O Hamas e a hipocrisia de Bush e McCain

Primeiro o candidato republicano John McCain, depois de declaração pública do Hamas de que torcia pelo democrata Barack Obama, abraçou a tática macarthista da “culpa por associação”: sugeriu que isso provava a “fraqueza” do opositor “em segurança nacional para enfrentar organizações terroristas”. Depois foi pior: sem citar Obama nominalmente, o presidente Bush acusou-o de querer negociar com os terroristas.

Mas uma ex-autoridade diplomática – James P. Rubin, que no governo Clinton foi secretário de Estado assistente e porta-voz do Departamento de Estado – expôs no Washington Post a hipocrisia dos republicanos sobre o Hamas. Contou que há dois anos, logo depois da eleição israelense, McCain dissera em entrevista ao próprio Rubin, para a rede européia de televisão Sky News, que os EUA teriam, sim, de negociar com o Hamas.

O mais grave, para Rubin, foi o que fez Bush, pois discursava no Parlamento de Israel (o Knesset). Engajava-se, portanto, em mesquinha política partidária durante viagem a outro país. “Muitos presidentes já disseram coisas no exterior que foram vistas como violação das regras não escritas da política americana. Mas é difícil lembrar um que tenha abusado tanto de seu cargo como Bush acaba de fazer”.

O presidente baixa o nível

Bush acusou seus adversários da política interna – referiu-se “aos democratas”, mas o alvo específico era Obama – de repetirem o inglês Neville Chamberlain, que negociou com Hitler. “Já é suficientemente ruim usar a política de destruição pessoal em casa, mas recorrer a tal arma política em momento solene, ao se dirigir ao Parlamento de um país aliado, é descer a um nível baixo demais”, disse Rubin.

Na entrevista de McCain, Rubin tinha perguntado se achava que os diplomatas dos EUA deviam operar como no passado, trabalhando com o governo palestino, com o Hamas no poder. Resposta de McCain: “Eles são o governo. Teremos, cedo ou tarde, de tratar com eles, de uma maneira ou de outra. Entendo a antipatia pelo Hamas, antes e agora, dada a violência e as coisas que não só apoiam como praticam. Mas há uma nova realidade no Oriente Médio. As pessoas querem segurança e vida decente, futuro decente, querem democracia. O Fatah não trouxe isso para elas”.

Segundo explicou Rubin, “para alguns europeus em Davos, Suiça, onde foi feita a entrevista, a resposta era perfeitamente razoável. Mas era incomum, talvez única, para um político americano, de qualquer partido. Certamente não é assim que responderia hoje um conservador candidato à indicação republicana”, disse.

Ou seria amnésia política?

Rubin observou ainda, no artigo de ontem no Post, que “com base naquela resposta, o novo John McCain podia dizer que o Hamas devia estar torcendo para o velho McCain ganhar a eleição presidencial. O velho John McCain, ao que parece, estava disposto a negociar com o governo liderado pelo Hamas, enquanto tanto Hillary como Obama têm dito que o Hamas terá de mudar suas políticas em relação a Israel e ao terrorismo para ter relações diplomáticas com os EUA”.

A conclusão de Rubin foi de que, “mesmo se McCain há dois anos não estivesse disposto a negociar com o Hamas, atualmente está disposto a difamar Barack Obama. Mas em virtude da posição que expôs então, ou é o cúmulo da hipocrisia ou é um caso de amnésia política McCain injetar o Hamas na eleição americana”.

Há ainda outro detalhe. No artigo Rubin declara-se partidário de Hillary, que afirmou: “Não acho que qualquer pessoa deva levar a declaração (de Bush) a sério”. Infelizmente, acrescentou ele, “alguma pessoas o farão. É por isso que tais coisas são ditas”. Para completar, Michael Goldfarb enviou de Londres um artigo para o site huffingtonpost.com, lembrando: “conversa com terroristas acontece o tempo todo”.

“Chame Peres, ele sabe”

Goldbarb mandou um recado ao presidente dos EUA: “Bem, George, então de que nome você vai chamar seu amigo Tony Blair?” Em seguida, lembrou que Blair passou a maior parte de seus primeiros anos de governo conversando com o Sinn Fein, braço político do IRA (Exército Republicano Irlandês). E antes dele, o antecessor John Major, que teve amigos mortos pelo IRA, fazia a mesma coisa.

Serão também Blair e Major novos Chamberlain, “appeasers” (apaziguadores), como Bush tentou rotular “os democratas” dos EUA? “O planeta está cheio de grupos terroristas. (…) Todos eles têm seus braços políticos, criados especificamente para conduzir o tipo de negociação que o Sinn Fein fez com sucesso. Para resolver os conflitos, é preciso conversar com eles, às vezes secretamente, às vezes pela mídia, às vezes cara a cara.”

Se Bush não sabe disso, escreveu Goldfarb, em Israel eles sabem. “Sr. presidente, chame Shimon Peres e pergunte a ele. Chame qualquer político de alto nível em Israel, do Likud ou do Partido Trabalhista. Pergunte a eles. Passaram décadas repetindo que jamais conversariam com a OLP, mas afinal o fizeram. Algum dia eles vão conversar também com o Hamas”.

Published in: on maio 17, 2008 at 4:59 pm  Deixe um comentário  

Eleição e guerra, no Vietnã e no Iraque

Entre os ataques que o próximo candidato presidencial democrata vai sofrer estará aquele clássico “nega apoio às tropas” – devido ao atual esforço da oposição contra o financiamento da guerra (leia AQUI, numa análise do Los Angeles Times, como a Câmara derrotou sexta-feira um dispositivo de financiamento). Peter Beinart, acadêmico e jornalista, tornou-se respeitado entre conservadores da área de política externa porque em 2003, apesar de politicamente liberal e crítico de Bush, apoiou a invasão do Iraque (sem questionar as razões fraudulentas para desencadeá-la) e rotulou seus opositores de “linha Michael Moore”.

Estava então assustado com a “ameaça do fundamentalismo islâmico”. Mas nos anos seguintes mudou, em razão da lambança de Bush no Iraque. E hoje condena vigorosamente a guerra e a maneira como é conduzida pelo governo republicano. Em The Good Fight: Why Liberals – and Only Liberals – Can Win the War on Terror and Make America Great Again, seu livro publicado em 2006, defendeu a posição – proclamada já no título de que “só os liberais podem ganhar a guerra ao terrorismo” (saiba mais AQUI sobre o livro).

Soa estranho, claro – e parece um tanto oportunista. Mas Beinart (formado em Yale, bolsista Rhodes, mestrado em relações internacionais em Oxford, hoje no Council on Foreign Relations) costuma desfrutar de espaço generoso na mídia. Em artigo publicado em março de 2007 na revista Time, ele afirmou com firmeza que a oposição democrata agora não pode ter medo de sustar o financiamento da guerra do Iraque, mesmo quando o governo invoca paralelos com o Vietnã. O que ela devia temer, ao contrário, é não fazê-lo (leia AQUI o artigo do Time).

O partido das derrotas?

O raciocínio dele levava em conta o debate que se desdobrava dentro do Partido Democrata – com a participação de parlamentares e dos candidatos potenciais à presidência. A ala mais antiguerra do partido, ativa e radical, insistia, mesmo depois do veto de Bush, em que podia e devia repetir a façanha, aprovando várias propostas para continuar encurralando o Executivo – e dificultando cada vez mais o financiamento das operações militares, como a oposição tinha feito à época do Vietnã.

