O fracasso de Bush contra Bin Laden

No tempo da guerra fria o Partido Democrata tinha de fazer o diabo para escapar à acusação de que era “mole com o comunismo”. Dissolvida a União Soviética, continuou suspeito de não ser suficientemente firme em questões de armas e defesa nacional. E como o 11/9 aconteceu no governo Bush, os republicanos passaram a culpar o antecessor Bill Clinton de ter falhado no combate à ameaça terrorista no mundo.

Em 2008 a direita tenta pintar Barack Obama como incapaz de ser comandante-chefe ou enfrentar o terrorismo. A dupla Bush-McCain insiste nisso. Se fosse Hillary Clinton a candidata, enfrentaria campanha igual. Em 2006 o marido dela irritou-se contra a submissão da mídia à versão bushista do 11/9. Clinton disse à Fox News: “Nós dois falhamos. Eu ao menos tentei. Ordenei ataques, autorizei até o assassinato de Bin Laden. Por que vocês não perguntam a ele (Bush) o que fez? Nunca tentou nada, apesar de advertido por nós sobre a gravidade do problema”.

Antes do 11/9 muita gente referiu-se à ameaça. A dois meses da tragédia do World Trade Center escrevi: “Apesar de ter sido iniciado no terrorismo pela CIA, que coordenava a guerrilha islâmica contra os russos no Afeganistão, Bin Laden só virou celebridade nos EUA ao atacar embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia”. Estávamos no final de junho de 2001. Esta coluna explicava que Bin Laden era citado em jornais e TVs como alvo maior do esforço antiterrorista do governo Clinton no mundo.

A pior de todas as ameaças

Naqueles dias o embaixador dos EUA no Paquistão, William Milam, tinha feito dura advertência ao regime talibã de que seria responsabilizado “por qualquer ataque, em qualquer parte, a interesses americanos”. Milam tivera conversa de uma hora na embaixada local do Afeganistão (no poder mas não reconhecido pelos EUA), conforme informara à imprensa o embaixador afegão, Mullah Abdul Salam Zaeef.

Ele garantira ao diplomata dos EUA que os talibãs não permitiam a Bin Laden usar território afegão para atacar alvos americanos. No New York Times o colunista Thomas Friedman imaginara um memorando de Bin Laden a seus “operadores de campo” no qual considerava grande vitória medidas tomadas pelos EUA (como a retirada de forças em três países árabes) após ser interceptada conversa de terroristas em celulares sobre atentados que se planejavam.

Os EUA ofereciam então recompensa de US$ 5 milhões pela captura de Bin Laden – ilustre desconhecido até três anos antes. O que o público sabia dele devia-se então a uma reportagem da rede ABC, veiculada em junho de 1998, na qual fora entrevistado pelo jornalista John Miller. Foi quando abriu o jogo e fez esta ameaça: “Os americanos têm de morrer. E não vamos distinguir militares de civis”.

Vigilância até por satélite

Em seu reduto do Afeganistão, protegido por 3 mil adeptos, armas automáticas, lançadores de foguetes, etc., era vigiado até por satélite. Miller ouvira ainda o assessor de Segurança Nacional de Clinton, Sandy Berger, que explicou por que levava a sério a ameaça: “Bin Laden hoje é o mais perigoso terrorista do mundo”. Mas Bush chegou, Berger passou o cargo a Condoleezza Rice e não se falou mais no assunto.

Em junho de 2001 a mídia voltou a ocupar-se dele por causa do debate na ONU das sanções que se tentava impor aos talibãs para forçar a entrega de um militante extremista. E em tribunais dos EUA terroristas em julgamento foram acusados por atentados como os da África, contra alvos americanos, alguns não concretizados – como os da passagem do século nos EUA. Seriam de Bin Laden, como outras ações anteriores, inclusive a morte de soldados americanos na Somália em 1993.

As imagens na TV dos corpos de americanos arrastados pelas ruas de Mogadíscio, que tinham chocado o país, levaram agentes a arquivos de computador de terroristas, ligando o caso a Bin Laden. E mais: em tribunais de Nova York, um saudita, um tanzaniano, um jordaniano e um americano nascido no Líbano foram então acusados de ações terroristas para Bin Laden. Ou seja, sob Clinton a CIA e o FBI agiam; sob Bush não.

O erro da direita republicana

O ataque em outubro de 2000, no Iêmen, ao USS Cole, da Marinha americana (17 mortos, 39 feridos), fora definitivamente atribuído à al-Qaeda do terrorista saudita. Em razão disso ações repressivas continuaram, inclusive a prisão em junho de 2001 de uma dezena e meia de militantes islâmicos extremistas. Surgiu ainda ali a suspeita de que existia plano em andamento para atacar a embaixada americana.

Outros trechos da coluna de Friedman no Times referiram-se a conversas entre Bin Laden e seus adeptos. O colunista espantou-se, pois o governo Bush dispunha-se a gastar US$100 bilhões no escudo espacial antimísseis, contra ameaça inexistente; e ignorava o terrorismo, ameaça real. Era óbvio que terroristas não atacariam com mísseis balísticos intercontinentais (e endereço óbvio do remetente). Friedman imaginava o raciocínio do líder terrorista: “Não usarei um cartaz com a palavra BURRO. Vamos atingi-los da forma como se explodiu a base saudita de Khobar: levas de operadores locais, sem endereço de nenhum país.”

Quatorze foram acusados nos tribunais americanos por aquele atentado. A suposição foi de que os iranianos o coordenaram, mas não havia prova capaz de justificar uma represália. Tudo isso aconteceu a apenas dois meses do 11/9. Friedman avisou. Até minha coluna na Tribuna da Imprensa comentou. Mas o governo Bush nada viu, nada ouviu, nada disse. E culpou Clinton pelo 11/9. A pretexto de que democratas são fracos em defesa nacional.

Anúncios
Published in: on maio 30, 2008 at 7:53 pm  Comments (1)  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2008/05/30/o-fracasso-de-bush-contra-bin-laden/trackback/

RSS feed for comments on this post.

One CommentDeixe um comentário

  1. Caro Argemiro,

    Seu artigo levanta um questionamento sobre as ambigüidades do Governo Bush.

    Dizem por aí que a melhor maneira de um governo fraco e incompetente permanecer no poder é unir o povo em defesa do país contra um “poderoso” inimigo externo.

    Segundo este raciocínio, o Bin foi e continua sendo um inimigo útil, sem o qual o Governo Bush talvez nem tivesse terminado o primeiro mandato. Poucos se lembram das dificuldades de Bush quanto às fraudes nas eleições.

    Ao pesquisar no google as palavras “bin laden”, “american hospital”, veio uma profusão de notícias estranhas como a do link abaixo:

    http://www.globalresearch.ca/articles/CHO311A.html

    Se esta notícia é verdadeira, isto complementa seu artigo, ou melhor, responde a sua questão, se Bush realmente estava empenhado em capturar o Bin.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: