Eleição e guerra, no Vietnã e no Iraque

Entre os ataques que o próximo candidato presidencial democrata vai sofrer estará aquele clássico “nega apoio às tropas” – devido ao atual esforço da oposição contra o financiamento da guerra (leia AQUI, numa análise do Los Angeles Times, como a Câmara derrotou sexta-feira um dispositivo de financiamento). Peter Beinart, acadêmico e jornalista, tornou-se respeitado entre conservadores da área de política externa porque em 2003, apesar de politicamente liberal e crítico de Bush, apoiou a invasão do Iraque (sem questionar as razões fraudulentas para desencadeá-la) e rotulou seus opositores de “linha Michael Moore”.

Estava então assustado com a “ameaça do fundamentalismo islâmico”. Mas nos anos seguintes mudou, em razão da lambança de Bush no Iraque. E hoje condena vigorosamente a guerra e a maneira como é conduzida pelo governo republicano. Em The Good Fight: Why Liberals – and Only Liberals – Can Win the War on Terror and Make America Great Again, seu livro publicado em 2006, defendeu a posição – proclamada já no título de que “só os liberais podem ganhar a guerra ao terrorismo” (saiba mais AQUI sobre o livro).

Soa estranho, claro – e parece um tanto oportunista. Mas Beinart (formado em Yale, bolsista Rhodes, mestrado em relações internacionais em Oxford, hoje no Council on Foreign Relations) costuma desfrutar de espaço generoso na mídia. Em artigo publicado em março de 2007 na revista Time, ele afirmou com firmeza que a oposição democrata agora não pode ter medo de sustar o financiamento da guerra do Iraque, mesmo quando o governo invoca paralelos com o Vietnã. O que ela devia temer, ao contrário, é não fazê-lo (leia AQUI o artigo do Time).

O partido das derrotas?

O raciocínio dele levava em conta o debate que se desdobrava dentro do Partido Democrata – com a participação de parlamentares e dos candidatos potenciais à presidência. A ala mais antiguerra do partido, ativa e radical, insistia, mesmo depois do veto de Bush, em que podia e devia repetir a façanha, aprovando várias propostas para continuar encurralando o Executivo – e dificultando cada vez mais o financiamento das operações militares, como a oposição tinha feito à época do Vietnã.

Comentaristas da grande mídia e boa parte dos políticos democratas, para a felicidade da Casa Branca e dos republicanos, sempre alegam, certamente por causa da derrota de George McGovern para Nixon em 1972, que aquela votação sobre o Vietnã arrasou os democratas. Partidários de Bush, com amplo respaldo nos veículos de comunicação, tentam ainda rotular o partido da oposição de “antipatriota”, a pretexto de que “adora perder uma guerra”.

Em resposta, Beinart fez o óbvio. Buscou restabelecer a verdade sobre o que de fato aconteceu há três décadas: 1. a lei sobre as verbas das operações militares do Vietnã só foi aprovada em 1973; 2. no ano seguinte, cortou-se a ajuda ao governo de Saigon; 3. ainda em 1974, os democratas ganharam esmagadoramente as eleições intermediárias (Congresso, governadores); 4. em 1976, com a ajuda do escândalo de Watergate, os democratas retomaram a Casa Branca.

Imagens definidas na mídia

A proposta de corte de recursos para a guerra, cada vez mais apoiada no país, pode até resultar negativa, mas isso nada teria a ver com a década de 1970 (quando havia ainda, claro, o fator Watergate). Hoje Bush tem o mais baixo índice de aprovação da história e mais de 60% dos americanos são contrários à sua guerra. O medo a um “efeito Vietnã” é mera fantasia amplificada na mídia – tão falsa como a das ADM (armas de destruição em massa).

Para Beinart, o perigo para o Partido Democrata no debate do Iraque não é o de se opor muito agressivamente; ao contrário, é o de não ser suficientemente agressivo na oposição. Para reeleger-se em 1972, aliás, o presidente Richard Nixon buscou passar a imagem de que poria fim à guerra; seu adversário McGovern ficou associado à anistia para desertores e à comparação que fez então entre os EUA e os nazistas.

Apesar de ter voltado da II Guerra Mundial com condecorações por bravura, McGovern foi pintado na mídia em 1972 como caricatura do democrata “fraco em defesa nacional”. Era falso: piloto da Força Aérea do Exército, voara 35 missões de bases do Norte da África e da Itália sobre território inimigo e fizera aterrissagem forçada com seu bombardeio em pane, numa ilha do Mediterrâneo, para salvar sua tripulação (leia AQUI um lúcido artigo de McGovern em resposta a uma referência de Dick Cheney, que nunca lutou numa guerra).

Contra as operações militares

A ênfase no atual papel da mídia é minha, não de Beinart. Para ele, o Partido Democrata tornou-se mais moderado nos anos Clinton. “Nas duas últimas eleições presidenciais – escreveu – os republicanos atacaram Al Gore e John Kerry menos como radicais ideológicos do que como oportunistas que mudam de opinião conforme o vento, dizendo coisas convenientes para ganhar votos”.

Segundo tal raciocínio, o mais importante é a oposição democrata definir com clareza sua posição favorável ao corte das verbas da guerra, mesmo tendo de suportar a acusação governista de que nega “apoio às tropas”; do contrário, deixará de mostrar uma posição firme. O Partido Democrata, assim, teria de proclamar inequivocamente o que pensa: acabar com sua guerra do Iraque, retirar as tropas dos EUA.

Só faltou, na verdade, Beinart reconhecer que a imagem de “oportunismo”, a ser exorcizada, resultou menos do comportamento democrata do que da manipulação eficaz da mídia pelo adversário – no laboratório Karl Rove. Afinal, essa mesma mídia é que omitira o passado de AWOL (desertor) de Bush e reduzira heróis de guerra condecorados (McGovern, Kerry) à condição de traidores e oportunistas.

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Published in: on maio 17, 2008 at 4:35 pm  Deixe um comentário  

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