Comentaristas da grande mídia e boa parte dos políticos democratas, para a felicidade da Casa Branca e dos republicanos, sempre alegam, certamente por causa da derrota de George McGovern para Nixon em 1972, que aquela votação sobre o Vietnã arrasou os democratas. Partidários de Bush, com amplo respaldo nos veículos de comunicação, tentam ainda rotular o partido da oposição de “antipatriota”, a pretexto de que “adora perder uma guerra”.

Em resposta, Beinart fez o óbvio. Buscou restabelecer a verdade sobre o que de fato aconteceu há três décadas: 1. a lei sobre as verbas das operações militares do Vietnã só foi aprovada em 1973; 2. no ano seguinte, cortou-se a ajuda ao governo de Saigon; 3. ainda em 1974, os democratas ganharam esmagadoramente as eleições intermediárias (Congresso, governadores); 4. em 1976, com a ajuda do escândalo de Watergate, os democratas retomaram a Casa Branca.

Imagens definidas na mídia

A proposta de corte de recursos para a guerra, cada vez mais apoiada no país, pode até resultar negativa, mas isso nada teria a ver com a década de 1970 (quando havia ainda, claro, o fator Watergate). Hoje Bush tem o mais baixo índice de aprovação da história e mais de 60% dos americanos são contrários à sua guerra. O medo a um “efeito Vietnã” é mera fantasia amplificada na mídia – tão falsa como a das ADM (armas de destruição em massa).

Para Beinart, o perigo para o Partido Democrata no debate do Iraque não é o de se opor muito agressivamente; ao contrário, é o de não ser suficientemente agressivo na oposição. Para reeleger-se em 1972, aliás, o presidente Richard Nixon buscou passar a imagem de que poria fim à guerra; seu adversário McGovern ficou associado à anistia para desertores e à comparação que fez então entre os EUA e os nazistas.

Apesar de ter voltado da II Guerra Mundial com condecorações por bravura, McGovern foi pintado na mídia em 1972 como caricatura do democrata “fraco em defesa nacional”. Era falso: piloto da Força Aérea do Exército, voara 35 missões de bases do Norte da África e da Itália sobre território inimigo e fizera aterrissagem forçada com seu bombardeio em pane, numa ilha do Mediterrâneo, para salvar sua tripulação (leia AQUI um lúcido artigo de McGovern em resposta a uma referência de Dick Cheney, que nunca lutou numa guerra).

Contra as operações militares

A ênfase no atual papel da mídia é minha, não de Beinart. Para ele, o Partido Democrata tornou-se mais moderado nos anos Clinton. “Nas duas últimas eleições presidenciais – escreveu – os republicanos atacaram Al Gore e John Kerry menos como radicais ideológicos do que como oportunistas que mudam de opinião conforme o vento, dizendo coisas convenientes para ganhar votos”.

Segundo tal raciocínio, o mais importante é a oposição democrata definir com clareza sua posição favorável ao corte das verbas da guerra, mesmo tendo de suportar a acusação governista de que nega “apoio às tropas”; do contrário, deixará de mostrar uma posição firme. O Partido Democrata, assim, teria de proclamar inequivocamente o que pensa: acabar com sua guerra do Iraque, retirar as tropas dos EUA.

Só faltou, na verdade, Beinart reconhecer que a imagem de “oportunismo”, a ser exorcizada, resultou menos do comportamento democrata do que da manipulação eficaz da mídia pelo adversário – no laboratório Karl Rove. Afinal, essa mesma mídia é que omitira o passado de AWOL (desertor) de Bush e reduzira heróis de guerra condecorados (McGovern, Kerry) à condição de traidores e oportunistas.

Published in: on maio 17, 2008 at 4:35 pm  Deixe um comentário  

A “bola curva” que fabricou uma guerra

 Curve Ball no \Graças ao programa “60 minutes” da CBS, principal revista jornalística da TV nos EUA, desde o ano passado já existe uma identidade e uma imagem para este homem, “Curve Ball” (Bola Curva), codinome do informante da espionagem americana que fabricou a versão fantasiosa das armas biológicas que serviu de pretexto para o governo Bush invadir o Iraque em março de 2003.

Além de identificá-lo como Rafiq Ahmed Alwan, a CBS foi mais longe: obteve e mostrou no programa a imagem do bigodudo Alwan/Curve Ball em 1963, quando dançava alegremente, de terno e gravata, numa festa de casamento em Bagdá. Nos meios de inteligência soube-se que não passava de um estudante vigarista e mentiroso, nunca o “engenheiro-químico altamente qualificado” que alegava ser.

Alwan abandonou o Iraque depois, apresentando-se em 1999 num centro de refugiados localizado na Alemanha. Na ânsia de elevar a própria importância e obter asilo no Ocidente, jurou às autoridades não só que era um grande engenheiro-químico, como que fora o encarregado pelas instalações de Djerf al Nadaf, onde “eram produzidas armas biológicas móveis” – os célebres “laboratórios móveis” citados no Conselho de Segurança da ONU pelo então secretário de Estado Colin Powell (veja AQUI as provas falsas das armas de destruição em massa, com diagramas e tudo, além da íntegra da apresentação de Powell).

A trama montada nos EUA

Apesar das informações de Alwan, a CBS descobriu que os registros dele na universidade indicam que, mesmo tendo estudado engenharia química, suas notas eram quase sempre muito ruins. Segundo a reportagem de investigação apresentada por Bob Simon, do “60 Minutes”, havia um mandado de prisão contra ele por roubar equipamento da Babel, uma produtora de TV na qual tinha trabalhado em Bagdá.

Judith Miller, receptadora de vazamentos“Curve Ball” foi citado em reportagem publicada na primeira página do jornal New York Times, pela hoje desacreditada repórter Judith Miller (foto), como prova definitiva de que o  Iraque tinha armas químicas. Miller circulava nos corredores do poder, especialmente no  Pentágono, recebendo vazamentos de autoridades do governo Bush empenhadas em alarmar o país com a suposta ameaça das armas proibidas.

Para confirmar as mentiras, eles ainda instruiam a jornalista a procurar certas fontes duvidosas – entre elas exilados do Iraque como Ahmed Chalabi, ex-banqueiro procurado por fraude na Jordânia e outros países. Aparentemente, coube a Chalabi, candidato predileto do Pentágono a assumir o governo do Iraque depois da invasão, a tarefa de colocar Miller em contato com “Curve Ball” ou ter acesso às informações forjadas que fornecia.

Como Powell entrou no jogo

A identidade de “Curve Ball” era protegida nos EUA. Fingia-se que era fonte preciosíssima. O primeiro serviço de espionagem a ouvi-lo foi o da Alemanha, cujas autoridades ouviram credulamente suas versões fantasiosas. Nos EUA, os neoconservadores de Bush – Paul Wolfowitz, Douglas Feith e o resto da turma no Pentágono – amplificavam as versões manipulando jornalistas como Miller.

Segundo Tyler Drumheller, ex-alta autoridade da CIA que falou à CBS, “se não tivessem Curve Ball, eles (as altas autoridades do governo Bush) certamente teriam arranjado outro para dizer a mesma coisa, pois estavam obcecados em levar avante o projeto da invasão do Iraque. Para ir à guerra, nas circunstâncias em que fomos, Curve Ball foi sem dúvida o núcleo do caso”, disse.

Em fevereiro de 2003, o secretário de Estado Colin Powell disse no Conselho de Segurança da ONU, tentando convencer outros países a apoiar a guerra: “Vamos dar a vocês fatos e conclusões baseados em inteligência sólida”. E acrescentou que Saddam tinha “armas biológicas móveis”. A fonte sobre isso “é testemunha ocular, um engenheiro-químico que supervisionou uma dessas instalações” (em entrevista AQUI, à BBC, ele reconheceria, menos de um ano depois, que estava errado).

