Aula de ciência no império Fox de mídia

Como já foi dito aqui antes, o jornalismo da corporação do magnata australiano Rupert Murdoch – dono do império de mídia News Corp – que só nos EUA (fora o resto do mundo) engloba hoje a Fox e seus penduricalhos da TV, provedores via satélite, tablóides de escândalo e o antes respeitado Wall Street Journal – não é pior e nem melhor do que o do império Globo (jornais, TVs, etc) dos irmãos Marinho. É igual.

Nossa versão tupiniquim tem o mérito de estar apenas em território brasileiro. Tenta fraudar eleições e derrubar governos, mas só no Brasil, onde fracassou ao tentar transferir para Moreira Franco a vitória de Brizola no Rio em 1982, conseguiu inverter (de Lula para Collor) o resultado da eleição presidencial de 1989 e desde 2005 aposta sem sucesso, mas obsessivamente, no impeachment do atual presidente.

Nos EUA, Grã-Bretanha e Austrália, onde se envolve mais na política local, a News de Murdoch nunca foi tão longe como a organização Globo no Brasil, mas o jornalismo das duas é igualmente repugnante. A retomada agora da obsessão contra o ex-vice-presidente Al Gore lembra a da Globo contra Lula. O novo pecado de Gore: relacionou a tragédia da Birmânia às mudanças climáticas e aquecimento da Terra.

A culpa da flatulência bovina

 Brit Hume no seu \O “Special Report with Brit Hume” (foto à esquerda), jornal político diário da Fox News, de uma hora, tem uma seção de fuxico e intriga (“Grapevine”) para ridicularizar os vilões da casa, como Gore. E na parte final do programa, as supostas estrelas do jornalismo político (os Fox’s All Stars), como os ideólogos neoconservadores Bill Kristol e Charles Krauthammer, debatem a sério os grandes temas do país e do mundo.

Como o ódio da Globo a Lula aumentou com a ousadia dele em ganhar a eleição de 2006, o da News-Fox a Gore e defensores do meio-ambiente cresceu com o Nobel da Paz. Na tela da Globo, Lula é apedeuta e parasita, cria “mensalões”, “apaga” aeroportos, mata passageiros. Na da Fox, o aquecimento da terra se deve não a emissão de gases da indústria e combustíveis fósseis e sim a ventosidades (flatulência) de bois e vacas pelo mundo.

Para desautorizar estudos científicos, o jornalismo Murdoch faz piadas sobre a capacidade singular de bois e vacas na emissão de gases pelo ânus – o que vem sempre acompanhado de pesquisas duvidosas de desconhecidos (o último que vi citado era “um cientista da Nova Zelândia”), contestando (na certa em troca de remuneração da indústria) o conhecimento antiflatulento acumulado pela ciência.

Os principais especialistas em flatulência no império Murdoch, não por acaso, são os mesmos neocons que denunciavam as armas de destruição em massa de Saddam Hussein e conclamavam os americanos a invadir e ocupar o Iraque. Dois deles, Kristol (foto abaixo) e Fred Barnes, dirigem para Murdoch a revista ideológica Weekly Standard”, que se anuncia como “a mais lida na Casa Branca”.Bill Kristol

Crimes do Nobel são outros

Valia a pena ouvir Kristol dissertar em outubro do ano passado sobre o tema ventosidade: “Este homem (Al Gore) ganhou o Nobel da Paz por flatular sobre aquecimento global. (…) É um prêmio dado por flatulosos a um flatuloso, por coisa alguma. (…) O comitê Nobel tem os temas de que gosta. Voltou a destacar um deles. Apontou os holofotes para fazer o aquecimento global brilhar. Foi isso o que ele fez”.

Ao lado de Kristol, o outro ideólogo – Krauthammer, cuja coluna às vezes sai em O Globo – ofereceu este enfoque: “Gore une-se agora ao bloco de Arafat, pai do terrorismo moderno; Le Duc Tho, que firmou tratado em nome de governo que dois anos depois invadiu e extinguiu o país com o qual o assinara; e o mais infame, Jimmy Carter, (…) que fez lobby contra a guerra de seu próprio país no Golfo”.

Notem o detalhe: ele condenou o Nobel por ter premiado Arafat (esqueceu que foi junto com Yitzhak Rabin e Shimon Peres); Le Duc Tho (omitiu que este rejeitou o prêmio como hipócrita, pois a guerra continuava, mas que o criminoso de guerra americano Henry Kissinger foi lá e o recebeu); e o americano Carter. E daí concluiu: “o Nobel da Paz é ‘o Kentucky Derby da esquerda mundial'”.

De fato, em toda a sua história, desde 1901, o Nobel premia mal. Não por causa dos exemplos de Krauthammer e sim pelos absurdos que ele omitiu: os americanos Ted Roosevelt, da gunboat diplomacy; o secretário da Guerra dele, Elihu Root; Woodrow Wilson, que envolveu os EUA na guerra de 1914 depois de se eleger eleger com a promessa de manter o país fora dela; Kissinger, o pior de todos; e outros.

O herói esquecido do bushismo

Os neocons de Murdoch ainda ofereceram no ano passado sua análise sobre os possíveis efeitos do Nobel de Al Gore na disputa das primárias democratas. A conclusão então apresentada foi de que o ex-vice-presidente não tem a menor chance, principalmente porque o quadro dos candidatos potenciais já estava definido – com vantagem consolidada para Hillary Clinton. Erraram mais uma vez na futurologia.

O comentarista negro Juan Williams, então da rede pública de TV (PBS), hoje na de rádio (NPR), discordou de Kristol e Krauthammer naquele programa. Para ele Gore está de volta, no topo do mundo. O que levou Kristol a acusá-lo: “Você compara Gore a Madre Teresa”. Para Mara Liasson, também da NPR, seria difícil mudar o quadro das primárias na época. Verdade? Não. Sobre Hillary o quadro mudou totalmente.

Pitoresco ainda foi Kristol, no mesmo dia, atacar a imprensa e em especial o New York Times (no qual, por ironia, escreve hoje uma vez por semana), acusado de destacar o Nobel de Gore e ignorar a medalha de honra dada por Bush dias antes a um tenente da Marinha que serviu no Afeganistão. “Há algo de podre na nossa cultura”, disse. “Não reconhece heróis genuínos. Mas dá prêmio e badala alguém por fazer um filme”. É isso aí: como bushista, ele prega mais guerra. Assim fabricar mais heróis – e medalhas de honra.

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Published in: on maio 13, 2008 at 2:04 am  Deixe um comentário  

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