A fantasia de Bush no Primeiro de Maio

Os mártires de Haymarket

Os EUA deram ao mundo a data do feriado dos trabalhadores – o 1° de Maio do massacre de Haymarket na Chicago de 1886, que levaria ao julgamento de oito anarquistas por assassinato, à execução de quatro e ao suicídio de um na prisão (veja os mártires acima e saiba mais AQUI sobre a tragédia). A data é comemorada hoje em todo o mundo – menos nos EUA, que optaram por inventar outra, móvel (e em agosto), para um Dia do Trabalho bem diferente.

Mas 117 anos depois, por ironia, o 1° de Maio tornou-se data significativa e merecedora de atenção também nos EUA. Pois nesse dia, em 2003, o presidente George W. Bush, que em 19 de março tinha ordenado o “ataque preventivo” contra o Iraque, a pretexto de armas de destruição em massa que não existiam, desembarcou fantasiado de piloto de guerra no porta-aviões Abraham Lincoln (veja a foto de baixo, à direita).

Ali posou para fotos fingindo-se herói de guerra, embora tecnicamente fosse apenas desertor do serviço militar (buscou proteção de cima para não ter de lutar no Vietnã). Sob a faixa “Missão cumprida”, ele discursou, anunciando o fim “das grandes operações da guerra” do Iraque (veja AQUI o orgulho com que o site da Casa Branca relatou o suposto feito). Mas as operações continuaram – e em seguida àquele 1° de Maio, quando os mortos americanos ainda eram apenas 134, morreram mais 3.924, fora os soldados iraquianos e mais de 1 milhão de civis.

O falso herói da Casa Branca

Anestesiada depois do 11/9 pela histeria patrioteira que ajudou a disseminar pelo país, a grande mídia americana, omissa, assistiu encantada à encenação daquele 1° de Maio no convés do porta-aviões. Hoje ela ensaia timidamente um mea culpa envergonhado. Mas veículos alternativos, em especial na Internet, já contam a história completa – e em especial o papel cúmplice desempenhado pelos jornais e pela TV naquele dia.

O jornalista Eric Alterman, da revista The Nation e do site “Media Matters for America”, é um dos que tentam refrescar a memória dos americanos sobre o que se fez na mídia naquele dia (leia AQUI a coluna dele). Lembrou, por exemplo, o apresentador Chris Matthews, da rede MSNBC (associação da NBC com a Microsoft). Este não hesitou em trazer a palavra do patrioteiro G. Gordon Liddy, um criminoso condenado do escândalo Watergate, hoje apresentador de rádio.

Disse Liddy: “Al Gore teve de arranjar alguma mulher para dizer a ele como ser homem. Mas aí está George Bush no seu uniforme de vôo, no convés, com paraquedas e tudo. (.) É uma característica de macho. (…) Ele acaba de ganhar o voto de todas as mulheres. (…) Todas aquelas mulheres que dizem que tamanho não é documento – elas mentem. É só checar”.

Matthews, contagiado, não se conteve: “O presidente parece um astro do vôo a jato. Ele é um piloto de jato. Tinha sido no passado, quando era jovem. (…) Agora ganhou a guerra. Foi um comandante eficiente. (…) É um presidente que não verbaliza. Mas é como Eisenhower. Sua aparência é fabulosa vestindo uniforme militar. Também parece extraordinário com roupa de cowboy”.

As celebridades em desfile

Aquele mesmo Matthews ainda pontifica na MSNBC e na NBC, com asneiras diárias, ativíssimo na cobertura eleitoral, atacando Obama. No 1° de Maio de 2003 disse ainda: “Estamos orgulhosos de nosso presidente. (…) Não é complicado como Clinton, Dukakis, McGovern e outros. Queremos gente assim na Casa Branca. As mulheres gostam. Elas adoram esta guerra. E todos gostamos de ter um herói na presidência”.

Sobre a Fox News, escrevi na época. O intelectual Fred Barnes e seu colega Morton Kondrake foram explícitos. “Quem vai conseguir derrotar Bush depois dessa foto em uniforme de piloto de guerra no porta-aviões? Ele está reeleito”, garantiu Barnes exultante. Ao que Kondrake completou: “Aquilo foi fantástico. Uma extraordinária encenação teatral”.

Ouvida por Matthews, a loura desbocada Ann Coulter (que no 11/9 exigira a invasão, assassinato e “depois” conversão dos muçulmanos ao cristianismo), explodiu: “É espantoso, extraordinário, um colosso. Quero dizer, ele aterrissando no barco a 150 milhas por hora. Tremendo! Impossível imaginar um democrata fazendo isso. Não importa que tentem ridicularizá-lo. É espantoso. Fala por si mesmo” (divirta-se AQUI com o site dela).

Brian Williams, hoje âncora da NBC, proclamou: “Duas verdades imutáveis sobre o presidente que os democratas não podem mudar. Ele é um cara jovem. E parece um gato, cheio de energia, naquele uniforme de vôo. Foi piloto, logo isso não é uma forma de arte estranha a ele. Nem todos os presidentes poderiam exibir-se numa cena como essa de hoje”.

Aquilo era mesmo jornalismo?

Outra deslumbrada – também loura e igualmente desbocada -, Laura Ingraham, dona de talk show de rádio na Fox, manifestou-se na época com igual entusiasmo: “Falo como mulher e depois de ouvir mulheres que telefonaram ao meu programa, vendo o presidente sair daquele avião, com o capacete debaixo do braço. Ele é homem de verdade. E cumpre a palavra. Foi um momento muito forte”. (Também vale conhecer AQUI o charme de Ingraham)

O até então respeitado colunista David Broder foi outro que se entregou: “A ‘postura física’ do presidente transmitiu ‘autoridade e comando'”. E Joe Klein, hoje no Time: “Provavelmente foi a imagem presidencial mais ‘cool’ desde que Bill Pullman desempenhou o piloto de jato de combate no filme Independence Day. Foi a primeira coisa que me ocorreu. Mostra os obstáculos que os democratas vão enfrentar na eleição”.

Cinco anos depois, valeria a pena procurar cada um desses (e muitos outros) jornalistas (jornalistas?), alguns deles autores de livros, até best sellers, e perguntar o que acha hoje daquela bobajada que escreveu ou disse naquele dia. Perguntar primeiro se repetiria a baboseira do mesmo jeito ou se mudaria alguma coisa. Mas a pergunta principal seria se eles acham que foi jornalismo. E se o que fazem hoje é jornalismo.

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Published in: on maio 2, 2008 at 2:32 pm  Deixe um comentário  

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