A guerra a todo custo

Ladeando Powell, os fiadores do que dizia: o diretor nacional de Inteligência (e da CIA), George Tenet, e o chefe da missão dos EUA na ONU, John Negroponte, futuro ocupante do cargo de Tenet. Mas a suposta “fonte” e “testemunha ocular” era apenas o larápio Curve Ball, no qual o governo Bush declarou acreditar – contra os dados bem fundamentados da comissão de inspetores de armas da ONU.

Seis semanas depois o Iraque era invadido a pretexto de ter “armas de destruição em massa”, o que os especialistas da comissão da ONU, liderada pelo sueco Hans Blix, que tinham vasculhado o Iraque, negaram, considerando a versão fantasiosa. Mas a verdade da ONU não interessava a Bush e nem ao seu vice Dick Cheney, obstinados em forçar a guerra a qualquer custo. (Leia AQUI sobre a suspeita do repórter Seymour Hersh de que trama igual pode estar em andamento, agora para criar a ameaça iraniana).

Depois da invasão, com o Iraque ocupado pelas tropas invasoras dos EUA, duas equipes de centenas de especialistas da CIA comprovou o que Hans Blix e seus inspetores tinham dito. A mentira grosseira produziu a guerra que já matou mais de 4 mil americanos e aleijou 30 mil (além de 1 milhão de civis iraquianos mortos e 4 milhões de refugiados). E até hoje Bush repete outra mentira: que o mundo concordava com ele sobre a existência de armas proibidas.

Published in: on maio 14, 2008 at 10:09 pm  Comments (2)  

A promiscuidade no jornalismo político

Certa vez estive envolvido numa discussão interna do Sindicato de Jornalistas do Rio sobre uma coluna iniciada por Pelé no Jornal do Brasil. Discordei da idéia de impedí-lo de escrever a pretexto de não ser jornalista. Mas o próprio craque, interpelado pelo sindicato, acabaria por recuar: concordou em expor suas análises sempre na forma de entrevistas, cabendo o texto a um jornalista.

Mais tarde ouvi dizer que Tostão, formado em Medicina, fez curso de comunicação para não ter de enfrentar a ira de jornalistas inconformados com a competição de não diplomados em comunicação. A disputa permanece, mas minha opinião continua a mesma. Não acho certo insistir em restrições assim para impedir um Pelé, um Tostão, um Gerson, um Sócrates e tantos outros de escrever sobre o que conhecem tão bem.

O jornalismo ganha com eles. Se esse caso e outros semelhantes violam a lei que regulamenta a profissão, os colegas jornalistas e os professores de comunicação que me desculpem, é hora de mudar a lei. Mas há certas sutilezas a serem examinadas. Volto à questão por causa do que acontece nos EUA, onde Karl Rove (foto abaixo, à esquerda), marqueteiro tido como “o cérebro de Bush”, tornou-se a mais nova estrela do jornalismo político americano.

Rove, Russert, Stephanopoulos

 Karl Rove na Fox NewsNos EUA existem escolas de jornalismo e de comunicação, mas não a exigência de diploma para o exercício da profissão. Um dos jornalistas mais bem-sucedidos da TV – Mike Wallace, do “60 Minutes” da CBS – celebrizou-se primeiro como animador de programas de prêmios. Tim Russert, que faz sucesso no “Meet the Press” da NBC, começou como assessor do governador Mario Cuomo e, depois, do senador Daniel Moynihan.

O programa político da ABC, que hoje disputa o horário de domingo com Russert na NBC, é “This Week”, de George Stephanopoulos, formado em Ciências Políticas, Direito e Teologia – mas até então sem nenhuma experiência jornalística. Ele só se tornou conhecido em 1992, como secretário de imprensa da campanha presidencial de Bill Clinton e, posteriormente, diretor de comunicações da Casa Branca.

Na mesma campanha presidencial, destacaram-se ainda James Carville, principal estrategista de Clinton e, do outro lado, Mary Matalin, a serviço da campanha rival de George Bush I, o pai. Carville e Matalin (ela passou a servir, em 2001, ao vice-presidente Cheney) casaram-se depois e ganham a vida desde então com política e jornalismo. Fazem na TV (inclusive na NBC) um número tipo vaudeville: brigam no palco, expondo as posições democrata e republicana. Pura encenação teatral, claro.

Obama, o próximo alvo dos “527”

Desde segunda-feira o New York Times – que dias antes devassara o escândalo dos “analistas militares” da TV, generais treinados pelo Pentágono para melhor defender na mídia as opções bélicas dos EUA – expôs a situação atual de Karl Rove, transformado em analista político da mídia após dirigir com sucesso as duas campanhas de Bush (2000 e 2004). Ele fala às câmeras da Fox News e escreve para o Wall Street Journal e a Newsweek (saiba mais AQUI sobre esse novo papel dele).

Convenhamos que enquanto o debate é sobre Pelé, Tostão, Sócrates, está fora de dúvida que o jornalismo – como os leitores ou telespectadores – só tende a ganhar. Mas uma relação promíscua mídia-política corre o risco de comprometer a própria integridade do jornalismo. E Rove, especialista em truques sujos da política, traz ainda seu status de celebridade e muitas dúvidas éticas.

Sobre a competência do personagem, nada tenho a opor. Dificilmente alguém domine tão bem o tema que analisa – como na certa concordam os que acompanharam sua participação na cobertura das últimas primárias pela Fox News. Mas, entre outras coisas, Rove pode estar envolvido, segundo sugeriu o Times, num projeto para produzir e veicular comerciais difamatórios contra Barack Obama.

Esses comerciais, como mencionado em artigo anterior, viriam do que é chamado nos EUA “grupos 527”. O número refere-se a dispositivo de legislação fiscal. Eles são organizações desregulamentadas, livres de impostos e sem ligação visível com a campanha de qualquer candidato. Exemplos expressivos ocorreram nas duas campanhas de Bush II, o filho, ambas dirigidas por Rove. Em 2004 a difamação de John Kerry em forma de comerciais inundou o país, iniciativa do “Swift Boat Veterans for Truth”, um grupo 527 (veja AQUI no YouTube um dos comerciais).

A mesma porta de vaivém

Coube ao mestre de Rove, Lee Atwater, fazer a campanha de Bush pai em 1988 e usar um comercial semelhante – sobre Willie Horton, presidiário negro que, liberado para passar um fim de semana em casa, estuprou e matou uma mulher branca em Massachusetts, estado governado por Mike Dukakis. O anúncio (veja-o AQUI) foi produzido por um grupo sem vínculo com a campanha. Sabe-se hoje que, ante a vantagem (quase 20 pontos percentuais) do democrata Dukakis, Bush autorizou a veiculação dos comerciais – e se elegeu.

Depois de Atwater prever que ao fim da campanha Horton seria célebre em todo o país, um ex-assessor de mídia de Ronald Reagan – Roger Ailes, hoje presidente da Fox News, que acaba de contratar Rove – completou: “A única dúvida é se vamos mostrá-lo com a faca na mão ou sem ela”. E Larry McCarthy, que produzira o comercial e antes tinha trabalhado para Ailes, encarregou-se de convencer as TVs a aceitá-lo  (leia AQUI a carta de um leitor do Washington Post convencido de que em 2008 o ex-pastor de Obama, Jeremiah Wright, será transformado num Willie Horton).

