Bush, Obama e a ameaça hitlerista

Ao atacar “os democratas”, com a intenção clara de atingir Barack Obama (por se dispor a conversar com o Hamas ou o Irã), o presidente Bush reviveu o fantasma do primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (saiba mais sobre ele AQUI, no 10 Downing St), que assinou o pacto de Munique com Hitler, e ainda o de um senador isolacionista dos EUA, William Borah (veja perfil dele AQUI, na análise da AP), a quem se atribui a fantasia de que, se ele tivesse podido falar antes com Hitler, não teria havido guerra.

Bush tem sido sempre um desastre quando se mete a fazer analogias históricas. Mas desta vez pode ter ido longe demais, como sugeriu num artigo o jornalista Robert Parry (leia-o AQUI). Chamberlain é exorcizado como “apaziguador” (palavra cuja conotação negativa é bem mais vigorosa no original inglês, “appeaser”). Pareceu insólito, em especial, Bush ter insistido na figura do senador Borah, há muito esquecido.

O escorregão primário do presidente foi esquecer, talvez de propósito, que Borah era republicano como ele – e não democrata como Obama. Isolacionista da velha escola, acompanhou a linha do senador Henry Cabot Lodge (saiba mais AQUI sobre ele), que liderou os republicanos, depois da I Guerra Mundial, contra o presidente democrata Woodrow Wilson. Apesar de ter assinado na conferência de Versailles a adesão dos EUA à Liga das Nações, ali criada, Wilson viu a ratificação do Senado acabar inviabilizada pela campanha de Lodge.

Os bons negócios numa guerra

No desdobramento, com a Liga das Nações enfraquecida pela ausência dos EUA, abria-se caminho à ascensão de Hitler na Alemanha. Nos EUA, o Partido Republicano, minado pela ala isolacionista, subestimava a crise na Europa, apesar da preocupação crescente do presidente democrata Franklin Roosevelt com o fascismo de Mussolini, no poder na Itália, e o avanço, na Alemanha, do nacional-socialismo.

A ironia de agora é que Bush, ao se voltar contra o republicano Borah e apontá-lo à execração pública, esqueceu o papel de seu próprio bisavô Samuel Bush (1863-1948) e do avô Prescott Bush (1895-1972). O primeiro, associado à família do magnata de ferrovias E.H. Harriman, foi conselheiro do presidente Herbert Hoover, associando-se ainda aos Rockefeller e sua Standard Oil/Esso (conheça AQUI o livro de Kevin Phillips que retratou a dinastia Bush).

Já na II Guerra, os Bush (que na anterior tinham a indústria de armas Buckeye Steel Castings, que fabricava munição, canos de canhão e outras armas) dobrariam a fortuna graças ao casamento de Prescott com a filha do banqueiro de investimentos (e também bisavô do atual presidente) George Herbert Walker (1875-1953), Dorothy (Dottie) Walker.

O banqueiro que ajudou Hitler

Ao falar no Parlamento israelense, o presidente Bush lembrou com desprezo o senador republicano Borah – culpado apenas de ter sido isolacionista. Poderia, no entanto, ter lembrado o próprio avô, Prescott Bush. A parte mais controvertida da biografia deste ocorreu durante a II Guerra, quando era diretor e acionista do banco United Banking Corporation (UBC).

Ele vendia à máquina de guerra da Alemanha hitlerista armas e material crítico para a indústria, financiando as operações, depois de ter comprado do industrial nazista Fritz Thyssen, chamado de “anjo de Hitler”, a Consolidated Silesian Steel Corporation – acusada de usar trabalho escravo de prisioneiros de Auschwitz. Na certa o Parlamento israelense gostaria de conhecer essa faceta da família Bush.

Quando detalhes sobre o caso sairam na imprensa americana em 1942 causaram escândalo, forçando o governo a agir: investigou o UBC de Prescott Bush e o enquadrou na Lei de Transações com o Inimigo, assinada pelo presidente Franklin Roosevelt na semana seguinte ao ataque de Pearl Harbor (dezembro de 1941). O banco sofreu intervenção: ainda pôde operar mas teve de renunciar aos lucros que obtidos ajudando a máquina de guerra nazista.

Depois, o ingresso na política

Por que Prescott Bush, pai do ex-presidente George H. W. Bush e avô do atual, George W, não sofreu punição dura, à altura da acusação? O governo Roosevelt evitou aprofundar-se na questão, pois queria os homens de negócios unidos no esforço de guerra. Temia o risco de também sairem chamuscados na investigação gigantes como a Standard Oil, os Rockefeller, o Chase Manhattan e a General Motors.

Toda essa história está contada em O Império Contra-Ataca – As guerras de George W. Bush, antes e depois do 11 de setembro, meu livro lançado em 2004 pela editora Paz e Terra. Já em 1943, talvez convencido de que a memória do país é fraca, Prescott Bush teve o cuidado de se distanciar do UBC. Mas a ajuda do banco da família Bush a Hitler tinha ocorrido exatamente na época em que a máquina de guerra alemã horrorizava a Europa – do período da invasão da Polônia e da França, do bombardeio de Londres e da criação dos campos de extermínio.

Prescott Bush passaria algum tempo à frente da arrecadação de dinheiro para o Fundo Nacional de Guerra (NWF). Seu filho George H. W. Bush tornou-se piloto de guerra no Pacífico até sofrer um grave acidente. Terminado o conflito, Prescott iniciou o longo envolvimento da dinastia Bush na política: cumpriu mandatos no Senado dos EUA, pelo estado de Connecticut, entre 1952 e 1963, quando se aposentou. Morreu nove anos depois. O filho dele tornou-se presidente em 1988 e o neto em 2000 e 2004.

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Published in: on maio 21, 2008 at 3:16 pm  Deixe um comentário  

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