A subserviência da mídia nos EUA, desde Reagan

Numa análise feita no início da década de 1990, o jornalista e professor Ben H. Bagdikian (foto), ex-editor do Washington Post e hoje reitor emérito da Escola de Jornalismo da Universidade da Califórnia em Berkeley, destacou a tendência da mídia dos EUA ao conformismo e à subserviência frente aos poderosos – o que, contraria a idéia generalizada de uma tradição de combatividade, além de desautorizar exageros de jornalistas de toda parte na reverência ao modelo americano de informação.

De acordo com o estudo – de certa forma incorporado à última edição, de 2004, de seu livro clássico The Media Monopoly (saiba mais AQUI sobre o livro), os veículos dos EUA têm preconceitos instintivos em favor do status quo. Para ele, os preconceitos não parecem alterar-se com o tempo. Encarada geralmente como corajosa, a mídia na realidade habituou-se a preferir os temas “seguros”, politicamente neutros, como crimes e desastres naturais, “o que retardou por décadas as análises inteligentes das causas dos acontecimentos”. (Conheça mais sobre suas idéias AQUI, numa entrevista recente dele à PBS, rede pública de TV)

Em tal contexto, não escapa sequer a badalada doutrina da objetividade jornalística. Ainda que reconheça o que ela trouxe de positivo, com suas regras rígidas de observação e verificação até de fatos rotineiros, Bagdikian destaca que gerou falhas ruinosas da reportagem – em guerras, explosões sociais e episódios histório como o macarthismo da década de 1950, quando os delírios levianos de um senador irresponsável eram aceitos devido à “autoridade certificante” de que falam suas regras básicas.

Objetividade ou promiscuidade?

Antes mesmo de Bagdikian, outros praticantes ou estudiosos do jornalismo relacionaram tais regras ao episódio histórico da histeria anticomunista, nem sempre com análises coincidentes. Entre eles, Richard Rovere, James Aronson, Walter Lippman, Edwin Bayley, Alan Barth, Alfred Friendly, Jack Anderson & Ronald May, Douglas Cater, Richard L. Strout, Michael Parenti e Robert Griffith.

O centro do debate é sempre o mesmo: a própria “objetividade”, de certa forma, contribuiu para impedir o jornalismo de desmascarar as mentiras do senador Joe McCarthy. Participantes dessa discussão costumam concordar pelo menos num ponto. Repórteres que cobriam o assunto, inclusive os celebrizados como goon squad (esquadrão panaca), que o seguiam a toda parte, tinham plena consciência da fraude.

Aqueles jornalistas uma vez escolheram McCarthy, por unanimidade, como o pior dos senadores. Então por que suas supostas denúncias e revelações, às vezes inconsistentes e destruidoras de reputações, iam sempre para as manchetes e as primeiras páginas? Se McCarthy não revelou um só nome de espião comunista, por que a mídia amplificava as declarações fraudulentas dele, dia após dia, sem questioná-las?

Observa Bagdikian que muitos jornalistas competentes tinham provas de que as declarações eram ou mentirosas ou distorções grosseiras; em alguns casos isso chegava a ser admitido, privadamente, até pelo próprio senador, em suas tiradas jocosas durante sessões de bebedeira com repórteres e editores.

Submissão a regras duvidosas

Mesmo assim as empresas jornalísticas (com uma ou outra exceção honrosa, em momentos específicos) apegavam-se aos princípios doutrinários segundo os quais contestações tinham de ser feitas oficialmente por autoridades. Respeitado como filósofo da imprensa, Walter Lippman escreveu: “As acusações de traição, espionagem, corrupção e perversão feitas por McCarthy eram notícia, não podiam ser suprimidas ou ignoradas. Partiam de um senador dos EUA, político tido em alta conta no QG do Partido Republicano”.

Sobre a afirmação de Lippman em defesa do comportamento da imprensa, dois jornalistas críticos de McCarthy – Rovere (autor de Senator Joe McCarthy) e Bayley (Joe McCarthy and the Press), que cobriam o tema na época e depois escreveram livros sobre ele – lembraram que também era notícia o fato de um senador mentir e fraudar o país. Mas alegaram que até jornalistas desejosos de expor a situação revelavam-se carentes de “recursos técnicos” para fazê-lo.

“Se era para McCarthy ser chamado de mentiroso, alguém teria de fazê-lo”, explicou Rovere. “A imprensa americana não se julgava suficientemente calçada para publicar matérias tipo ‘Mentiras de McCarthy’ para acompanhar aquelas do tipo ‘McCarthy afirma que…’ Se outros senadores desafiassem cada falsidade ou se um dos dois presidentes do período (Harry Truman e Dwight Eisenhower) se dispusesse a denunciá-lo regularmente, teria funcionado. Mas não foi esse o caso”. (Leia mais sobre estes livros AQUI e AQUI.)

Rovere ainda destacou um detalhe relevante. McCarthy sabia tudo das práticas e regras em vigor na mídia. Servia-se delas Os repórteres até pareciam amestrados por ele, com reflexos pavlovianos. Circulavam histórias sobre a familiaridade do senador com os horários de fechamento de jornais e noticiários de rádio e TV, a pressa na redação das agências e as particularidades do texto delas (lead, overnight, sidebar).

As muitas lições esquecidas

McCarthy ficava dia e noite à disposição dos repórteres. Para agradar e ganhar espaço, oferecia notícia ao ver que elas estavam escassas. Às vezes “desclassificava” documentos secretos antes do governo. Tinha sua técnica pessoal para promover suas entrevistas. Prometia algo para certa hora da tarde, a tempo do fechamento dos vespertinos e do noticiário principal do rádio e da TV, a fim de favorecer também o deadline dos matutinos e jornais da noite no rádio e na TV. Às vezes, à última hora adiava denúncia sensacional para o dia seguinte (a pretexto de “nova pista”).

O período macarthista, enfim, está repleto de lições para os jornalistas e as empresas de comunicação, mesmo depois das mudanças profundas – principalmente na área tecnológica – que vieram. Mas a chave pode ter sido fornecida por Bagdikian, ao contestar a suposta tradição de combatividade da imprensa americana e registrar a tendência dela ao conformismo. E, sem sombra de dúvida, esta foi amplamente confirmada nos últimos sete anos do governo de Bush II.

Nos 12 anos de Reagan-Bush I (1981-1993), a omissão do jornalismo no escândalo Irã-Contras (revelado fora dos EUA, por um pequeno jornal do Líbano) só fez alertar de novo para a inclinação conformista da mídia americana, em especial a corporativa – de resto, exposta de forma contundente em 1988 pelo jornalista Mark Hertsgaard ao retratar em livro o papel dela no governo Reagan. Título: On Bended Knee – The Press and the Reagan Presidency (De Joelhos – A Imprensa e a Presidência Reagan). (Conheça o livro AQUI.)

 

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Published in: on maio 1, 2008 at 3:17 pm  Comments (1)  

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  1. Gostaria de ter mais informações sobre Ben Bagdikian. Daria para enviar?


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