Atores políticos e cultura do espetáculo

de Ray Bartkus para o N.Y. TimesEsta ilustração do vaudeville de Rove, Bush & Cheney, que nos introduz ao tema, foi feita por Ray Bartkus em 2006 para o New York Times. Mas começo recuando no tempo: ainda candidato republicano à presidência, Ronald Reagan foi perguntado uma vez, em entrevista, sobre as críticas de que o fato de ser apenas ator de cinema o desqualificava para o alto cargo. A resposta, provavelmente estudada e ensaiada antes, candidata-se a um lugar na História: “O que não entendo é como alguém que não seja ator possa candidatar-se a presidente”.

Os presidentes que o sucederam parecem provar que Reagan estava certo. O professor Muniz Sodré, mestre de comunicação e crítico de mídia convencido de que “somos tomados pela cultura do espetáculo”, pode nos ajudar a entender isso. Ele acha que a realidade tende a ser espetacularizada, conforme afirmou numa entrevista ao Observatório da Imprensa (leia AQUI a entrevista). Basta observar os casos dos sucessores de Reagan – de Bush I (seu vice) a Bush II, atual presidente.

O velho Bush, a quem faltava a capacidade histriônica de Reagan, derrotou um democrata também sem talento para o show business (Mike Dukakis, primo de atriz de Hollywood) e fracassou no poder. Ao tentar a reeleição, perdeu para Bill Clinton, cuja vocação para ator permitiu-lhe derrotar depois os republicanos empenhados em derrubá-lo. E Clinton ainda continua no palco da política, mesmo fora da Casa Branca.

Um implacável crítico de teatro

Pelo menos uma biografia de Bush II (Fortunate Son – George W. Bush and the Making of an American President, de J.H. Hatfield) relatou o fascínio dele, quando ajudava a dirigir a campanha do pai em 1992, com o estilo de Clinton (saiba mais AQUI sobre esta discutida biografia). Neto de senador e filho de presidente, percebia a importância do “teatro” na política. E chegou ao poder usando o metteur-en-scène Karl Rove. É bom de show business.

Em 2006 foi lançado nos EUA o livro The Greatest Story Ever Sold – The Decline and Fall of Truth, from 9/11 to Katrina (A maior história jamais vendida – O declínio e a queda da verdade, do 11/9 ao Katrina). Seu autor, Frank Rich (conheça o livro AQUI), foi um implacável crítico de teatro do New York Times, que depois o transfornou em colunista do teatro da política (e da vida).

Nessa condição, horroriza-se com a conduta dos impérios de mídia, que são ao mesmo tempo corporações de espetáculo e entretenimento. Nelas prevalece o infotainment, com meios cada vez mais sofisticados de falsificar a realidade. Assim, o tema do corrosivo Rich no livro é a criação de uma falsa realidade, como destacou Ian Buruma ao analisar The Greatest Story Ever Sold (leia AQUI a crítica e ouça a entrevista de Rich que a acompanha.

Enfeita a capa a célebre foto de Bush metido na fantasia de “piloto de guerra” ao desembarcar no porta-aviões Abraham Lincoln, nosso tema ontem. Embaixo, expressões “vendidas” ao país pela mídia: “Mission accomplished”, “Shock and awe”, “Heckuva Job, Brownie” (elogio à trapalhada no Katrina), “Slam dunk”, “Dead or alive”, “Bring’em on”, “The smoking gun as a mushroom cloud” etc.

Realidade fraudada e violentada

O governo Bush, segundo Rich, mentiu consistentemente para “vender” a guerra ao país – e a mídia prestou-se a isso. Escreve Buruma, ao analisar o livro: “Ela [a mídia] nos contou no fim de 2001 que Dick Cheney garantia estar confirmada a ligação de autoridade iraquiana com Mohamed Atta, terrorista do 11/9. No verão de 2002 Cheney disse que Saddam ‘continuava a desenvolver arma nuclear’ e, sem dúvida, tinha ‘armas de destruição em massa’, além de citar a prova dos ‘tubos de alumínio’ (primeira página do New York Times, via Judith Miller e M. Gordon) com os quais o Iraque ‘enriquecia o urânio’. O urânio, nos disseram, tinha sido conseguido pelo Iraque em Níger, o que levou o presidente Bush a dizer ao país, em outubro de 2002, que “diante dessa clara evidência da ameaça, não precisamos esperar que venha a prova definitiva na forma de um cogumelo atômico sobre o país'” (leia AQUI o célebre artigo do embaixador Joe Wilson que desmascarou a mentira de Bush).

Mas hoje se sabe, como destaca o livro, que nem uma só dessas alegações – que constituíram os pretextos oficiais para invadir o Iraque e fazer a guerra – tinha qualquer resquício de verdade. E as desculpas posteriores, de que houve falha de inteligência, foram desmentidas num memorando britânico que à época já dizia francamente: “Foi tudo fabricado para justificar a política decidida antes” (saiba mais AQUI sobre o memorando de Downing Street).

O memorando britânico, redigido pelo diretor de inteligência de Sua Majestade, era de julho de 2002. Fora feito como informação interna, oficial e factual. Mas o livro de Rich destaca o papel da mídia na “venda” da mentirada toda à opinião pública dos EUA e do mundo. E destaca no esforço um personagem especial – o jornalista Bob Woodward, do Washington Post.

O assassinato do jornalismo

Para Rich, o novo desempenho de Woodward fora oposto ao de 1972-74 no caso Watergate, que levou Richard Nixon à renúncia. Ele publicou dois livros em dois anos – Bush at War em 2002 (veja AQUI) e Plan of Attack em 2004 (AQUI). Neles as fontes (mesmo as anônimas) são oficiais, refletem a posição de Bush e seu governo. Woodward, que conquistara a reputação com investigações na periferia e críticas ao poder, passou a servir a este.

Buruma deixa claro que o livro de Rich mostra como, começada a luta, o show business entrou logo em cena. No Afeganistão, um produtor de Hollywood, Jerry Bruckheimer, obteve livre acesso às tropas para fazer série de TV sobre a valentia dos soldados americanos – acesso igual fora negado aos jornalistas, e nem repórteres do Washington Post de Woodward tiveram permissão para aquela cobertura.

Mais tarde, no Iraque, veio a encenação da estátua de Saddam, depois o caso da soldadinha Jessica Lynch – um pacote fraudulento que o Pentágono entregou à imprensa pronto e acabado (saiba mais AQUI sobre o filme de TV com a história dela, Saving Jessica Lynch, feito em 2003). Quem ousou denunciar a fraude sobre Lynch (nem ela própria confirmou a versão do Pentágono) foi rotulado de esquerdista. Mas espetáculo ainda maior foi quando Bush repetiu, no porta-aviões Abraham Lincoln, o Tom Cruise do filme Top Gun (AQUI, o filme).

Convenhamos que Rich tem razão. Só um crítico de teatro é capaz de analisar tantos espetáculos, com produção assumida docilmente por essa mídia submissa, que está assassinando o jornalismo.

Anúncios
Published in: on maio 3, 2008 at 1:48 pm  Comments (1)  

The URI to TrackBack this entry is: https://argemiroferreira.wordpress.com/2008/05/03/atores-politicos-e-cultura-do-espetaculo/trackback/

RSS feed for comments on this post.

One CommentDeixe um comentário

  1. Perguntar não ofende
    O que achas da criação de uma chapa que una Barack Obama e Hillary Clinton para concorrer ao pleito presidencial americano ao lado de John Mc Cain?
    REnato Monteiro
    Curitiba – PR


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: