Ainda Hillary, no fim da linha

 O escorregão da senadora Hillary Clinton na sexta-feira pode ter sido definitivo. Ela sentiu a barra e voltou à carga domingo amontoando mais explicações numa carta ao tablóide Daily News de Nova York (veja a capa ao lado). O burocrático pedido de desculpas dela à família Kennedy antes, como se o rival Barack Obama não fosse parte da equação, subestimou o episódio. Como destacou o blog de política do New York Times (The Caucus), pode ter sido um dos piores dias de toda a carreira política da ex-primeira-dama (saiba mais AQUI).

Ao tentar justificar a atual obsessão dela em continuar uma campanha na qual já está há muito derrotada, Hillary disse que a definição em 1992 a favor do marido Bill Clinton só ocorreu em meados de junho de 1992. E para completar lembrou explicitamente o assassinato de Bob Kennedy, também em junho (no dia 6, há 40 anos), momentos depois da vitória dele na primária da Califórnia. Antes de Hillary, o republicano Mike Huckabee fizera piada de mau gosto ao falar na NRA, o maior lobby de armas do país (veja abaixo, via YouTube: ouve-se um barulho e ele diz que era Obama jogando-se no chão ao ver alguém apontar-lhe uma arma).

Ainda que Hillary tenha alegado mais tarde que o nome Kennedy estava na cabeça dela naquele dia por causa da doença do senador Ted, tendo a citação resultado disso, o apresentador Keith Olbermann, da rede de cabo MSNBC, mostrou como desde o início de março ela vem citando, de forma também obsessiva, o assassinato do senador Bob Kennedy na campanha de 1968. Aquela fora a terceira ou quarta vez.

Kennedy, Luther King, Obama

O que teria isso de tão mau, considerando a relevância da tragédia daquele ano para o Partido Democrata e o país? Ora, o general Colin Powell, apontado em 1995 como o nome largamente preferido pelos americanos, dos dois partidos, para a eleição presidencial de 1996, desistiu ante a ameaça de sua mulher Alma de abandoná-lo, pois estava convencida de que ele seria assassinado na campanha (leia AQUI como o site da BBC deu a informação em 2002, com base no livro Bush at War, de Bob Woodward).

Na atual campanha Obama recebeu a primeira ameaça tão logo declarou-se candidato à Casa Branca. É sabido que outras vieram depois, justificando a rigorosa proteção dada a ele pelo serviço secreto desde julho de 2007. E a morte de Bob Kennedy há 40 anos, como sabem os americanos, ocorreu apenas dois meses depois do assassinato do reverendo Martin Luther King Jr.

Em Nova York outro pastor negro – Al Sharpton, que apoiou as duas campanhas de Hillary para o Senado mas há algum tempo transferiu dela para Obama a sua preferência presidencial – transmitiu a Hillary sua indignação. Ele contou ao Daily News ter falado com ela sábado sobre a referência que fez ao assassinato de Bob Kennedy. “A senadora entendeu a firmeza de meus sentimentos”, acrescentou (leia AQUI). 

O fósforo e o ambiente inflamável

Leitores daquele tablóide novaiorquino também reagiram com irritação. “É repugnante, Hillary chegou ao fundo do poço”, disse um. “Ela fez um favor a Obama, agora ele não tem sequer de considerar a hipótese de oferecer a ela a vice-presidência na chapa”, afirmou outro. “Sugerir que ela continua na disputa porque acha que Obama será assassinado é algo doente e repugnante”, opinou um terceiro.

Sharpton disse aos ouvintes de seu programa de rádio acreditar que nem Hillary e nem o ex-candidato republicano Huckabee, que fez a piada na NRA (Associação Nacional do Rifle), não tiveram más intenções. “Mas o ambiente é inflamável. (…) É preciso ter muito cuidado ao se usar uma caixa de fósforos”, explicou o reverendo em Nova York.

Ao pedir desculpas à família Kennedy (e também na carta ao jornal), a senadora garantiu que buscava apenas justificar o prolongamento da campanha até junho, dando ênfase ao fato de ser isso “normal”, tendo também acontecido em outros anos. Ela e alguns de seus assessores insistiram na tese. Um deles, Mo Elleithee, declarou, irritado, que as palavras da senadora foram distorcidas. Numa declaração raivosa considerou “equivocado” e “ultrajante” o que estava sendo publicado.

A campanha e o ódio racial

Mas alguns rejeitam a alegação dela sobre a “normalidade” do calendário eleitoral e a doença do senador Ted Kennedy: Hillary já vinha insistindo há algum tempo em citar o assassinato de 1968. “As disputas primárias costumavam durar mais tempo”, disse à revista Time a 6 de março. “Todos nós lembramos da grande tragédia do assassinato de Bob Kennedy em junho de 1968. (…) Levar a disputa até junho não é incomum”.

O raciocínio, no entanto, é duvidoso, pois a disputa de 2008 já se tornou a mais longa da história. Começou muito antes de qualquer outra. O calendário foi virado pelo avesso e a própria primária da Califórnia, antes realizada em junho, este ano foi antecipada para a Super Terça-Feira de 5 de fevereiro. Olbermann, ao questionar duramente o argumento de Hillary na MSNBC, usou palavras contundentes.

Num “comentário especial”, denunciou até a decisão dela de ficar repetindo a palavra “assassinato” em meio a uma campanha marcada por ódio racial, ódio sexista e ódio político. E mais: “Num momento em que existe um medo, não declarado mas bem vivo, de que de novo nesse panorama político conturbado o alvo pode ter um homem negro, que está disputando a presidência” (clique a imagem abaixo do You Tube para ouví-lo destroçar, em 10 minutos, toda a argumentação dela).

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Published in: on maio 26, 2008 at 4:02 pm  Deixe um comentário  

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