As relações promíscuas de gente como Rove com a mídia são e serão sempre uma preocupação para quem se preocupa com a ética e a integridade jornalística. Rove foi da Casa Branca para a redação – como Ailes, Stephanopoulos, Carville, Matalin e outros. Mas às vezes o fluxo é inverso na porta de vaivém: Tony Snow, depois de ser âncora do principal programa político da Fox, tornou-se porta-voz de Bush na Casa Branca.

Published in: on maio 14, 2008 at 7:49 pm  Deixe um comentário  

Ressuscitando o escândalo da agente da CIA

Valerie Plame Wilson, ex-agente, teve sua carreira destruída na CIA por autoridades do governo Bush (Dick Cheney, Karl Rove, Irving Lewis “Scooter” Libby) que a identificaram publicamente (numa operação de vingança contra o marido dela, embaixador Joe Wilson, que criticara o presidente). Agora ela tenta ressuscitar em instância superior (o Tribunal de Apelações do Distrito de Columbia) o processo cível contra eles, mandado arquivar por um juiz federal.

No processo criminal, a investigação custou US$2,58 milhões e levou à condenação de Scooter Libby, ex-chefe do gabinete do vice-presidente Cheney, por perjúrio e obstrução da Justiça em depoimentos no tribunal e ao FBI (Bureau Federal de Investigações). Ele foi sentenciado a 30 meses de prisão, multa de US$250 mil e dois anos de liberdade condicional, mas a pena de prisão foi depois comutada pelo presidente Bush.

Antes da condenação e da sentença, que saiu em junho do ano passado, a defesa de Libby apresentara como testemunhas em favor de seu caráter, celebridades como Henry Kissinger, Donald Rumsfeld, Richard Perle, Paul Wolfowitz, Douglas Feith, Ken Adelman e James Woolsey, além dos generais Richard Meyers e Peter Pace e do ex-presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn.

A “Gestapo” e o “governo paralelo”

Se a prisão não tivesse sido comutada por Bush, Libby seria hoje a primeira autoridade de alto nível do Executivo a cumprir pena de prisão desde o escândalo Watergate, no governo Nixon. Kissinger, um dos apresentados como fiadores do caráter de Libby, é procurado atualmente em vários países para depor sobre os crimes praticados pelas ditaduras do Chile e da Argentina, como suspeito de cumplicidade, mas tem preferido evitar novas viagens pelo mundo.

Rumsfeld (demitido do governo em 2006) e seu ex-adjunto Wolfowitz (defenestrado do Banco Mundial por ter multiplicado o salário da namorada na instituição) foram os arquitetos no Pentágono da guerra de Bush no Iraque. Feith montara no mesmo Pentágono, como Colin Powell chegou a dizer, uma espécie de “governo paralelo” (cabia a Libby, ainda segundo Powell, conduzir, no seu gabinete, uma “Gestapo”).

A causa cível de Valerie Plame, se ressuscitada, pode obrigar Cheney, Libby e Rove a indenizá-la pelos prejuízos sofridos (inclusive a perda do emprego) devido à conduta ilegal deles ao inviabilizar sua carreira na central de espionagem. Ironicamente, a lei de proteção à identidade dos agentes tinha sido forçada por parlamentares republicanos com o amplo apoio do presidente Ronald Reagan, que a sancionou na década de 1980.

O primeiro cérebro da guerra

Richard Perle foi o primeiro a planejar a guerra do Iraque, ainda na gestão de Cheney à frente do Pentágono (1991), como desdobramento da operação para expulsar os iraquianos do Kuwait. O projeto dele e de Cheney para marchar sobre Bagdá foi então vetado pelo primeiro Bush, por recomendação do secretário de Estado James Brady, com respaldo do chefe do Estado Maior Conjunto, Colin Powell.

No governo de Bush II, Perle reapareceu integrando no Pentágono o Conselho de Políticas de Defesa, que fazia recomendações a Rumsfeld. Mas teve de renunciar ao ser descoberto que sua firma Trireme, faturava com programas e projetos levados ao Conselho – escandaloso conflito de interesses. Adelman e Woolsey tornaram-se sacerdotes da guerra, dedicados a campanhas de propaganda na mídia.

O núcleo central dos “avalistas” do caráter de Libby – Rumsfeld, Wolfowitz, Perle, Feith, Woolsey e Adelman – integrou ainda o célebre PNAC, Projeto do Novo Século Americano, que vinha planejando a guerra do Iraque, no contexto de uma nova política externa agressiva, unipolar, antes mesmo do final do governo de Bush I, em 1992.

Perjúrio e obstrução da Justiça

Feith, cujo cargo no Pentágono era de sub-secretário da Defesa para programas, era o mais próximo de Libby. E os dois foram os mais próximos de Cheney no governo Bush – daí a observação de Powell de que o gabinete de um era a “Gestapo” e o do outro o “governo paralelo”. Os neoconservadores do PNAC reuniam-se neles para tramar a aventura que matou mais de 4 mil soldados americanos e 1 milhão de civis iraquianos, além de criado 4 milhões de refugiados.

Mas Libby não foi condenado por seu papel nessa aventura, apenas por perjúrio e obstrução da Justiça. Mentiu sob juramento ao FBI e ao Grande Júri que investigava o vazamento da identidade de Valerie Plame. Para os republicanos hoje, um fato irrelevante. Mas eram também esses os crimes que eles atribuiam ao presidente Clinton ao fabricar o processo de impeachment em 1998.

A condenação de Libby no processo criminal deveu-se à determinação do promotor federal Patrick Fitzgerald, nomeado pelo governo Bush. Não fosse a irritação da CIA e da oposição democrata, além da obstinação de Fitzgerald, o caso teria morrido. A Casa Branca não estava interessada em apurar as responsabilidades pelo vazamento. Ao se defrontar na investigação com a teia de mentiras para obstruí-la, o promotor fez questão de levar a julgamento pelo menos um dos mais graúdos dos mentirosos.

Published in: on maio 13, 2008 at 2:48 am  Deixe um comentário  

Aula de ciência no império Fox de mídia

Como já foi dito aqui antes, o jornalismo da corporação do magnata australiano Rupert Murdoch – dono do império de mídia News Corp – que só nos EUA (fora o resto do mundo) engloba hoje a Fox e seus penduricalhos da TV, provedores via satélite, tablóides de escândalo e o antes respeitado Wall Street Journal – não é pior e nem melhor do que o do império Globo (jornais, TVs, etc) dos irmãos Marinho. É igual.

Nossa versão tupiniquim tem o mérito de estar apenas em território brasileiro. Tenta fraudar eleições e derrubar governos, mas só no Brasil, onde fracassou ao tentar transferir para Moreira Franco a vitória de Brizola no Rio em 1982, conseguiu inverter (de Lula para Collor) o resultado da eleição presidencial de 1989 e desde 2005 aposta sem sucesso, mas obsessivamente, no impeachment do atual presidente.

Nos EUA, Grã-Bretanha e Austrália, onde se envolve mais na política local, a News de Murdoch nunca foi tão longe como a organização Globo no Brasil, mas o jornalismo das duas é igualmente repugnante. A retomada agora da obsessão contra o ex-vice-presidente Al Gore lembra a da Globo contra Lula. O novo pecado de Gore: relacionou a tragédia da Birmânia às mudanças climáticas e aquecimento da Terra.

A culpa da flatulência bovina

 Brit Hume no seu \O “Special Report with Brit Hume” (foto à esquerda), jornal político diário da Fox News, de uma hora, tem uma seção de fuxico e intriga (“Grapevine”) para ridicularizar os vilões da casa, como Gore. E na parte final do programa, as supostas estrelas do jornalismo político (os Fox’s All Stars), como os ideólogos neoconservadores Bill Kristol e Charles Krauthammer, debatem a sério os grandes temas do país e do mundo.

