O “Times” contra os desvios de sua candidata

“Após sete anos do estilo fracassado de governo de George W. Bush, na linha do ‘ou-vocês-estão-conosco-ou-estão-contra-nós’, os eleitores americanos merecem ver um debate com nuanças – agora e durante a fase final da campanha – sobre como cada um dos candidatos vai combater o terrorismo, proteger as liberdades civis, enfrentar a crise imobiliária e pôr fim à guerra do Iraque”.

O eixo central dessa queixa do editorial do New York Times na última quarta-feira, 23, foi a conduta da candidata Hillary Clinton na campanha da Pensilvânia (leia AQUI a íntegra, no original inglês). Ela conseguiu ali derrotar o rival Barack Obama, mas para isso recorreu a uma receita negativa e comprometedora para a dignidade do processo político – “o que só pode prejudicá-la, prejudicar o oponente, o partido e a própria eleição de 2008”.

Sob um título bem apropriado, “The low road to victory” (O caminho baixo para a vitória), o jornal advertiu que os eleitores já estão cansados desse rumo inferior, pelo qual “foi ela a principal responsável”, diminuindo o processo político. “A sra. Clinton deixou de obter na Pensilvânia a grande vitória de que precisava para desafiar os dados matemáticos da disputa democrata”, observou.

No arsenal bushista de Rove

É significativo o jornal falar de nuanças. Richard Cohen, no Washington Post, já fizera referência em 2004 à guerra do presidente Bush às nuanças – às gradações, tons e meio-tons, sutilezas e matizes. “Para mim não existe nuança”, disse Bush certa vez a um senador. “No Texas não temos nuança”, afirmou a uma jornalista da CNN. Aos olhos dele é sempre preto e branco, como num filme antigo de cowboy.

A racionalização neomacarthista de Hillary descontenta o Times não apenas por ser este um jornal do estado dela, mas por ter dado apoio público a Hillary em Nova York contra Obama. Agora o editorial acha que “a sra. Clinton e seus assessores devem culpar a si mesmos porque foram fortemente negativos e acabaram por desbaratar boa parte do que tinha sido uma vantagem (na Pensilvânia) de 20 pontos percentuais”.

Na véspera da primária crucial, disse o jornal, “ela se tornou a primeira candidata democrata a mostrar a camisa ensangüentada de 11/9. Num comercial de TV – tirado do manual de truques de Karl Rove – evocou o crack de 1929, Pearl Harbor, a crise dos mísseis de Cuba, a guerra fria e os ataques de 11/9, até com um vídeo de Bin Laden. ‘Se você não agüenta o calor, saia da cozinha’, recitou o narrador” (veja AQUI como o Times noticiou dia 22 a inclusão de Bin Laden na campanha dela). 

A mensagem de guerra ao Irã

Para o Times, se a intenção era dar credibilidade à tese de que ela está melhor preparada para ser presidente num mundo cheio de perigos, “na manhã de terça-feira (22, dia das primárias) a própria sra. Clinton transmitiu a mensagem oposta. Em entrevista à ABC News, declarou que se o Irã atacar Israel enquanto ela for presidente: ‘Nós iremos obliterá-los totalmente'” (veja a reverberação da ameaça nuclear AQUI, num blog do Los Angeles Times).

“Mantendo-se no ataque, sem debater com o sr. Obama a substância de questões como terrorismo, economia e como organizar a retirada do Iraque, a sra. Clinton faz mais do que afastar os eleitores contrários a campanhas negativas. Subverte a própria rationale da sua candidatura, que lhe trouxe o apoio deste e de outros jornais – de que está mais qualificada hoje para ser presidente do que o sr. Obama”.

O editorial admite ter também Obama errado, mas por morder cada vez mais a isca negativa oferecida por ela, o que nega suas próprias alegações de que oferece proposta política mais elevada e inclusiva. Não é mau, para o Times, os dois partilharem dos mesmos valores essenciais e receitas políticas sensatas. “Essa é a força deles, mas fazem o que podem para os eleitores esquecerem isso”.

Os velhos roteiros de cowboy

Os dois errarão também, segundo o jornal, se estiverem achando que somente os democratas prestam atenção “a este espetáculo”. Por isso está chegando a hora, assinalou, de ser feito pelos superdelegados o que se tinha em mente quando foram criados esses superdelegados. Que é preciso encontrar uma saída para a atual disputa desgastante, que não poderá ser resolvida pelo voto (veja AQUI, no blog de política do Times, como mais um superdelegado acaba de aderir a Obama).

“A sra. Clinton já teve uma grande vantagem entre os veteranos e superiores do partido, mas a está perdendo sistematicamente, em grande parte por causa de sua campanha negativa. Se ela ainda tem alguma esperança de convencer aqueles democratas mais leais a voltarem para o seu lado e, mais ainda, conquistar um segmento mais amplo de eleitores, terá de recolher os seus cães de ataque”.

Fica evidente especialmente o desapontamento do Times com os excessos da candidata que indicou a seus leitores como a melhor do Partido Democrata. Afinal ela optou pelo neomacarthismo e pelo belicismo, coerente com o rumo bushista sem nuança, atrelado aos roteiros simplistas dos cowboys da ficção hollywoodiana. Certamente não era isso o que o jornal achava estar recomendando aos eleitores.

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Published in: on abril 28, 2008 at 1:49 pm  Deixe um comentário  

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