A mentira e a fraude no império de Bush

Enquanto era secretário de imprensa na Casa Branca, apresentando as versões oficiais do governo e respondendo às perguntas dos jornalistas, Scott McClellan parecia discreto e bem educado. Não costumava alterar a voz e às vezes fingia não ter ouvido uma ou outra pergunta mais agressiva. Agora, dois anos depois   de deixar o cargo, está com a boca no trombone, num livro estilo kiss’n tell (beija e conta).

O presidente Bush já teve de enfrentar outros produtos do gênero, até mais contundentes, como os do ex-secretário do Tesouro Paul O’Neill (The Price of Loyalty, assinado pelo jornalista Ron Suskind mas contendo desabafos do ex-secretário), do ex-diretor da CIA George Tenet (At the Center of the Storm) e do ex-assessor de contraterrorismo Richard Clarke (Against All Enemies).

Mas com What Happened: Inside the Bush White House and Washington’s Culture of Deception (O que aconteceu: Por dentro da Casa Branca de Bush e da cultura da fraude em Washington), McClellan tornou-se o primeiro ex-integrante do grupo mais próximo ao presidente, levado por Bush do governo do Texas para a Casa Branca, a embaraçá-lo publicamente com revelações comprometedoras (saiba mais AQUI sobre o livro, cujas encomendas crescem na amazon.com)

Induzido a enganar a mídia

McClellan teve um exemplo na família: já estava na Casa Branca, em 2003, quando o pai Barr McClellan lançou no Texas o livro Blood, Money & Power – How L.B.J. Killed J.F.K. (Sangue, dinheiro & poder – Como LBJ matou JFK) – teoria conspiratória (mais uma) que atribuía a morte do presidente Kennedy ao sucessor Lyndon Johnson em articulação com o superadvogado texano Ed Clark (veja AQUI).

Ao contrário do livro do pai, o do ex-secretário de imprensa – que ainda não chegou às livrarias mas já ganhou a primeira página (ontem) do Washington Post e um espaço destacado no website do New York Times – traz informações francas e bem fundamentadas sobre as trapalhadas, fraudes e mentiras do governo, inclusive a guerra e o vazamento criminoso da identidade da ex-agente Valerie Plame (leia AQUI como o autor defendeu seu livro hoje no Washington Post).

O autor conta no livro, por exemplo, que durante dois anos não sabia ser mentira o que as autoridades do primeiro escalão da Casa Branca mandaram que dissesse à imprensa sobre o caso de Plame, negando o envolvimento do mais alto assessor de Bush, Karl Rove, e do chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Irving Lewis (Scooter) Libby, depois condenado por perjúrio e por mentir no tribunal.

McLellan acredita hoje que foi enganado e que o próprio Bush também foi enganado. Mas Bush somou-se ao poderoso grupo palaciano que buscava convencer o secretário de imprensa a passar informações mentirosas aos jornalistas e à mídia. “As autoridades maiores sabiam a verdade – inclusive Rove, Libby e possivelmente o vice-presidente Cheney. E não apenas permitiram que eu mentisse, mas me encorajaram a continuar repetindo a mentira”.

O mágico de Oz no comando

Como era secretário de imprensa no período que antecedeu a guerra e nos três anos posteriores, McClellan pôde dedicar um capítulo inteiro do livro a analisar a maneira como Bush “vendeu a guerra” aos americanos, sistematicamente ocultando a verdade. Segundo What Happened, Bush “administrou a crise de uma maneira que quase garantia ao país que o uso da força iria se tornar a única opção viável”.

A guerra tornou-se depois, na visão de McClellan, “uma grande trapalhada estratégica”. Ele assinalou que antes, “durante o verão de 2002, altos assessores de Bush tinham delineado uma estratégia para orquestrar cuidadosamente a campanha que viria em seguida com o objetivo de vender agressivamente a guerra. (…) A questão central era como manipular as forças da opinião pública em favor do presidente”.

Apesar de ter sido, no pódio da sala de imprensa da Casa Branca, um defensor resoluto da guerra, McClellan chegaria mais tarde a uma conclusão totalmente diferente. “O que eu sei hoje é que uma guerra só deveria ser desencadeada se realmente fosse necessária. E a guerra do Iraque não era necessária”, escreveu o ex-secretário de imprensa no livro.

Sem chegar a ser explícito, ele sugeriu que o presidente mentia deliberadamente sobre suas razões para invadir o Iraque. No esforço para convencer o país, disse, Bush e seus subordinados, sem a menor dúvida, recorreram à fraude para ter sua guerra. McClellan, ao mesmo tempo, descreveu Cheney como “o mago” que dirigia a política por trás do pano, sem deixar impressões digitais. 

Rove na campanha permanente

Para o blog “Crooks and Liars” (Vigaristas e Mentirosos), talvez a crítica mais importante, apesar de quase ignorada nos jornais) de McClellan seja à “mídia liberal” (Times, Post, grandes redes, etc), por ter sido “submissa e instrumento cúmplice” da “propaganda” que levou à guerra. Os âncoras das três grandes redes (Charlie Gibson, Brian Williams e Katie Couric), entrevistados no “Today” da NBC, só reconheceram erros parciais, dando desculpas esfarrapadas (leia AQUI).

Segundo a reportagem do Post, o autor retratou o presidente Bush como um líder fora da realidade, que operava numa bolha política e se recusava teimosamente a reconhecer quaisquer de seus erros. Apesar de considerá-lo inteligente e capaz de governar o país, McClellan o encara também como “pouco inclinado a refletir sobre o seu cargo – ou incapaz de fazê-lo”.

Para o autor do livro, “um executivo mais autoconfiante não se furtaria a reconhecer o fracasso e confiaria na capacidade das pessoas de perdoar aqueles que buscam redimir-se de erros, dispondo-se a mudar o rumo”. Mas Bush, ao contrário, deixava-se iludir pelos próprios artifícios enganosos que tinha passado a usar na tentativa de convencer outras pessoas.

O presidente e sua Casa Branca, acredita McClellan, operavam numa campanha política permanente, administrada por Rove. Bush tinha jurado que, ao contrário do pai, não iria perder a reeleição. “Isso significava manter-se numa campanha contínua: nunca explicar, nunca desculpar-se, nunca recuar. (…) E essa estratégia tinha repercussões: nunca refletir, nunca reconsiderar, nunca transigir. Principalmente em relação ao Iraque”.

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Published in: on maio 29, 2008 at 6:02 pm  Deixe um comentário  

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