Como o ódio da Globo a Lula aumentou com a ousadia dele em ganhar a eleição de 2006, o da News-Fox a Gore e defensores do meio-ambiente cresceu com o Nobel da Paz. Na tela da Globo, Lula é apedeuta e parasita, cria “mensalões”, “apaga” aeroportos, mata passageiros. Na da Fox, o aquecimento da terra se deve não a emissão de gases da indústria e combustíveis fósseis e sim a ventosidades (flatulência) de bois e vacas pelo mundo.

Para desautorizar estudos científicos, o jornalismo Murdoch faz piadas sobre a capacidade singular de bois e vacas na emissão de gases pelo ânus – o que vem sempre acompanhado de pesquisas duvidosas de desconhecidos (o último que vi citado era “um cientista da Nova Zelândia”), contestando (na certa em troca de remuneração da indústria) o conhecimento antiflatulento acumulado pela ciência.

Os principais especialistas em flatulência no império Murdoch, não por acaso, são os mesmos neocons que denunciavam as armas de destruição em massa de Saddam Hussein e conclamavam os americanos a invadir e ocupar o Iraque. Dois deles, Kristol (foto abaixo) e Fred Barnes, dirigem para Murdoch a revista ideológica Weekly Standard”, que se anuncia como “a mais lida na Casa Branca”.Bill Kristol

Crimes do Nobel são outros

Valia a pena ouvir Kristol dissertar em outubro do ano passado sobre o tema ventosidade: “Este homem (Al Gore) ganhou o Nobel da Paz por flatular sobre aquecimento global. (…) É um prêmio dado por flatulosos a um flatuloso, por coisa alguma. (…) O comitê Nobel tem os temas de que gosta. Voltou a destacar um deles. Apontou os holofotes para fazer o aquecimento global brilhar. Foi isso o que ele fez”.

Ao lado de Kristol, o outro ideólogo – Krauthammer, cuja coluna às vezes sai em O Globo – ofereceu este enfoque: “Gore une-se agora ao bloco de Arafat, pai do terrorismo moderno; Le Duc Tho, que firmou tratado em nome de governo que dois anos depois invadiu e extinguiu o país com o qual o assinara; e o mais infame, Jimmy Carter, (…) que fez lobby contra a guerra de seu próprio país no Golfo”.

Notem o detalhe: ele condenou o Nobel por ter premiado Arafat (esqueceu que foi junto com Yitzhak Rabin e Shimon Peres); Le Duc Tho (omitiu que este rejeitou o prêmio como hipócrita, pois a guerra continuava, mas que o criminoso de guerra americano Henry Kissinger foi lá e o recebeu); e o americano Carter. E daí concluiu: “o Nobel da Paz é ‘o Kentucky Derby da esquerda mundial'”.

De fato, em toda a sua história, desde 1901, o Nobel premia mal. Não por causa dos exemplos de Krauthammer e sim pelos absurdos que ele omitiu: os americanos Ted Roosevelt, da gunboat diplomacy; o secretário da Guerra dele, Elihu Root; Woodrow Wilson, que envolveu os EUA na guerra de 1914 depois de se eleger eleger com a promessa de manter o país fora dela; Kissinger, o pior de todos; e outros.

O herói esquecido do bushismo

Os neocons de Murdoch ainda ofereceram no ano passado sua análise sobre os possíveis efeitos do Nobel de Al Gore na disputa das primárias democratas. A conclusão então apresentada foi de que o ex-vice-presidente não tem a menor chance, principalmente porque o quadro dos candidatos potenciais já estava definido – com vantagem consolidada para Hillary Clinton. Erraram mais uma vez na futurologia.

O comentarista negro Juan Williams, então da rede pública de TV (PBS), hoje na de rádio (NPR), discordou de Kristol e Krauthammer naquele programa. Para ele Gore está de volta, no topo do mundo. O que levou Kristol a acusá-lo: “Você compara Gore a Madre Teresa”. Para Mara Liasson, também da NPR, seria difícil mudar o quadro das primárias na época. Verdade? Não. Sobre Hillary o quadro mudou totalmente.

Pitoresco ainda foi Kristol, no mesmo dia, atacar a imprensa e em especial o New York Times (no qual, por ironia, escreve hoje uma vez por semana), acusado de destacar o Nobel de Gore e ignorar a medalha de honra dada por Bush dias antes a um tenente da Marinha que serviu no Afeganistão. “Há algo de podre na nossa cultura”, disse. “Não reconhece heróis genuínos. Mas dá prêmio e badala alguém por fazer um filme”. É isso aí: como bushista, ele prega mais guerra. Assim fabricar mais heróis – e medalhas de honra.

Published in: on maio 13, 2008 at 2:04 am  Deixe um comentário  

Os anos de Tenet no centro da tormenta

 

 

 

 

Lançado há um ano, o livro At the Center of the Storm: My Years at the CIA (No centro da tormenta: meus anos na CIA) tornou-se documento histórico relevante por ser um depoimento e uma espécie de acerto de contas entre o autor, o ex-diretor da Agência Central de Espionagem, George Tenet, e o grupo neoconservador que o usou para justificar a decisão desastrada da “invasão preventiva” do Iraque em 2003.

Suas 549 páginas fazem duro retrato do governo Bush, a que Tenet serviu por quase quatro anos (leia AQUI mais informações sobre o livro). O autor contou que antes da guerra sofreu pressão da Casa Branca para apoiar as alegações sobre existência de armas de destruição em massa (AMD) e depois virou bode expiatório: “O governo, em vez de reconhecer sua responsabilidade, passou a alegar: ‘Não temos culpa. Tenet e a CIA é que nos meteram nisso'”.

O livro descreve com sarcasmo, por exemplo, uma entrevista de Cheney em setembro de 2006 ao programa “Meet the Press”, da NBC. Ali, o vice-presidente citou duas vezes a expressão de Tenet, slam dunk, como o fundamento para a decisão de ir à guerra. “Ao ver Cheney dizer aquilo, não pude deixar de pensar: ‘Até parece que vocês precisavam de mim para convencê-los a atacar o Iraque'”, escreveu.

Uma guerra sem “debate sério”

A indignação levou Tenet ainda mais longe. Cheney e outras altas autoridades, segundo disse, empurraram o país para a guerra sem sequer conduzir um único “debate sério” a respeito da questão central – se Saddam Hussein era mesmo uma ameaça iminente aos EUA. “Que eu saiba, nunca houve esse debate”, afirmou. Ele sugeriu, ao mesmo tempo, que o Iraque poderia, sim, ser contido sem uma invasão.

Tenet não contestou a expressão slam dunk (equivalente ao nosso “favas contadas”), com a qual, segundo versões oficiais, teria ratificado a existência das ADM. Mas sua história é diferente. Suas palavras, conforme escreveu, foram tiradas do contexto. Tinham pouco a ver com a decisão de Bush de lançar a guerra, mas foram simplesmente usadas depois para fazer dele e da CIA bodes expiatórios.

Tenet assumiu a responsabilidade pela desastrada NIE (Avaliação Nacional de Inteligência) da CIA em 2002 sobre programas de armas do Iraque. “Foi um dos meus piores momentos em sete anos à frente da CIA”, escreveu. Para ele, o texto devia ter tido mais nuanças. Tenet também alegou no livro que na ocasião estava de fato convencido de que Saddam tinha armas não convencionais. Mas às vésperas do primeiro aniversário da invasão Tenet discutiu a NIE e afirmou que o Iraque não representava ameaça iminente (leia AQUI).

