Mais uma falsificação histórica na TV

 Circula há algum tempo pelos canais de cabo uma versão bushista do 11 de setembro – a minissérie The Path to 9/11, docudrama produzido pela rede ABC, propriedade da nesna Walt Disney Company que antes tentou censurar o Farenheit 9/11 de Michael Moore. Segundo o conhecido site Media Matters for America, de crítica de mídia, ela não escorregou apenas ao tentar transferir para a administração anterior os erros grosseiros do governo Bush em relação ao terrorismo.

Outra reputação que saiu gravemente comprometida na falsificação histórica praticada pela Disney-ABC em 2006, afirmou, foi a do especialista em terrorismo John P. O’Neill. Agente do FBI até agosto de 2001, ele deixou o emprego desgostoso com o desinteresse do governo Bush pela luta antiterrorista e aceitou o cargo de chefe da segurança do World Trade Center, onde morreria no dia 11 de setembro.

O próprio ator que interpretou o papel de O’Neill no filme da ABC, Harvey Keitel, manifestou graves reservas pela maneira como seu personagem foi retratado no roteiro. Um artigo publicado em setembro de 2006 pelo tablóide New York Post citou as críticas de Keitel. Percebendo a inconsistência do script, o ator contratou seu próprio pesquisador – o que lhe permitiu fazer alguns remendos no diálogo.

Os mísseis e a caverna

Esse detalhe ajuda a entender a leviandade das redes de TV dos grandes impérios de mídia como a Disney-ABC. A ABC relutou, mas acabou sendo forçada a mudar alguma coisa no filme – tal o escândalo ao ficar claro que entregara a responsabilidade pelo roteiro a um certo Cyrus Rasnowteh, um conservador bushista obcecado em absolver o governo responsável, de Bush, e culpar seu antecessor Clinton.

Antes mesmo do lançamento da minissérie, outro conservador bushista – Rush Limbaugh, apresentador de talk show de rádio – vangloriou-se em seu programa de ter ouvido do amigo Rasnowteh que o filme ia responsabilizar a equipe de Clinton pelo 11/9. A ironia é que a preocupação maior de Clinton na transição de governo fora alertar Bush para a gravidade da ameaça representada por Bin Laden.

Desde o primeiro momento a nova equipe republicana subestimou as ameaças daquele chefe terrorista enfurnado numa caverna do Afeganistão. O compromisso de Bush era injetar centenas de bilhões de dólares na indústria de armas a fim de ser retomado o chamado escudo espacial (ou “guerra nas estrelas”), a defesa antimísseis imaginada no governo Reagan contra a URSS, dissolvida em 1989.

A trama por trás das câmeras

O filme era, desde o início, uma megafraude – dificilmente tornada menos agressiva aos fatos depois dos remendos. Por isso mesmo a extrema direita, com papel conspícuo para o controvertido Limbaugh, saudou antecipadamente a minissérie como portentoso evento político, a dois meses da eleição (na qual Bush perderia o Senado e a Câmara). Limbaugh e outros tiveram acesso exclusivo às informações sobre o filme, privilégio negado a críticos do governo Bush.

O fato de também O’Neill ser difamado é relevante. Ele se tornara, no FBI, o maior estudioso de Bin Laden. Encontrara muita incompreensão, ainda no governo Clinton, por insistir nesse rumo. Mas a trombada maior veio já no governo Bush, quando decidiu demitir-se do bureau e aceitar o emprego no World Trade Center – convencido de que quase certamente seria tentada ali uma nova ação terrorista.

Estão entre os alvos do roteirista, juntamente com O’Neill, o próprio Clinton, acusado de desviar a atenção de Bin Laden ante a fúria republicana do impeachment, sua secretária de Estado Madeleine Albright e o assessor de segurança nacional Sandy Berger. Mas em agosto de 1998, ao ordenar o ataque a Bin Laden em seguida às explosões no Quênia e Tanzânia, Clinton tinha sido ridicularizado pela oposição republicana com a alegação oposta – de que atacara Bin Laden para desviar a atenção do caso Lewinsky.

O estranho consultor remunerado

Também grave na controvérsia da minissérie que tanto entusiasmou os bushistas foi o envolvimento do próprio presidente da comissão que investigou o 11/9 – Thomas Kean, o republicano transformado pela ABC em consultor pago da fraude. A intenção do império Disney era certamente transformar aquela ficção leviana de Rasnowteh numa espécie de versão oficial a ser abraçada pelos livros de história.

A comissão tivera integrantes republicanos e democratas, que trabalharam sob a coordenação de um republicano (Kean) e um democrata (Lee Hamilton). Fora uma receita hábil, tentado certo equilíbrio. Kean acabaria forçado, ao estourar a controvérsia da mini-série, a reconhecer que há coisas no filme que não estão no relatório da comissão. E depois destinou a organizações de caridade a remuneração recebida.

Os produtores fingiram ignorar que o presidente Bush buscou deliberadamente retardar, mais de um ano, a criação da comissão (as de Pearl Harbor e da morte de John Kennedy vieram poucos dias depois do fato). Além disso, impuseram-se limitações ao depoimento do próprio Bush. Nenhum presidente no passado ousou manipular uma investigação de forma tão desavergonhada. O docudrama da ABC foi mais um esforço nessa direção.

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Published in: on maio 24, 2008 at 1:36 pm  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Prezado Argemiro, te acompanho lá da Tribuna da Imprensa e fiquei grato por saber que você escreve num blog. Muito bom!
    Lendo seu artigo sobre o 11 de Setembro me perguntei se você iria mencinar algo sobre a polêmica de que os ataques ao WTC e ao pentágono foram, como dizem, INSIDE JOB. Você teria algum comentário sobre isso? Algum artigo escrito? Gostaria de conhecer sua opinião sobre o assunto.
    Um forte abraço!
    Renato
    PS: Se preferir pode responder direto no meu e-mail.

  2. Somehow i missed the point. Probably lost in translation 🙂 Anyway … nice blog to visit.

    cheers, Oise!

  3. Argemiro Ferreira? Um completo imbecil, sem o menor pudor em materializar com essa análise(?) tendenciosa, a sua vergonhosa posição contra os princípios que tornaram forte a nação norte-americana.
    A esquerda americana aglutinada no partido democrata, via-de-regra, quando no poder, concorre para o enfraquecimento dos EUA, sobretudo, pela implantação da sua deletéria cartilha liberal. Além do mais, são covardes, indecisos e incapazes de arriscarem-se pelo próprio país.
    E é graças a contribuições de raivosos e medíocres anti-americanos, com acesso aos meios de comunicação, que tais ¨vultos¨ da esquerda escapam de terem revelado a sua faceta deletéria, blindando com isto as suas falsas biografia.


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