Os anos de Tenet no centro da tormenta

 

 

 

 

Lançado há um ano, o livro At the Center of the Storm: My Years at the CIA (No centro da tormenta: meus anos na CIA) tornou-se documento histórico relevante por ser um depoimento e uma espécie de acerto de contas entre o autor, o ex-diretor da Agência Central de Espionagem, George Tenet, e o grupo neoconservador que o usou para justificar a decisão desastrada da “invasão preventiva” do Iraque em 2003.

Suas 549 páginas fazem duro retrato do governo Bush, a que Tenet serviu por quase quatro anos (leia AQUI mais informações sobre o livro). O autor contou que antes da guerra sofreu pressão da Casa Branca para apoiar as alegações sobre existência de armas de destruição em massa (AMD) e depois virou bode expiatório: “O governo, em vez de reconhecer sua responsabilidade, passou a alegar: ‘Não temos culpa. Tenet e a CIA é que nos meteram nisso'”.

O livro descreve com sarcasmo, por exemplo, uma entrevista de Cheney em setembro de 2006 ao programa “Meet the Press”, da NBC. Ali, o vice-presidente citou duas vezes a expressão de Tenet, slam dunk, como o fundamento para a decisão de ir à guerra. “Ao ver Cheney dizer aquilo, não pude deixar de pensar: ‘Até parece que vocês precisavam de mim para convencê-los a atacar o Iraque'”, escreveu.

Uma guerra sem “debate sério”

A indignação levou Tenet ainda mais longe. Cheney e outras altas autoridades, segundo disse, empurraram o país para a guerra sem sequer conduzir um único “debate sério” a respeito da questão central – se Saddam Hussein era mesmo uma ameaça iminente aos EUA. “Que eu saiba, nunca houve esse debate”, afirmou. Ele sugeriu, ao mesmo tempo, que o Iraque poderia, sim, ser contido sem uma invasão.

Tenet não contestou a expressão slam dunk (equivalente ao nosso “favas contadas”), com a qual, segundo versões oficiais, teria ratificado a existência das ADM. Mas sua história é diferente. Suas palavras, conforme escreveu, foram tiradas do contexto. Tinham pouco a ver com a decisão de Bush de lançar a guerra, mas foram simplesmente usadas depois para fazer dele e da CIA bodes expiatórios.

Tenet assumiu a responsabilidade pela desastrada NIE (Avaliação Nacional de Inteligência) da CIA em 2002 sobre programas de armas do Iraque. “Foi um dos meus piores momentos em sete anos à frente da CIA”, escreveu. Para ele, o texto devia ter tido mais nuanças. Tenet também alegou no livro que na ocasião estava de fato convencido de que Saddam tinha armas não convencionais. Mas às vésperas do primeiro aniversário da invasão Tenet discutiu a NIE e afirmou que o Iraque não representava ameaça iminente (leia AQUI).

No livro, Tenet defendeu ainda, vigorosamente, os programas da CIA iniciados depois do 11/9, inclusive a prática da tortura e o uso de prisões secretas em outros países. Evitou ser explícito em relação às técnicas. E invocou, para tal violação do Direito Internacional e dos direitos humanos, sua convicção pessoal de que a al-Qaeda estava determinada a atacar de novo os EUA e os americanos.

Leviandade e irresponsabilidade

O ex-diretor da CIA poupou no livro a pessoa do presidente Bush, de quem recebera – antes de deixar o cargo – a Medalha da Liberdade, uma das mais altas condecorações civis do país. Sobre a medalha, alegou que não estava muito convencido de que devia aceitá-la. Só concordou depois de certificar-se de que as razões invocadas eram apenas “o trabalho da CIA contra o terrorismo e não o Iraque”.

Os alvos de Tenet foram principalmente Cheney e seus neocons, o grupo ideológico que agia no governo. Como dois dos apadrinhados do vice-presidente no Pentágono, Paul Wolfowitz (depois demitido do Pentágono e forçado a renunciar à presidência do Banco Mundial, por ter recorrido ao nepotismo em favor da namorada) e Douglas Feith. Os dois apostaram histericamene na guerra desde o 11/9.

Tenet vangloriou-se pelo menos de uma vitória sobre Cheney, talvez a única: o veto imposto ao discurso que o vice-presidente pretendia fazer na véspera da invasão. No texto, Cheney pretendia alegar que os vínculos entre a al-Qaeda e o Iraque, nunca provados, “iam muito além do que os dados de inteligência mostravam”.

Depois de ler o discurso, Tenet escreveu ao próprio Bush: “Sr. presidente, não podemos endossar o texto. É um discurso que não devia ser feito”. De fato, a leviandade de Cheney ali excedera-se mais uma vez – o que a equipe de especialistas da CIA acabaria por comprovar na inspeção final sobre as ADM, depois da ocupação militar do Iraque.

Como Bin Laden foi ignorado

No livro, Tenet comprometeu ainda a então assessora de Segurança Nacional da Casa Branca, Condoleezza Rice, e o adjunto (e sucessor) dela, Stephen Hadley. Os dois ficaram do lado errado, apoiando a lorota lida por Bush em 2003, no seu discurso do Estado da União, sobre o fantasioso urânio africano de Níger – que Saddam Hussein teria supostamente tentado comprar para sua bomba nuclear.

Quem escapou ileso no livro foi o antecessor de Rice no Departamento de Estado, Colin Powell – aliado de Tenet em algumas escaramuças internas no governo. Na célebre apresentação de Powell perante o Conselho de Segurança da ONU, ele estava sentado a seu lado, como um fiador (leia AQUI sobre a entrevista à ABC na qual Powell lamentou o fiasco sem culpar Tenet). Depois da invasão, ainda em 2003, Powell contou a ele ter havido, “caloroso debate” no avião presidencial sobre se a Casa Branca devia manter Tenet à frente da CIA. O presidente decidiu a favor da permanência, contra a opinião de Cheney e outros.

O ex-diretor da CIA garantiu ter feito numerosas advertências, muito antes do 11/9, sobre a ameaça representada por Osama bin Laden. Mas nos oito primeiros meses de Bush, os apelos urgentes da CIA sobre o terrorismo eram recebidos com desagrado na Casa Branca. Só depois dos ataques terroristas, segundo Tenet, a CIA conseguiu ter os poderes que vinha reclamando desde janeiro de 2001.

 

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Published in: on maio 10, 2008 at 12:41 am  Deixe um comentário  

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