O escândalo dos analistas militares da TV

 

Rumsfeld com os \ Presume-se que esta foto foi feita quando o ainda secretário da Defesa  Donald Rumsfeld explicava a generais reformados – e transformados,  insolitamente, em “analistas militares” – o que deviam dizer em suas  próximas intervenções na TV. Durante a guerra do Iraque, o mundo ficou  sabendo que  jornalistas da  grande mídia corporativa (e não só eles)  costumam ir para a  cama com o  Pentágono (para usar tradução não ortodoxa e nem precisa do verbo embed). Mas coube ao New York Times, a  20 de abril de 2008 (quando também publicou a foto), a revelação mais completa sobre o fenômeno inverso: a infiltração de militares reformados nos veículos da mídia.

Mais especificamente, o Times teve o mérito de expor o que telespectadores dos EUA estão cansados de ver mas em geral sem consciência explícita de que é a máquina de propaganda do Departamento da Defesa em ação. “Por trás das análises da TV, a mão oculta do Pentágono” – conforme proclamou, com suficiente clareza, o próprio título da reportagem, assinada pelo jornalista David Barstow (leia AQUI o texto).

A reportagem causou impacto principalmente porque seis fotos a cores mostravam na tela da TV algumas dessas novas estrelas do jornalismo: os generais Wayne Downing (NBC), Tom McInerney (Fox News), Bob Scales (Fox News), Don Sheppard (CNN), Montgomery Meigs (MSNBC) e o coronel Ken Allard (MSNBC), todos militares reformados transformados em “jornalistas”.

Servindo ao governo e à indústria

Nem todos os “analistas militares” estavam nas fotos. Um dos mais atuantes da NBC, por exemplo, era o general Barry R. McCaffrey, importante chefe militar na guerra do Golfo de 1991 e acusado depois de crimes de guerra, em reportagem de 32 páginas de Seymour Hersh para a revista New Yorker (leia mais AQUI; e a resposta do general AQUI) e mais tarde Czar das Drogas (de 1996 a 2001, no governo Clinton). Ele aparecia, com outros, em foto diferente, participando de um debate no programa “Meet the Press”.

Em razão da reportagem, veio uma cobrança da organização FAIR (iniciais em inglês de “Honestidade e Precisão na Reportagem”), sempre atenta ao monitoramento da mídia pela esquerda nos EUA (leia AQUI o texto). Pois o Times mostrou a relação promíscua do grupo com o Pentágono, que dava a eles os temas e as análises na forma de talking points, e com fornecedores do Pentágono, nos quais costumavam faturar alguma grana.

O general McCaffrey, no início da guerra, chegara ao desplante de fazer o que mais parecia comercial ao vivo de armas de fábricas cujo conselho de administração integrava. “Temos de agradecer a Deus pelos tanques Abrams e pelos carros de combate Bradley”, afirmou uma vez, referindo-se a produtos da IDT (ele integrava ainda os conselhos da Mitretek, Veritas Capital e Raytheon Aerospace).

Aquelas relações promíscuas

Que credibilidade podem ter esses militares como analistas na mídia, se estão abertamente comprometidos tanto com a política do Pentágono como com a indústria de armas, que lhes paga salários? Mas ao se ver diante do escândalo, os diferentes veículos optaram pela omissão (saiba mais AQUI sobre a porta de vai-e-vem que leva autoridades civis e miitares do Pentágono para a indústria de armas). Até agora, duas semanas depois de publicada a reportagem, diz a FAIR, a mídia simplesmente foge do assunto.

No entanto, o Times publicou grande número de cartas de leitores e no site do jornal sairam cerca de 1.500 emails. A rede Fox News, que tem até programas sobre supostos heróis dessa e outras guerras (como o “War Stories”, do coronel Oliver North, criminoso condenado pelo escândalo Irã-Contras), continua a usar com frequência seus “analistas militares” sem se referir ao conflito de interesses deles. (Veja abaixo, à direita, North com a fantasia de repórter da Fox News)

Coronel North fantasiado de repórter da Fox

Já o governo Bush pareceu mais preocupado. Seis dias depois da publicação da matéria, o Pentágono suspendeu temporariamente o programa que tinha criado para passar talking points e diretivas propagandísticas aos “analistas” (leia AQUI a explicação oficial do Stars & Stripes, o jornal das Forças Armadas). O artigo, conforme explicou, tinha levantado dúvidas, que agora estão sendo examinadas, sobre possível impropriedade nas relações com eles.

Amizade, patriotismo e paixão

Há cinco anos, na edição de 21 de abril de 2003, a revista The Nation revelara que tanto McCaffrey como Downing, eram membros fundadores da organização “Comitê para a Libertação do Iraque”, criada com o propósito de se engajar em esforços de propaganda para mobilizar o apoio dos EUA e internacional a políticas para depor Saddam Hussein, inclusive divulgação na mídia.

The Nation fizera referência ainda ao pagamento de corporações fornecedoras do Pentágono a militares reformados como aqueles “analistas”. Diante disso, parece no mínimo insólito que o único comentário nas redes de TV sobre o tema tenha sido o do âncora Brian Williams, da NBC (propriedade da General Electric, fabricante de armas para o Pentágono), em seu blog no site dessa rede.

Publicada a reportagem do Times, Williams defendeu o uso de dois militares (e logo quem: McCaffrey e Downing) como analistas “confiáveis”. Alegou que fez “rapidamente boa amizade com eles”, a pretexto de que “esses dois caras nunca me deram o que considero linha do partido”. E mais: “Oficiais reformados são patriotas apaixonados”. Mas serão essas as qualificações que o jornalismo deve procurar em analistas?

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Published in: on maio 6, 2008 at 5:47 pm  Deixe um comentário  

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