No livro, Tenet defendeu ainda, vigorosamente, os programas da CIA iniciados depois do 11/9, inclusive a prática da tortura e o uso de prisões secretas em outros países. Evitou ser explícito em relação às técnicas. E invocou, para tal violação do Direito Internacional e dos direitos humanos, sua convicção pessoal de que a al-Qaeda estava determinada a atacar de novo os EUA e os americanos.

Leviandade e irresponsabilidade

O ex-diretor da CIA poupou no livro a pessoa do presidente Bush, de quem recebera – antes de deixar o cargo – a Medalha da Liberdade, uma das mais altas condecorações civis do país. Sobre a medalha, alegou que não estava muito convencido de que devia aceitá-la. Só concordou depois de certificar-se de que as razões invocadas eram apenas “o trabalho da CIA contra o terrorismo e não o Iraque”.

Os alvos de Tenet foram principalmente Cheney e seus neocons, o grupo ideológico que agia no governo. Como dois dos apadrinhados do vice-presidente no Pentágono, Paul Wolfowitz (depois demitido do Pentágono e forçado a renunciar à presidência do Banco Mundial, por ter recorrido ao nepotismo em favor da namorada) e Douglas Feith. Os dois apostaram histericamene na guerra desde o 11/9.

Tenet vangloriou-se pelo menos de uma vitória sobre Cheney, talvez a única: o veto imposto ao discurso que o vice-presidente pretendia fazer na véspera da invasão. No texto, Cheney pretendia alegar que os vínculos entre a al-Qaeda e o Iraque, nunca provados, “iam muito além do que os dados de inteligência mostravam”.

Depois de ler o discurso, Tenet escreveu ao próprio Bush: “Sr. presidente, não podemos endossar o texto. É um discurso que não devia ser feito”. De fato, a leviandade de Cheney ali excedera-se mais uma vez – o que a equipe de especialistas da CIA acabaria por comprovar na inspeção final sobre as ADM, depois da ocupação militar do Iraque.

Como Bin Laden foi ignorado

No livro, Tenet comprometeu ainda a então assessora de Segurança Nacional da Casa Branca, Condoleezza Rice, e o adjunto (e sucessor) dela, Stephen Hadley. Os dois ficaram do lado errado, apoiando a lorota lida por Bush em 2003, no seu discurso do Estado da União, sobre o fantasioso urânio africano de Níger – que Saddam Hussein teria supostamente tentado comprar para sua bomba nuclear.

Quem escapou ileso no livro foi o antecessor de Rice no Departamento de Estado, Colin Powell – aliado de Tenet em algumas escaramuças internas no governo. Na célebre apresentação de Powell perante o Conselho de Segurança da ONU, ele estava sentado a seu lado, como um fiador (leia AQUI sobre a entrevista à ABC na qual Powell lamentou o fiasco sem culpar Tenet). Depois da invasão, ainda em 2003, Powell contou a ele ter havido, “caloroso debate” no avião presidencial sobre se a Casa Branca devia manter Tenet à frente da CIA. O presidente decidiu a favor da permanência, contra a opinião de Cheney e outros.

O ex-diretor da CIA garantiu ter feito numerosas advertências, muito antes do 11/9, sobre a ameaça representada por Osama bin Laden. Mas nos oito primeiros meses de Bush, os apelos urgentes da CIA sobre o terrorismo eram recebidos com desagrado na Casa Branca. Só depois dos ataques terroristas, segundo Tenet, a CIA conseguiu ter os poderes que vinha reclamando desde janeiro de 2001.

 

Published in: on maio 10, 2008 at 12:41 am  Deixe um comentário  

Réquiem para uma candidata


Chelsea, Bill & Hillary Clinton
De fato, na terça-feira Hillary ganhou uma primária e Obama a outra. Mas havia diferença grande no peso de cada vitória. A dele foi na Carolina do Norte, estado muito mais rico em votos e delegados. E a vantagem de Obama foi de 15 pontos percentuais (56% contra 41%), enquanto a dela em Indiana foi de apenas 2 pontos percentuais (51% contra 49%). Mas ela festejou como grande triunfo, ainda que fosse de constrangimento a aparência do casal Clinton e da filha Chelsea na foto acima da AP, feita depois do resultado. 

A estimativa ontem era de que o resultado de Indiana dá mais 37 delegados a Hillary e mais 33 a ele – uma vantagem de quatro, amplamente superada pela vitória de Obama na Carolina do Norte, que deu a ele mais 61 e a ela mais 38 (os totais precisos ainda serão determinados). Segundo cálculos da AP, ele ainda precisa de 183 para chegar ao número mágico de 2.025, que garante a indicação (veja AQUI o quadro geral do Yahoo sobre a eleição; e AQUI os números do New York Times).

Para Hillary chegar aos 2.025, precisaria de mais 337, o que analistas acham praticamente impossível, em especial depois do desempenho decepcionante de terça-feira. É que os estados restantes – Virgínia Ocidental (dia 13), Kentucky, Oregon (ambos no dia 20), Idaho (27), Porto Rico (1° de junho), Montana e Dakota do Sul (ambos a 3 de junho) – são, todos eles, bem menos ricos em votos e delegados do que Carolina do Norte e Indiana. Alguns chegam a ser indigentes.

Vitória de Obama no N.Y. Times
Sem os braços e uma perna

“Vou continuar nessa disputa até que a indicação esteja definida”, ameaçou Hillary ontem. É mesmo uma ameaça, já que significa desgaste crescente para o partido. Um blogueiro do website HuffingtonPost.com comparou a situação dela a uma cena do ator John Cleese em Monty Python and the Holy Grail (leia o blog AQUI). Como Cavaleiro Negro, com os dois braços e uma perna cortados pelo rei Artur, ele vê o sangue jorrar pelos três ferimentos e diz ao monarca: “Ok, concordamos em que há empate”.

A senadora está sangrando, sem qualquer chance. Mas a tática tem sido a de sempre festejar como se tivesse vencido. Exemplos: a 19 de janeiro comemorou vitória em Nevada, mas no dia seguinte ficou claro que o vitorioso era Obama; a 5 de fevereiro, Super Terça-Feira, festejou Missouri, onde fora derrotada; a 4 de março, reincidiu no Texas, onde Obama acabou como ganhador em número de delegados.

Se ele está com número bem maior de delegados, a maior votação popular (ampliada agora em 200 mil votos, para 16,3 milhões, vantagem de 800 mil) e já ganhou em mais do dobro dos estados, por que Hillary ainda insiste e finge ser a melhor candidata? É que, antes do início da temporada das primárias, arrecadara uma fortuna e obtivera o compromisso de grande número de superdelegados, em razão da máquina montada pelos Clinton nos dois mandatos presidenciais (1993-2001). Mas agora teve de emprestar mais US$6,4 milhões à campanha enquanto sobram doações de pequenos contribuintes para Obama, via Internet.

Com a força acumulada, em dinheiro e superdelegados, Hillary antes julgava-se imbatível no partido. Deu-se ao luxo de ignorou Obama, convencida e que seria John Edwards o adversário principal. Ao invés de adaptar-se à realidade depois da surpreendente vitória de Obama em Iowa, a 3 de janeiro, manteve a postura de favorita. Ao perder na Super Terça-Feira, continuou a apostar nos superdelegados como a força decisiva – até que eles começaram a deixá-la devido às derrotas.

As vitórias apenas encenadas

Os próprios estrategistas dela admitiram que se não ganhasse no Texas, Ohio e Pensilvânia, entre 4 de março e 22 de abril, estaria fora da disputa. Ela perdeu no principal estado, o Texas (pequena vantagem obtida na primária acabou neutralizada pelos caucuses, pois ali a disputa é híbrida), mas declarou-se vencedora e foi aceita como tal pela maioria da mídia (AQUI o Time retratou-a na capa, “The Fighter”).

