J. Tilden, de Nova York, 4.284.020. No colégio eleitoral, houve dualidade de representação em três estados do sul. Os dois partidos diziam-se vencedores na Flórida, Carolina do Sul e Louisiana.

Algo parecido com o Brasil do tempo das atas falsas, vergonha de nosso passado. Tilden só precisava de mais um dos 20 votos eleitorais dos três estados em disputa; Hayes (conheça AQUI a história dele) precisava de todos (para ganhar em 2000, Gore só precisava de 3 dos 25 votos da Flórida, Bush precisava de 24). O Congresso confiou a solução do impasse a uma comissão de 15 membros (10 parlamentares e cinco juízes da Suprema Corte). Ela devia ser apartidária mas na verdade tinha oito republicanos e um democrata.

Apesar da rejeição posterior do resultado pela Câmara dos Deputados, Hayes foi ratificado no Senado. E na realidade só prevaleceu graças ao contexto da época: em troca da concordância, o Sul derrotado na Guerra Civil e ainda sob “ocupação” do Norte (a chamada Reconstrução), pôde reverter a situação (com os democratas sulistas retomando o poder para impor a segregação racial de fato por mais um século). Ao fim do mandato, certo de que não teria chance, Hayes sequer candidatou-se à reeleição.

O socorro de Bin Laden

Em 1888 Benjamin Harrison tornou-se o terceiro a virar presidente sem vencer a votação popular. Obteve 5.444.337 votos contra 5.540.050 dados ao então presidente democrata Grover Cleveland. Mas no colégio eleitoral ganhou por 233 contra 168. Como nos exemplos anteriores, não houve reeleição. Ao tentar o segundo mandato em 1892, Harrison era extremamente impopular (leia AQUI sobre ele). O ex-presidente Cleveland venceu então por maioria esmagadora, tanto na votação popular (5.554.414 contra 5.190.801) como no colégio (277 contra 145).

Na história do país apenas um dos quatro que se tornaram presidentes sem ganhar a votação popular derrotou a maldição da ilegitimidade: Bush, que deve isso à histeria patrioteira do 11/9. Em 2000 a diferença a favor de Gore na votação popular foi bem maior do que a dos três exemplos históricos citados. Nunca um candidato vencera tão amplamente a votação popular sem ser empossado na Casa Branca. (Em 2004 seria a vitória da política do medo).

Em agosto de 2001, com pouco mais de seis meses no poder, o governo Bush, até então incapaz de definir direito o próprio rumo, anunciou – como disse o New York Times dia 5, na primeira página (leia o texto AQUI) – uma drástica correção de curso O presidente pretendia ir além da agenda republicana convencional e melhorar sua posição junto aos moderados, aos independentes e às mulheres. Era para livrar-se do fantasma da ilegitimidade. Mas a mudança tornou-se desnecessária porque Osama bin Laden o socorreu antes – no dia 11 de setembro.

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Published in: on junho 2, 2008 at 6:22 pm  Deixe um comentário  

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