Na campanha da Pensilvânia, tomou a pior decisão: a de incorporar a receita republicana da difamação macarthista do adversário, com base na “culpa por associação”. Explorando a controvérsia em torno do pastor Jeremiah Wright, abraçou a base do discurso bushista – “política do medo” e contestação do patriotismo do rival, por frequentar igreja cujo ex-pastor é radical, relacionr-se com um vizinho de passado subversivo e não usar bandeirinha na lapela. Assim empurrou Obama para a defensiva e obteve a primeira vitória confortável.

Tanto na Pensilvânia, seu maior sucesso, como agora em Indiana, Hillary ainda foi beneficiária de uma maquinação torpe, a “Operação Caos” lançada pelo talk show do ultraconservador Rush Limbaugh para subverter a disputa dos democratas (veja AQUI a comemoração no site dele). Como a primária é aberta e permite os votos de republicanos, Limbaugh os conclamou a votar em Hillary para criar o caos no Partido Democrata (em Indiana 11% dos votantes foram, de fato, republicanos).

Há muito a conduta da senadora era motivo de preocupação na direção do partido e entre os superdelegados – alguns dos quais, como o governador Bill Richardson, do Novo México, abandonaram o compromisso assumido antes com ela e mudaram o voto para Obama. O problema de Hillary, mesmo depois da Filadélfia, era não ter mais como mudar um quadro já definido. Já tinha perdido o bonde.

Ela cai fora a 15 de junho?

Quanto mais consciência tinha de sua situação desesperadora, mais buscava golpear o rival com os ataques macarthistas (não tivesse sido ela, como o marido, alvo no passado de ataques assim). A intenção era menos ganhar votos dos eleitores do que se impor no grito – ou no tapetão – através dos superdelegados. Assim, Hillary chegou esta semana às primárias da Carolina do Norte e Indiana. Prometia vitória esmagadora em Indiana e uma espécie de empate na Carolina.

Deu o contrário: vitória esmagadora de Obama na Carolina do Norte e uma espécie de empate em Indiana. Para observadores realistas, não há mais mágica capaz de salvá-la. Mas ela insiste no jogo sujo, ao exigir os votos de Michigan (onde só o nome dela estava na cédula) e da Flórida. Nesses dois estados as disputas tinham sido previamente invalidadas, bem antes da votação, por decisão da cúpula do partido, como punição por desafio às regras estabelecidas.

Outro blogueiro democrata, Lawrence O’Donnell, escreveu ontem ter ouvido de um alto dirigente da campanha dela, além de confidente de Hillary, que no dia 15 de junho haverá enfim um candidato indicado (a direção do partido tinha prometido a definição para 3 de junho, no máximo). “Ele não chegou a declarar claramente ‘Hillary cai fora a 15 de junho’, mas foi exatamente isso o que quis dizer”, acrescentou (leia AQUI). Será mesmo o fim? Então por que aquele empréstimo pessoal de US$6,4 milhões?

Published in: on maio 8, 2008 at 3:02 pm  Deixe um comentário  

Neocons, realistas e a visão de Bush

 

 Depois da eleição de 2006, escrevi na minha coluna da Tribuna da Imprensa  que o diálogo do presidente Bush com a oposição vitoriosa e a busca  de  auxiliares (como Robert Gates, à frene do Pentágono) entre os chamados    “realistas” de James Baker, que serviram ao pai dele, não combinava com o    esforço para aprovar – com a maioria republicana de um Congresso em fim de    mandato – a lei de vigilância interna (escuta telefônica) e a permanência de    John Bolton na ONU.

O diálogo levou a nada porque Bush estava na verdade tentando dar sobrevida aos neoconservadores (os neocons) de Dick Cheney, que controlavam a política externa com sua fantasia sobre a existência de um império americano “benevolente”, “magnânimo”. No fundo, era mais uma fuga ao realismo. Como observara o jornalista e professor Mark Danner, “a América, a despeito de seu grande poderio, ‘não devia sair em busca de monstros para destruir'” (leia AQUI seu artigo publicado pelo New York Times em 2002).

Tal imagem, lugar-comum da política externa, viera de John Quincy Adams. Danner, seis meses antes do ataque ao Iraque, tinha identificado no governo Bush a visão definitiva – ampla, profética, evangélica – de “refazer o mundo” e enfrentar “o mal do terrorismo”, cruzada como não se via nos EUA desde a catastrófica decisão do general MacArthur, com apoio republicano, de expulsar os comunistas da Coréia.

O sonho do mundo unipolar

Numa crítica ampla e bem fundamentada, na mesma linha, o professor da Universidade de Harvard Stanley Hoffman lembrou o documento que Dick Cheney, então à frente do Pentágono, encomendara em 1992 – um esboço de estratégia para substituir a do confronto Leste-Oeste da guerra fria. Era uma doutrina de política externa radicalmente nova, partindo do pressuposto de que a dominação militar é que constituia a excepcionalidade mais relevante dos EUA (conheça AQUI a análise de Hoffman).

Na forma original, aquele esboço de DPG (Orientação de Política de Defesa) de Cheney introduzira a idéia da ação militar unilateral, uso preventivo da força e manutenção de um arsenal nuclear suficientemente vigoroso para dissuadir outros (até os aliados) de rivalizar com a potência americana. Tal projeto abandonava qualquer coisa que a tal “excepcionalidade” pudesse ter significado antes.

O país não é convocado “a cultivar o próprio jardim” (a proposta isolacionista) e nem a perseguir missão mundial via organizações multilaterais que definam e legitimem objetivos comuns. Desejava-se uma América como superpotência única a ditar regras no mundo unipolar, sem explicar como compatibilizar unilateralismo com acordos e compromissos firmados durante décadas na esfera internacional.

Não veio em 1992, com Bush I, mas veio em janeiro de 2001, com Bush II e os neocons de Cheney, desconfiados do resto do mundo. Repúdio ao Protocolo de Kyoto, denúncia do tratado de mísseis antibalísticos, oposição à eliminação de todas as minas terrestres, sabotagem da proibição ampla dos testes nucleares (CTBT), marcha-a-ré no tratado de Roma (que criou o TPI, Tribunal Penal Internacional), etc.

Theocons” na salada ideológica

Esteve nesse contexto até mesmo a vingança extraordinária de Bolton, quando subsecretário de Estado, contra países signatários do TPI que não aceitavam os acordos bilaterais para isentar os americanos das ações do tribunal. A “nova excepcionalidade” definia o estado de espírito do governo Bush, no qual somavam-se quatro tendências na pressão para levar a doutrina adiante:

1. a dos xerifes (Cheney, Rumsfeld), ainda frustrados com o recuo de Reagan ao abraçar Gorbachev e amortecer o fim da URSS;

2. os novos imperialistas, que vêem tudo em preto-e-branco (atores e eventos internacionais), considerando os EUA força pelo bem (e que os fins justificando os meios);

3. os fundamentalistas religiosos, com sua visão no contexto da guerra cultural pelos valores tradicionais, políticos e religiosos;

4. a fauna vaga e variada “dos amigos de Israel” (Paul Wolfowitz, Richard Perle, Douglas Feith, etc), que vê os EUA e Israel como democracias cercadas de inimigos e obrigadas a usar força militar para sobreviver.

Hoffman juntou “neocons” e “theocons” (conservadores teocráticos) na salada ideológica de Bush. E foi sugestivo o comentário sobre a quarta tendência – gente que só define a posição depois de se perguntar se é bom para Israel.

Essa linha, mal vista durante anos no Departamento de Estado, ganhou afinal o poder no Pentágono (outro motivo para a rivalidade entre “neocons” e “realistas”. Tão íntimas eram as relações de Wolfowitz, Perle e Feith com o Likud israelense que em 1996 eles produziram o projeto para Benjamin Netanyahu, linha-dura do Likud, romper com o processo de paz de Oslo (saiba mais detalhes AQUI, na análise do Observer de Londres)

Ditando as leis, contra todos

O fato é que a “nova excepcionalidade” de Bush fez diferença. O extremismo e o triunfalismo de neocons e theocons contrastaram com o realismo de teóricos e diplomatas tradicionais, como Reinhold Niebuhr, Hans Morgenthau, George Kennan, até Henry Kissinger, que preferiam avaliação serena baseada na prudência e na moderação.

Para livrar os EUA de supostas amarras de tratados e alianças, alegava-se que a Constituição americana não permite submissão a lei mais alta, mesmo instrumento jurídico internacional, e nem transferência, conchavo ou delegação de soberania a organismos mundiais. (Hoffman prefere ver nisso “imperialismo benevolente”).

Obcecados pelo poder militar, neocons atacam os europeus por dar ênfase a “desafios” como “conflito étnico, imigração, crime organizado, pobreza e degradação ambiental”, ao invés das “ameaças” destacadas pelos EUA. Invoca-se a força bruta: “Nós a temos em abundância, os outros não. Daí Rumsfeld e Bolton quererem ignorar organizações e leis internacionais. Se os aliados não se dobram à nossa vontade, tornam-se inoportunos e desnecessários.” De fato Rumsfeld e Bolton acabaram saindo. Mas Cheney continua lá – até o fim do mandato de Bush.

Published in: on maio 8, 2008 at 12:22 pm  Deixe um comentário  

O escândalo dos analistas militares da TV

 

Rumsfeld com os \ Presume-se que esta foto foi feita quando o ainda secretário da Defesa  Donald Rumsfeld explicava a generais reformados – e transformados,  insolitamente, em “analistas militares” – o que deviam dizer em suas  próximas intervenções na TV. Durante a guerra do Iraque, o mundo ficou  sabendo que  jornalistas da  grande mídia corporativa (e não só eles)  costumam ir para a  cama com o  Pentágono (para usar tradução não ortodoxa e nem precisa do verbo embed). Mas coube ao New York Times, a  20 de abril de 2008 (quando também publicou a foto), a revelação mais completa sobre o fenômeno inverso: a infiltração de militares reformados nos veículos da mídia.

Mais especificamente, o Times teve o mérito de expor o que telespectadores dos EUA estão cansados de ver mas em geral sem consciência explícita de que é a máquina de propaganda do Departamento da Defesa em ação. “Por trás das análises da TV, a mão oculta do Pentágono” – conforme proclamou, com suficiente clareza, o próprio título da reportagem, assinada pelo jornalista David Barstow (leia AQUI o texto).

A reportagem causou impacto principalmente porque seis fotos a cores mostravam na tela da TV algumas dessas novas estrelas do jornalismo: os generais Wayne Downing (NBC), Tom McInerney (Fox News), Bob Scales (Fox News), Don Sheppard (CNN), Montgomery Meigs (MSNBC) e o coronel Ken Allard (MSNBC), todos militares reformados transformados em “jornalistas”.

Servindo ao governo e à indústria

Nem todos os “analistas militares” estavam nas fotos. Um dos mais atuantes da NBC, por exemplo, era o general Barry R. McCaffrey, importante chefe militar na guerra do Golfo de 1991 e acusado depois de crimes de guerra, em reportagem de 32 páginas de Seymour Hersh para a revista New Yorker (leia mais AQUI; e a resposta do general AQUI) e mais tarde Czar das Drogas (de 1996 a 2001, no governo Clinton). Ele aparecia, com outros, em foto diferente, participando de um debate no programa “Meet the Press”.

Em razão da reportagem, veio uma cobrança da organização FAIR (iniciais em inglês de “Honestidade e Precisão na Reportagem”), sempre atenta ao monitoramento da mídia pela esquerda nos EUA (leia AQUI o texto). Pois o Times mostrou a relação promíscua do grupo com o Pentágono, que dava a eles os temas e as análises na forma de talking points, e com fornecedores do Pentágono, nos quais costumavam faturar alguma grana.

O general McCaffrey, no início da guerra, chegara ao desplante de fazer o que mais parecia comercial ao vivo de armas de fábricas cujo conselho de administração integrava. “Temos de agradecer a Deus pelos tanques Abrams e pelos carros de combate Bradley”, afirmou uma vez, referindo-se a produtos da IDT (ele integrava ainda os conselhos da Mitretek, Veritas Capital e Raytheon Aerospace).

Aquelas relações promíscuas

Que credibilidade podem ter esses militares como analistas na mídia, se estão abertamente comprometidos tanto com a política do Pentágono como com a indústria de armas, que lhes paga salários? Mas ao se ver diante do escândalo, os diferentes veículos optaram pela omissão (saiba mais AQUI sobre a porta de vai-e-vem que leva autoridades civis e miitares do Pentágono para a indústria de armas). Até agora, duas semanas depois de publicada a reportagem, diz a FAIR, a mídia simplesmente foge do assunto.

No entanto, o Times publicou grande número de cartas de leitores e no site do jornal sairam cerca de 1.500 emails. A rede Fox News, que tem até programas sobre supostos heróis dessa e outras guerras (como o “War Stories”, do coronel Oliver North, criminoso condenado pelo escândalo Irã-Contras), continua a usar com frequência seus “analistas militares” sem se referir ao conflito de interesses deles. (Veja abaixo, à direita, North com a fantasia de repórter da Fox News)

Coronel North fantasiado de repórter da Fox

Já o governo Bush pareceu mais preocupado. Seis dias depois da publicação da matéria, o Pentágono suspendeu temporariamente o programa que tinha criado para passar talking points e diretivas propagandísticas aos “analistas” (leia AQUI a explicação oficial do Stars & Stripes, o jornal das Forças Armadas). O artigo, conforme explicou, tinha levantado dúvidas, que agora estão sendo examinadas, sobre possível impropriedade nas relações com eles.

Amizade, patriotismo e paixão

Há cinco anos, na edição de 21 de abril de 2003, a revista The Nation revelara que tanto McCaffrey como Downing, eram membros fundadores da organização “Comitê para a Libertação do Iraque”, criada com o propósito de se engajar em esforços de propaganda para mobilizar o apoio dos EUA e internacional a políticas para depor Saddam Hussein, inclusive divulgação na mídia.

The Nation fizera referência ainda ao pagamento de corporações fornecedoras do Pentágono a militares reformados como aqueles “analistas”. Diante disso, parece no mínimo insólito que o único comentário nas redes de TV sobre o tema tenha sido o do âncora Brian Williams, da NBC (propriedade da General Electric, fabricante de armas para o Pentágono), em seu blog no site dessa rede.

Publicada a reportagem do Times, Williams defendeu o uso de dois militares (e logo quem: McCaffrey e Downing) como analistas “confiáveis”. Alegou que fez “rapidamente boa amizade com eles”, a pretexto de que “esses dois caras nunca me deram o que considero linha do partido”. E mais: “Oficiais reformados são patriotas apaixonados”. Mas serão essas as qualificações que o jornalismo deve procurar em analistas?

Published in: on maio 6, 2008 at 5:47 pm  Deixe um comentário